terça-feira, 10 de outubro de 2006
Um ex-cineasta formador de opinião e falsos polemistas!
O Oligarca que gosta de desqualificar

terça-feira, 3 de outubro de 2006
O monopólio da mídia

Jéferson Dantas â
Aproxima-se o dia das eleições. Momento de decidirmos os rumos do país, de apostarmos em novos projetos políticos ou de legitimarmos estruturas arcaicas, baseadas no empreguismo em larga escala, populismo desbotado, nepotismo e oligarquias fundadas e alimentadas durante o regime militar. Importante lembrar ainda a função das mídias impressa e eletrônica na cobertura do processo eleitoral e a responsabilidade da mesma na influência da opinião pública. Em tempos de desqualificação de intelectuais de peso - como foi o caso da filósofa Marilena Chauí -, pelo semanário ‘VEJA’, torna-se fundamental compreendermos os limites de atuação dos grandes monopólios do mundo da comunicação.
Na lógica do capital os monopólios ditam as regras do mercado e exigem que a sua oferta seja aceita em larga escala, ainda que o custo/benefício nem sempre seja favorável. Entretanto, imaginar essa lógica no mundo da informação ou do entretenimento é extremamente perigoso. Cai-se na armadilha de todos terem acesso às mesmas informações, reproduzidas ad nauseam em jornais, emissoras de tevê e rádio. A uniformização das notícias, com raríssimas reportagens de peso, introduz o incauto leitor na pachorrenta e miserável explanação de acontecimentos que dizem respeito aos rumos do país, como é o caso do processo eleitoral. Nada razoável aceitar diretrizes editoriais que tem dois pesos e duas medidas. Ainda mais numa democracia frágil como a de nosso país, onde o quarto poder tem mais barganha do que o Estado.
Logo, receio que nos encontremos diante uma imprensa cada vez mais homogênea e assecla de interesses escusos. Como já comentei em artigos anteriores, liberdade de imprensa pressupõe responsabilidade e compromisso ético com o seu leitor. Se assim não for, a falácia do jornalismo independente apenas reforçará o coro das retóricas vazias, e saberemos, perfeitamente, de que lado estará aquele que, teoricamente, preocupa-se com a informação isenta e desvinculada de grandes grupos econômicos.
â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino em São José/SC. E-mail: clioinsone@gmail.com
sábado, 16 de setembro de 2006
A escola dos meus sonhos

Jéferson Dantas
Na escola dos meus sonhos não há grades, nem sinal que lembre ambulâncias ou corpo de bombeiros; há, no entanto, um currículo integrado, educadores comprometidos politicamente, diretores eleitos pelo voto direto, espaços de inclusão lúdicos, pais participativos e estudantes entusiasmados com o processo de aprendizagem. Na escola dos meus sonhos todos são responsáveis pelos encaminhamentos pedagógicos. Há grupos operativos, com tarefas pré-definidas e avaliações permanentes. Sendo um lugar público, a escola dos meus sonhos se define e se identifica com ações públicas, e não com o poder estatal clientelista, alinhado ao favoritismo e ao nepotismo. A escola que povoa meus mais recônditos pensamentos entende a democracia como construção cotidiana, inacabada, imperfeita, porém, prenhe de possibilidades.
A realidade, entretanto, está permeada pelo embrutecimento e o desencanto. Dados do Ministério da Educação (MEC) revelam que o Brasil está com um déficit de educadores na Educação Básica em torno de 710 mil profissionais. Em médio prazo isso será o colapso da nação! Salários pouco atrativos, condições de trabalho desumanas, violência física e simbólica crescente no ambiente escolar, direções indicadas (cargos de confiança) e grades curriculares fragmentadas, são apenas alguns exemplos da desistência sistemática de educadores ingressantes no magistério. Um país que queira ser competitivo tecnologicamente e amadurecido, politicamente, tem de investir em educação de forma robusta, elegendo-a como a prioridade número “um” do país.
Nesta direção, a escola dos meus sonhos não é a utopia incerta, a idealização ad infinitum, as projeções que arrefecem ou vão para as calendas gregas. A escola dos meus sonhos é e sempre será possível, pois se configura como um dos poucos espaços públicos de construção do conhecimento e de exercício da democracia, da ética e da formação política. Desistir desse sonho é desistir da juventude, arremessando-a para a cultura da violência, desapego à vida e ao arrivismo sem fronteiras.
â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino em São José/SC. Articulador do GTEC/FMMC (Grupo de Trabalho Estudos do Currículo do Fórum do Maciço do Morro da Cruz). E-mail: clioinsone@gmail.com
sexta-feira, 8 de setembro de 2006
Indignar-se é preciso...
O gérmen da indignação
Jéferson Dantasâ
A indignação é uma das sensações humanas mais dilacerantes, porém, também é a que mais nos impulsiona à transformação e às reivindicações legítimas. Numa conversa informal com colegas de trabalho tive um exemplo nítido de como a indignação pode ter uma jornada tortuosa, culminando no arrefecimento profundo. Acontece que ouvir de educadores tão jovens a afirmação categórica, imperativa, inquestionável de que o Brasil não tem jeito e não é um país sério, concorre para um sinal de alerta há muito estudado e pesquisado: educadores ingressantes não querem mais trabalhar em escolas! Isto resultará em políticas públicas de valorização do magistério?
Há, contudo, um outro aspecto embutido na indignação arrefecida de meus colegas de trabalho: o desejo de ir embora do Brasil. Ir para um país onde as leis funcionem, onde a impunidade não impere e que a violência social seja tratada como política de Estado, preferencialmente com ações preventivas e que não determinem a chacina de vidas humanas por grupos de extermínio. Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Suécia, Dinamarca, Suíça... Estes são alguns dos lugares sonhados pelos jovens trabalhadores brasileiros. Potencialidades que o nosso país exporta a custo zero. Se tiverem sucesso, não voltam mais! Cuidarão de seus filhos longe do Brasil e lembrarão deste território em épocas de copa do mundo, num misto de exílio, exotismo e resignação.
Deste modo, indignar-se atualmente não tem mais a mesma compreensão semântica dos tempos de enfrentamento à ditadura militar ou a qualquer forma de autoritarismo (estatal ou privado). A indignação do tempo presente se limita às bravezas, explosões momentâneas e um profundo mal-estar, principalmente pela ausência da coletividade. Tenho cultivado a minha indignação entremeada ao lirismo. Mas, acima de tudo, há a recusa explícita do conformismo. A resignação é a desistência da Vida. Seria a vitória triunfal de Tânatos. Que o nosso Eros criador possa ser maior que a incompetência dos homens públicos e que nos orgulhemos deste país repleto de contradições, armadilhas, alegrias e muitas vezes sem nenhum caráter, tal qual o mito macunaímico.
â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino
domingo, 27 de agosto de 2006
Candidato ao Senado por Santa Catarina decreta o fim das ideologias!

Por Jéferson Dantas
Um determinado candidato a senador por Santa Catarina tem pedido aos seus leitores no horário eleitoral gratuito um voto de confiança, “independente das ideologias”. Isto me chamou bastante a atenção, afinal escolhemos os representantes do poder Legislativo não só pelo seu histórico, mas, sobretudo pelo seu entendimento de sociedade e pela maneira como a sua agremiação partidária se comporta na elaboração de leis que atendam ao bem comum. O candidato decretou o “fim das ideologias” com a maior tranqüilidade, estabelecendo uma nova regra: os eleitores não precisam mais se preocupar com os matizes ideológicos de direita, centro ou esquerda; estão todos no mesmo barco (ou saco).
Embora a credibilidade da classe política se encontre bastante abalada, onde impera a impunidade e a corrupção nos três poderes, engana-se quem acredita que as ideologias estão mortas e sepultadas. O movimento histórico nos últimos vinte anos, com o fim do socialismo real e a hegemonia praticamente absoluta do neoliberalismo, apenas nos aponta com gravidade a necessidade da sociedade civil se reinventar. Em outras palavras, urge a elaboração de uma contra-hegemonia que recupere a força das utopias, de uma sociedade mais justa e igualitária. A violência crescente e o fosso cada vez maior entre a opulência e a miséria é responsabilidade do Estado sim! Porém, quando o Estado se desresponsabiliza de suas funções primordiais, jogando para o mercado o equilíbrio social e econômico, temos aí uma opção de classe, ou seja, a ideologia da classe dominante e a manutenção do statu quo de um determinado segmento social.
Logo, as ideologias não morreram e estão longe de serem sepultadas. O candidato ao senado por Santa Catarina comete um equívoco premeditado. Aposta na velha máxima de que os(as) eleitores(as) votam no “indivíduo” e não na ideologia partidária. As coligações inimagináveis, as bravatas de auditório e homens públicos comprometidos com as velhas oligarquias é que precisam ser desveladas em Santa Catarina. Se as opções são cada vez mais exíguas, que pelo menos saibamos reconhecer as práticas discursivas dos(as) candidatos(as) ao Congresso Nacional, discursos esses que beiram ao cinismo, baseados na crença de que os(as) eleitores(as) são ingênuos(as) e não sabem separar o joio do trigo.
segunda-feira, 21 de agosto de 2006
Mídia e desqualificação do(a) educador(a)

Por Jéferson Dantas
Tem me causado muita surpresa a maneira como um grande grupo empresarial da mídia na região sul tem tratado a questão da educação em Santa Catarina. São matérias sistemáticas em periódicos impressos e também nos telejornais diurnos e noturnos que desqualificam os educadores catarinenses, invertendo a lógica de que a precarização da educação pública é, acima de tudo, uma questão estrutural e não simploriamente “culpa” de quem tem formado gerações inteiras de catarinenses.
Uma das últimas matérias publicadas por este importante grupo empresarial da mídia, apontou em “rápidas pinceladas” que os atestados médicos dos professores se ampliaram consideravelmente no mês de julho, denotando, aparentemente, que os professores estão se utilizando artificiosamente dos atestados para não trabalharem. Ou seja, as juntas médicas estão sendo coniventes, certamente (?). Nunca li neste periódico uma matéria consistente sobre as doenças psíquicas e físicas que os educadores sofrem nos ambientes escolares, muitos deles sucateados e impróprios para a prática pedagógica. Apenas para citar, a síndrome de burnout e o assédio moral são apenas algumas das situações corriqueiras em várias escolas catarinenses e do Brasil como um todo.
Já em seus telejornais, a empresa tem reservado espaços específicos para tratar da educação e os seus âncoras com olhares bravios exigem limites à indisciplina dos estudantes e atitudes enérgicas dos educadores. Num dos últimos programas que assisti, sugere-se sutilmente que o modelo privado de educação básica deve ser o mesmo seguido pelo modelo público, tendo em vista que os “resultados” são mais positivos, objetivos e direcionados (leia-se vestibular). Em outros termos, a relação mercantilista/trabalhista da educação acaba se tornando a mais adequada para se evitar as faltas freqüentes dos educadores e a disciplinarização de sua conduta no ambiente escolar.
Logo, faz-se importante a relativização do que tem sido publicado pela mídia no que se refere à educação catarinense, principalmente quando um determinado grupo empresarial se coloca como interlocutor privilegiado ou “arauto” das mazelas educacionais. Não se pode confundir a liberdade de imprensa com irresponsabilidade. Ao culpabilizar, nas entrelinhas, os educadores pela falência da educação, os empresários da mídia cometem uma grande violência simbólica contra aqueles(as) que estão, justamente, numa das pontas mais frágeis dessa problemática. Invés de culpar educadores e educadoras pelo fracasso escolar dos educandos, não seria mais honesto e responsável pesquisar profundamente o que está embutido no processo ensino-aprendizagem?
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
Nada de novo no "front"...
Baixo nível da educação brasileira limita crescimento, diz estudo do Ipea
BRASÍLIA - O Brasil fez muito nas últimas décadas em matéria de educação, mas hoje há relativo consenso de que o baixo nível educacional da nossa força de trabalho é um dos fatores limitativos do crescimento. A constatação está no documento Brasil, o estado de uma nação, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o texto, a população brasileira é formada por pessoas que "podem ser tuteladas e podem até atingir bons níveis de produtividade". O estudo ressalta que essas pessoas têm baixa capacidade para realizar tarefas mais complexas e tomar decisões que exigem capacidade analítica mais sofisticada, o que impede o desenvolvimento.
Embora reconheça que há mais ofertas, o Ipea diz que falta qualidade no ensino. Entre 1970 e 2000, o número de matrículas saiu de 1,119 milhão para 3,680 milhões no ensino médio, e de 425 mil para 2,694 milhões no ensino superior. Entretanto, o texto qualifica de "lastimável" a educação básica no país, ao compará-la à de outros lugares. "A pior notícia das comparações internacionais é a constatação de que a capacidade de compreensão de leitura dos alunos das nossas elites é inferior ao nível obtido pelos alunos de classes mais baixas da Europa".
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
Para pensar...agir...e resistir!
Esquizofrenia na educação e cultura
Alcione Araújo
Os números são eloqüentes: dos 186 milhões de habitantes, a educação -estudantes e professores, do ensino fundamental ao doutorado- envolve 55 milhões. Cotejar esses números com os da produção artística é deparar-se com outro país. A tiragem média de um romance no Brasil é de 3.000 exemplares; a ocupação média dos teatros, de 18%; em crise, as gravadoras têm números pífios, e a média de espectadores de filmes brasileiros, de 250 mil, está em 180 mil em 2006.
Os números revelam enorme desinteresse pela arte e, deduz-se, cresce a distância entre os significados percebidos pelo público e o conteúdo latente das formas de expressão. Nem os 55 milhões envolvidos na educação usufruem da produção artística. O país vive esquizofrênica fratura: uma educação sem cultura e uma criação artística sem público. A economia pode até crescer, mas cresce sem alma. Criação da subjetividade, de percepção subjetiva, as artes interagem com as demais metáforas -filosofia, antropologia, sociologia etc.- criadas pela sensibilidade e razão humanas para se entender, entender o mundo e se entender no mundo. Braço sistematizado da cultura, a educação tem métodos, normas e hierarquias para realizar a transmissão do saber. A expectativa é que, vivenciado o processo -graduar-se, digamos-, se esteja preparado e motivado para fruir a arte de várias épocas nas suas várias formas. O que se vê, porém, são médicos que jamais leram um romance, engenheiros que nunca foram ao teatro, advogados que não vão ao cinema, dentistas que não se emocionam com a música etc. Na origem do fenômeno, uma sociedade que não tem a educação e o saber como valores, mas sim como meios de ter uma profissão e se inserir na produção. Se assegurar o emprego, prescinde-se da qualidade no ensino, ou, num utilitarismo ingênuo, se dá o diploma, cumpriu o papel. Sem minimizar a importância do emprego num país carente dele, com tal visão, a educação renuncia à função de desvelar universos e se limita a formar mão-de-obra mais ou menos qualificada. Compelida pelos vestibulares, a idéia reflui aos níveis médios, reduzidos a cursinhos preparatórios. O pragmatismo expulsa as disciplinas chamadas de humanidades, que dão lugar àquelas de especialização prematura. Nessa moldura, a missão da universidade -universalização do saber pelo tripé da formação do profissional, do cidadão e do homem- torna-se uma trajetória de adestramento para a produção. A história reconhece na aliança entre educação e cultura a primazia de criar sonhos e inventar meios para realizá-los. O valor simbólico da cultura fecunda o processo civilizatório, dos valores às leis, da política à vida. A herança de colonizado, a exclusão social e a elitização da cultura atrelam o futuro da produção artística ao que a educação lhe reservar. A cultura é dependente da educação. Se não cumpre sua missão, sufoca as artes. Não se pode pensar a educação sem a cultura, nem a cultura sem a educação. No espectro cultural, há um vácuo entre arte popular -autônoma à educação- e arte tradicional, dita do espírito. Tentou-se fazê-las dialogar num amplo projeto nacional popular abortado pela ditadura. No "gap" entre as duas, irrompeu a indústria audiovisual de entretenimento, hoje hegemônica. O público, além de introjetar valores dessa indústria, assiste à contaminação da cultura do espírito e da cultura popular pela anódina cultura de massa.
Ao artista, resta o desalento por sua obra não chegar ao público, não emocioná-lo nem aguçar sua imaginação, não humanizá-lo nem levá-lo a pensar. Artista e arte perdem a função, o público empobrece e estreita o horizonte da sociedade. Não se formam platéias e as obras não circulam; não se viabiliza economicamente a produção, cujo custo crescente a torna mais dependente do Estado, suscetível à discriminação política e acomodação estética -o artista inibe a própria ousadia. À falta do público induzido pela educação, a produção artística se autodesqualifica na busca de audiências que não a reconhecem e perde o público cativo remanescente. Educar não é apenas qualificar para o emprego, nem arte é apenas adorno que aguça a sensibilidade. Há uma dimensão humana que, sem educação e cultura, nada agrega como experiência coletiva nem alcança a plenitude como experiência individual capaz de discernir e ser livre para escolher. E, sem isso, não podemos dizer que somos realmente humanos.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
Demasiadamente humano
segunda-feira, 3 de julho de 2006
Do projeto literário "Verdes Idades para serem ditas".

e o brilho
difuso
que ainda
se
espalha
pela casa:
é uma centelha
ou uma vel(h)a acesa?
e a valsa que
prometeste ao teu
amor
na primeira chance
de corpos colados
em noite-furor
em noite de amor
cambaleantes de éter
e álcool?
e a sedução
que nunca se abala
olhares
na tela
virtuais casualidades
encontros na chuva
pesadelos na rua
e sonhos de
desventura?
varando noites
tu te revelas
cão andejo!
ainda que revire latas,
ainda que revire cacos da memória,
ainda que te encontres
esfolado na matéria.
quarta-feira, 21 de junho de 2006
Enquantos milhões de brasileiros passam fome...

Número de milionários no Brasil chega a 109 mil
CASSIANO GOBBET, da BBC Brasil
terça-feira, 20 de junho de 2006
Tempos de Circo...
Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às terças-feiras.
sexta-feira, 9 de junho de 2006
Sobre o Poder, por Jéferson Dantas
terça-feira, 6 de junho de 2006
Do projeto literário "Verdes idades para serem ditas"
na manhã de
chuva
as leituras que faço
são tensas
confidenciais.
o café quente
preparado no acordo
das horas
reluz na
fina têmpera do
quarto de estudos.
preparo-me
para o exercício do tempo
e penso na mulher
que amo.
fico feliz
com as gotas
da chuva...
com
as minhas escolhas.
e quando
o domingo se finda
acenando para
mais uma semana
nem o coração
entende
o porquê de tanta
leveza
em tempos de
neve nos
semblantes alheios.
PEDAGOGIA WALDORF

Diário da Tarde, 06/06/2006 - Belo Horizonte MG
à esquerda, Rudolf Steiner
Felizes na escola
por Helena Trevisan
Nossa filha mais velha já morava em Barcelona há um ano quando fomos visitá-la com seus dois irmãos. Na ocasião, o caçula tinha seis anos de idade e ainda não estava alfabetizado. Esse detalhe é muito importante para o que eu vou contar em seguida, pois se tornou o motivo pelo qual acabei escrevendo um livro tempos depois. Aconteceu que em Barcelona fomos visitar a Casa Juan Miró, um acervo das obras do grande pintor catalão. Uma das salas do museu intitulava-se Constelación. Ali, nos sentamos diante de uma tela por alguns instantes. E então, meio provocativa, perguntei ao pequeno: Victor, o que você está vendo? Uma constelação , respondeu ele, candidamente, para o meu mais total espanto.
Se tivessem feito essa pergunta a mim, com toda a minha capacidade intelectual devidamente amadurecida, essa resposta seria mais do que esperada. Além do fato, é claro, de eu ter lido a palavra constelación escrita no pórtico de entrada da sala. Mas, em se tratando de uma criança não alfabetizada, o que isso revelaria? Anos depois, a lembrança desse fato me trouxe uma súbita clareza no entendimento do que preconiza a pedagogia Waldorf,metodologia empregada na escola em que o Victor estuda até hoje. Criada em plena desolação do pós-guerra, em 1919, em Stuttgard, Alemanha, por um visionário chamado Rudof Steiner, a pedagogia foi aplicada pela primeira vez numa escola fundada para os filhos dos empregados da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, daí o seu nome. A pedagogia leva em conta temas tão atuais, como preservação do meio ambiente, justiça social, formação ética, inteligência emocional, que é fácil esquecer que ela já tem quase um século de existência.
Na prática, ela prega que a transmissão do conhecimento deve acompanhar numa obediência rigorosa e solene, o desenvolvimento do aluno. Isso quer dizer que se deve respeitar o momento certo para se ensinar determinado conteúdo, e esse momento é quando o aluno experimenta no seu íntimo uma experiência semelhante. A prova do vestibular que assombra nossos jovens cada vez mais precocemente, cai como uma bomba em plena flor da idade, aquela etapa da vida em que tudo é só promessa, e quase nada realização, pois estamos tratando de futuro. São raros os casos em que, aos 17 ou 18 anos, umacriatura possa garantir que a carreira escolhida será de fato aquela para todo o sempre, pelo simples motivo de que não houve ainda existência suficiente para tamanha certeza. Podemos dizer que uma escola Waldorf não prepara os jovens para o vestibular. Prepara para a vida, da qual o vestibular é apenas uma parte e um treino, basta se dedicar a esse fim específico e tudo se resolverá, com maior ou menor brilho.
Quando nosso filho foi capaz de captar o que Miró expressou em pinceladas, compreendi que, mesmo sem conhecer letras, sem saber fazer contas, ele entendeu. E seu entendimento foi muito mais espontâneo e verdadeiro do que o meu, sua mãe letrada e com diploma universitário. A pedagogia Waldorf se propõe a formar homens livres. Isso dá sem subterfúgios ao se expressar pela arte, através das emoções. O que se aprende com a alma, jamais sai da cabeça e se manifesta nos gestos naturalmente. Se todas as metodologias de ensino se propusessem a ouvir o que os alunos dizem sem palavras, haveria mais estudantes felizes nas escolas.
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Do projeto literário "verdes idades para serem ditas"
que a música
venha
como melodia
andadeira
derradeira
ou primeira
nunca fim
milonga
polca
valsa
ou samba!
que a música
venha e
derrame-se
como bálsamo
em tardes
e noites
de chegadas
e partidas
vínculos
do tempo
sonhos
de primavera
ou
hinos
de levante!
Para entender a greve do Magistério em Santa Catarina

Por Jéferson Dantas
A greve do magistério estadual ultrapassou trinta dias, numa demonstração de incapacidade das políticas públicas em negociar com a categoria docente, além de a educação continuar não sendo a ‘prioridade das prioridades’, como bem ressalta o educador Dermeval Saviani. Historicamente, nos últimos 25 anos em Santa Catarina, entre o fim da Ditadura Militar (1964-1985) e os ares da “Nova República”, temos no Estado, essencialmente, duas legendas partidárias que se digladiam na esfera do privado, nas contendas miúdas, típicas das oligarquias coloniais. O partido que representa o atual governo do Estado tem em seu histórico a sanha da perseguição, da desqualificação e da intriga. Como esquecermos a violência física contra os educadores em 1987 e a demissão sumária de 17 mil educadores em plena democracia?
Entender a greve do magistério pela lógica estatal implica, justamente, nas opções claras que o Estado faz. Afinal, como admitir que Santa Catarina pague o terceiro pior piso salarial em nível nacional? Como admitir a política dos “penduricalhos” através de abonos não incorporados ao salário? Toda vez que o discurso estatal revela que o processo educacional onera os cofres públicos devido ao impacto orçamentário, mais certeza temos de que a educação não se qualifica como prioridade em Santa Catarina e muito menos como investimento. Gerações de catarinenses que não podem pagar a educação privada estão cada vez mais se apropriando menos do conhecimento científico produzido pela humanidade, num empobrecimento formacional que grassa toda a Educação Básica. E isso pais e estudantes sabem muito bem.
E, para finalizar, não fica bem para o aparato estatal desqualificar o magistério através das mídias impressa e eletrônica, com adjetivos impróprios, como se os representantes da res-publica não tivessem nada a ver com isso. Se os legisladores catarinenses fossem avaliados com a agudeza que merecem pela sociedade civil, dificilmente, seriam aprovados para uma nova legislatura. Algo a se pensar em tempos de renovação nos Congressos Estadual e Nacional.
terça-feira, 23 de maio de 2006
Arrivismo X Militância
Por Jéferson Dantas
Há alguns dias atrás num programa de entrevistas de um canal fechado de tevê, acompanhei a trajetória de duas ex-prostitutas: a primeira entrevistada lutava por melhores condições de trabalho na profissão, além de ter criado em regime de cooperativa uma empresa de confecções que lembrava em tom irônico uma outra loja destinada ao público endinheirado do país; a segunda entrevistada, bem mais jovem, acabara de lançar um livro de memórias dos tempos de ‘garota de programa’ e nitidamente respondia às perguntas da entrevistadora de maneira calculada, denotando que estava sendo orientada por alguém. Pois bem, o que significa estes dois exemplos? De uma maneira geral e até mesmo simplista, parece-me que hoje em dia temos apenas esses dois gêneros de seres humanos na face da Terra: @s que reivindicam melhores condições de trabalho e qualidade de vida e @s que movem mundos de maneira inescrupulosa para atingir os seus objetivos.
Na arena política os últimos acontecimentos são bastante ilustrativos. Parlamentares governam de costas para o povo e os poderes executivo estadual e federal resolvem entrar em celeumas partidárias colocando em risco a vida de milhares de civis. Ou seja, os interesses privados e/ou partidários são mais importantes que os interesses do bem-comum. E, quando o Estado deixa de fazer o seu trabalho, a violência social se agudiza e se complexifica, reforçando e aparelhando o Estado paralelo. E o poder judiciário? Isolado dos demais poderes, acompanha o marasmo da ausência de coragem para se tomar decisões históricas num país tão desigual!
Por fim, o que mais admirei na entrevista da ex-prostituta militante foi a sua clareza política e, principalmente, a idéia de que a sociedade civil organizada não pode se comportar como vítima do Estado neoliberal. Questionar o Estado Mínimo e as opções políticas, econômicas e sociais d@s que legislam em causa própria são temários que estão na ordem do dia, principalmente num ano eleitoral. O arrivista político é tão nocivo quanto qualquer criminoso, porém, o primeiro destróis gerações inteiras, rompe a possibilidade do sonho, desqualifica educadores e nos diz em alto e bom tom que as práticas politiqueiras justificam os meios.
segunda-feira, 22 de maio de 2006
O DESAFIO DA VIOLÊNCIA

*Leonardo Boff
A paz resulta da administração dos conflitos, usando meios não conflitivos. A paz só triunfa na medida em que as pessoas e as coletividades se dispuserem a cultivar, como projeto de vida, a cooperação, a solidariedade e o amor.
A violência ocorrida nos meados de maio em São Paulo nos obriga a pensar. Por que ela é tão recorrente? Para vislumbrar alguma luz temos que realisticamente partir desta ambiguidade fundamental: a realidade por um lado vem marcada por conflitos e por outro vem perpassada por ordem e paz. Nenhum destes lados consegue erradicar o outro. Mesclam-se e se mantém num equilíbrio difícil e dinâmico.
A arte consiste em manter a tensão, buscando aquela convergência de energias que permitem o surgimento da paz, fruto de instituições minimamente justas e includentes e ordenações sociais sadias, custodiadas por um Estado que zela pelo equilíbrio das tensões, usando, quando preciso, legitimamente da coerção. Se não houvesse essa busca do equilíbrio possivelmente a socialidade seria impossível e os seres humanos ter-se-iam exterminados uns aos outros.
A paz resulta da administração dos conflitos, usando meios não conflitivos. Assim, na construção da paz devem os interesses coletivos se sobrepor aos individuais, a multiculturalidade prevalecer sobre o etnocentrismo, a perspectiva global orientar a local.
Importa sermos realistas e sinceros. Há violência no mundo porque eu carrego violência dentro de mim na forma de raiva, inveja e ódio que devem ser sempre contidos.
A explicação da agressividade tem desafiado os pensadores mais argutos. Sigmund Freud parte da constatação de que existem duas pulsões básicas: uma que afirma e exalta a vida (Eros)e outra que tensiona para a morte (Thánatos) e seus derivados psicológicos como os ódios e as exclusões.
Para Freud a agressividade surge quando o instinto de morte é ativado por alguma ameaça que vem de fora. Alguém pode ameaçar o outro e querer tirar-lhe a vida. Então o ameaçado se antecipa e passa a agredir e, eventualmente, a eliminar o ameaçador.
Outro pensador contemporâneo, René Girard, afirma que a agressividade provém da permanente rivalidade existente entre os seres humanos (chamada por ele de desejo mimético). Esta rivalidade cria permanentes tensões e elabora sinistras cumplicidades. Ao concentrar em alguém toda a maldade e toda a ameaça, a sociedade torna-o um bode expiatório. Todos se unem contra ele para afastá-lo. Essa união instaura uma paz momentânea entre todos os contendores. Desfeita esta paz, inventa-se um novo bode expiatório (os terroristas, os traficantes etc) e novamente se cria a união de todos contra ele e se refaz a paz perdida.
Os antropólogos nos ajudaram também a entender a agressividade. Asseguram-nos que somos simultaneamente sapiens e demes não por degeneração mas por constituição evolucionária. Somos portadores de inteligência e de energias interiores orientadas para a generosidade, a colaboração e a benevolência. E ao mesmo tempo somos portadores de demência, de excesso, de pulsões de morte. Somos seres trágicos porque surgimos como coexistência dos opostos.
Dada esta contradição como construir a paz? A paz só triunfa na medida em que as pessoas e as coletividades se dispuserem a cultivar, como projeto de vida, a cooperação, a solidariedade e o amor. A cultura da paz depende da predominância destas positividades e da vigilância que as pessoas e as instituições mantiverem sobre a outra dimensão, sempre presente, de rivalidade, de egoísmo e de exclusão.
*Leonardo Boff é teólogo.