Texto de minha autoria publicado na Revista Eletrônica "Desafios da Educação". Para acessar o texto, basta clicar no link https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/educacao-liberdade-paulo-freire/.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2020
quarta-feira, 18 de dezembro de 2019
A PARVOÍCE COMO MÉTODO
N
No recente livro do jornalista britânico, Matthew D’Ancona,
discute-se os efeitos nefastos da pós-verdade
e o que isso pode implicar em termos anticivilizatórios em países periféricos
do capital, com baixíssima escolarização básica e extrema desigualdade social,
como é o caso do Brasil. D’Ancona procura investigar o ‘valor declinante da
verdade’ e a difusão perniciosa do relativismo ‘disfarçado de ceticismo
legítimo’. Isso tem ocasionado a circulação em larga escala de falsificações ou
manipulações grosseiras de acontecimentos históricos, a pseudociência médica e
a ideia grotesca da ‘ciência como conspiração’ em vez de um ‘campo de
investigação capaz de mudar o mundo’, nos termos de D’Ancona.
A difusão desonesta das fake
news ou daquilo que se convencionou chamar de pós-verdade coloca em xeque a racionalidade, sendo substituída pela
emoção, onde as disputas políticas já não são mais necessárias e a ciência é
tratada com suspeita e/ou total desprezo. A ‘resignação cognitiva’ retira de
cena a ponderação racional dando lugar à convicção arraigada, como foi o caso
da operação lava-jato no Brasil que, a esta altura, já deveria estar totalmente
desacreditada pela opinião pública. Stephen Bannon na condição de
estrategista-chefe de Donald Trump, apoiado por supremacistas brancos,
compartilham a noção de que a ‘verdade é aquilo que você entende dela’, ou
entre outras palavras, a doxa está
acima da episteme!
Em tal conjuntura em que personalidades populistas autoritárias
assumiram o poder executivo em várias partes do mundo é de se supor que o
jornalismo teria como objetivo ‘revelar a complexidade e o paradoxo da vida pública
e – o mais importante de tudo – regar as raízes da democracia com um
fornecimento constante de notícias confiáveis’. Contudo, a mídia, sobretudo a
tradicional hegemônica, vem perdendo cada vez mais credibilidade (vide a sua
conivência com o golpe de 2016 em nosso país). Os populistas autoritários
procuram simplificar tudo, descontextualizando questões complexas para que as
mesmas fiquem, deliberadamente, sem respostas.
Em síntese, D’ancona reconhece que as ideias pós-modernas foram
importantes alavancas para a instauração da era da pós-verdade, tendo em vista
que o ‘pós-modernismo foi e é uma campanha teórica que apelou à esquerda
desiludida, ansiando decifrar um século em que as antigas certezas da vanguarda
marxista [aparentemente] tinham se esfarelado diante dela. Muitas vezes
incompreensível em sua terminologia e inquietação intelectual seus
protagonistas principais se esforçaram para encontrar uma nova política de
emancipação social em meio aos escombros’. Os pós-modernos forneceram a
artilharia ‘teórica’(?) necessária que deu prestígio aos cínicos elegantes,
tornando-se uma mera ferrugem sobre o
metal da verdade, conforme expressão utilizada por D’Ancona.
São tempos em que a indiferença é o maior desafio para aqueles que
defendem a verdade. É uma longa batalha. O terreno foi até agora fértil para os
populistas autoritários. A desigualdade social, a falta de moradias, educação e
saúde públicas precarizadas, ausência de trabalho formal, não podem ser
enfrentadas com discursos pífios ou provocações rasteiras pelas redes sociais. O maior ardil empregado pelos perversos autoritários que governam países
como o Brasil é de que é possível resolver questões complexas com respostas
simplificadoras. Nas periferias brasileiras a pobreza é combatida por meio de o
extermínio dos pobres; a educação pública e seus professores são igualmente
desqualificados e combatidos como ‘doutrinadores ideológicos’. Há de se dar
limite à sanha de um governo que ataca a população mais vulnerável,
socialmente. A prática do extermínio dos pobres é uma das faces fascistizantes
do governo que aí está, com a conivência de muitos e muitas que,
contraditoriamente, também são afetados diretamente por tais práticas. A razão
necessita dar balizas à emotividade parva que assola este país!
sexta-feira, 26 de julho de 2019
SOBRE A TIRANIA: REFLEXÕES SOBRE O TEMPO PRESENTE
REFERÊNCIA: SNYDER,
Timothy. Sobre a Tirania: vinte
lições do século XX para o presente. São Paulo: Cia das Letras, 2017, 168 p.
O
historiador estadunidense Timothy Snyder redigiu a obra Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente, tendo
como leitmotiv os desdobramentos das
últimas eleições nos EUA, em que o republicano Donald Trump foi vencedor. Suas
breves lições, num formato que se assemelha ao dos livros de autoajuda, podem
muito bem servir de referência para o Brasil, onde a democracia foi jugulada e
as instituições que deveriam zelar pela justiça social foram completamente
partidarizadas. O lawfare – o uso
indevido dos recursos jurídicos para fins de perseguição política – vem se
tornando estrutural em nosso país desde o golpe midiático-jurídico-parlamentar
de 2016.
Snyder
chama a atenção para as bases do conhecimento histórico, considerando que a
História pode não se repetir, mas ela ensina. Assim, já em sua primeira lição aponta que não se deve
obedecer por antecipação, pois isso representaria uma verdadeira tragédia
política, tendo em vista que a servidão voluntária alimentou regimes
totalitários como o fascismo e o nazismo na Itália e na Alemanha,
respectivamente. Vinculada a esta reflexão traz à baila as obras distópicas de
Ray Bradbury (1920-2012) e George Orwell (1903-1950) para asseverar que um dos
projetos dos regimes totalitários ou tirânicos é repetir ad nauseam as mesmas palavras e frases que aparecem nos meios de
comunicação diários, para que sejam aceitas em detrimento de um quadro
referencial maior. Em outras palavras, “ignorar o mundo real dá início à
criação de um antimundo ficcional” (SNYDER, 2017, p. 64). Como exemplos dessa
assertiva, os memes, a autoverdade, a
auto-referência e uma campanha eleitoral subterrânea construída por meio das fake news nas redes sociais, foram a
tônica do processo eleitoral no Brasil em 2018.
Além
disso, recomenda que as pessoas se encontrem mais presencialmente e reforcem os
laços de coletividade ou coleguismo enfraquecidos pelas redes sociais. Afirma
também que, diante das ameaças às conquistas sociais,
[...]
duas fronteiras sejam cruzadas. Primeiro, as ideias a respeito de mudança têm
de envolver pessoas com vários históricos e que não concordem em tudo. Segundo,
as pessoas precisam se encontrar em lugares que não são seus lares e com gente
que antes não fazia parte de seu grupo de amigos. Um protesto pode ser
organizado por meio de redes sociais, porém nada é real se não acabar nas ruas.
Se os tiranos não percebem consequência alguma para seus atos no mundo tridimensional,
nada vai mudar (SNYDER, 2017, p. 81).
Snyder
nos convida a combater a política da
inevitabilidade, que impõe à humanidade a inércia e o desconhecimento da
História, assim como o combate à política
da eternidade, calcada em reducionismos e maniqueísmos políticos; sua
aposta reside nas novas gerações, entendendo que os sujeitos históricos
posicionados em favor da emancipação humana têm muita responsabilidade nestes
tempos de desconfiança, anestesiamento e apatia generalizadas.
Como
profundo conhecedor da história do holocausto, Snyder alerta-nos de que a
[...]
história tem o poder de familiarizar e também de advertir. (...). No começo do
século XX, tal como no começo do XXI, essas esperanças foram ameaçadas por
novas visões políticas de massa em que um líder ou um partido afirmavam
representar diretamente a vontade do povo. As democracias europeias descambaram
para o autoritarismo de direita ou para o fascismo nas décadas de 1920 e 1930.
(...). A história europeia do século XX nos mostra que as sociedades podem
ruir, que as democracias podem ruir, que as democracias podem entrar em
colapso, que a ética pode ser aniquilada e que os homens comuns podem se ver
diante de valas comuns com armas nas mãos (SNYDER, 2017, p. 13).
Os
falsos mitos podem ser construídos em contextos assim, ou seja, aparentemente
inspiram vontades populares, como o combate à violência, à corrupção, à
delinquência juvenil, etc.. Todavia, os germens da tirania defendidos por esses
sujeitos afeitos a um instinto primitivo apenas conseguem trazer à tona
recalques e valores morais duvidosos.
O mais surpreendente disso, conforme estudos
teóricos de Snyder, é que as pessoas são receptivas às novas regras num
ambiente ‘novo’; mais surpreendente ainda: mostram-se capazes de maltratar e
matar outros indivíduos a serviço de algum propósito considerado ‘novo’, se o
mesmo for instituído e balizado por uma determinada autoridade pretensamente
legítima.
Logo,
apoiando-nos nos estudos de Snyder, tudo corrobora para que esse governo de viés
autoritário/ultraconservador no Brasil ofereça carta branca para os aparelhos
ou agências de repressão para executarem todas as formas de tirania possíveis,
tendo como alvos característicos os que sempre estiveram mais vulneráveis,
socialmente (pobres, negros, mulheres, comunidade LGBTQ+).
Ao redigir
uma pequena obra sem grandes pretensões teóricas, Snyder contribui de forma
didática e professoral para a compreensão dos descaminhos dos governos
sintonizados com grupos religiosos (neopentecostais, sobretudo), milicianos,
latifundiários do agronegócio e toda ordem ou séquito de homens e mulheres ‘de
bem’ que ao se tornarem servos voluntários do combate ao comunismo e aos
pretensos professores doutrinadores marxistas nas escolas públicas, esteiam
valores morais densamente preconceituosos, insanos e estereotipados.
segunda-feira, 22 de julho de 2019
O PODER DAS MILÍCIAS NUM PAÍS DESIGUAL
A criminalização
dos movimentos sociais e o ‘combate ao socialismo’ (?!) são temas recorrentes
no recente governo do capitão reformado. Para os incautos ou para os que,
deliberadamente, agem de má-fé, repressão é sinônimo de segurança pública; ou
ainda: o saudosismo verde-oliva da ditadura militar (1964-1985) teria gerado em
mentes insanas a ideia de que havia um país livre da corrupção e dos desmandos,
ainda que os dados históricos nos demonstrem como os índices sociais,
educacionais e econômicos foram dramáticos durante e ao fim da ditadura.
Não há nada que
nos alente em relação ao combate à corrupção, muito menos no que tange às
políticas públicas de inclusão social no Brasil dos bolsominions. A violência indiscriminada em relação às mulheres,
aos negros, aos povos originários e à comunidade LGBTQI+ vêm crescendo de
maneira assustadora no Brasil. Até o momento nada se revelou de forma efetiva
sobre os assassinos de Marielle Franco, embora se saiba que a ordem para
matá-la tenha partido das milícias que dominam o estado do Rio de Janeiro e,
especialmente, os territórios de sua capital. Para Snyder, “para que a
violência transforme não só o clima político como também o sistema, as emoções
dos comícios e a ideologia de exclusão precisam ser incorporadas ao treinamento
de guardas armados. Esses guardas primeiro desafiam a polícia e as Forças
Armadas, depois se infiltram nessas organizações e por fim as transformam”.
Eis a síntese:
milícias acabam tendo mais poder de ação do que as forças de segurança pública,
ou ainda, a conivência entre milícias, polícias militar e civil e forças armadas
podem ser tão nefastas que os desaparecimentos e assassinatos de lideranças
campesinas e sindicais vão se tornando algo naturalizado. O circuito do golpe
se adensaria aí.
SOBRE ASSUMIR RESPONSABILIDADES
Símbolos são
formas de nos comunicarmos com o mundo. Portanto, símbolos conectados ao
discurso do ódio não devem ser encarados como algo ‘comum’ e ‘natural’. Se o
sujeito defende o uso indiscriminado de armas; se entende que o fato de ter
concebido uma filha foi uma ‘fraquejada’, já que a mulher é compreendida como
um ser inferior, por que determinadas pessoas mantém adesivos nos automóveis ou
continuam usando camisetas estampando a figura de um sujeito que representa
todos os retrocessos possíveis? Precisamos ser coniventes, sociáveis ou amáveis
com pessoas que, deliberadamente, destilam ódio e preconceito ou,
sub-repticiamente, procuram levar vantagens sobre os outros, escudados por meio
de suas escolhas ultraconservadoras?
Snyder afirma que
a “vida é política, não porque o mundo se importa com como você se sente, mas
porque o mundo reage ao que você faz”. Além disso, adverte – tendo como
contexto histórico o nazifascismo na Europa das décadas de 1930 e 1940 – de que
“à medida que as propriedades foram recebendo marcas étnicas, a inveja transformou
a ética dos cidadãos. Se as lojas podiam ser ‘judias’, o que dizer de outras
empresas e propriedades? O desejo de que os judeus desaparecessem, talvez num
primeiro momento reprimido, foi crescendo à medida que a cobiça fermentava”.
Num exercício ou
exame comparativo, podemos afirmar que os/as que defendem concepções
autoritárias ou ultraconservadoras e que sempre estiveram ao nosso redor, mas
que não se sentiam à vontade para expressarem as suas ideias, agora se espalham
livremente, desejosos de que as liberdades individuais ou ideias à esquerda
sejam, literalmente, varridas do mapa! Já não podem ser encarados como ‘bobos
da corte’ ou ‘falastrões ignaros’, pois não terão receio de se adonarem de
propriedades alheias e até mesmo de ideias alheias, já que são incapazes de
elaborarem pensamentos próprios com alguma consistência teórica. São, portanto,
nocivos esses sujeitos recalcados, não mais pelo que professavam ou
vociferavam, mas pelo que são capazes de fazerem com ações maquinais
sistemáticas à revelia dos que defendem princípios éticos em todas as esferas
da vida pública. Não se trata mais de simbologias inofensivas, mas de
provocações deliberadas e uma disputa que prescinde o pensamento, já que o que,
realmente importa, são as vantagens possíveis por meio de narrativas únicas,
sem desdobramentos e discernimentos satisfatórios. Em síntese, trata-se da
morte do pensamento e da estratégia da desqualificação como símbolos imanentes
de sujeitos que, temporariamente, acreditam ditar as regras da vida pública.
quinta-feira, 23 de maio de 2019
A EDUCAÇÃO É UM DIREITO!
A educação
pública é um direito inalienável, portanto, não pode ser compreendida como uma
mercadoria, além de ser um bem comum. Em outras palavras, a educação em seus
diferentes níveis e modalidades de ensino representa a mais valiosa herança
civilizatória de uma nação. São pelas instituições públicas que gerações
inteiras se apropriam do conhecimento científico de forma sistematizada, onde
escolas e instituições de ensino superior por meio de seus professores e corpo
técnico/pedagógico se responsabilizam por processos formativos discutidos
permanentemente. Daí se supor que uma nação que prescinde de educação e de seus
professores comete um grave crime de lesa-pátria!
Embora
todo o empenho e energia bolsonaristas venham demonstrando por meio de ações
práticas (cortes orçamentários nas instituições federais de ensino superior,
desqualificação social do magistério e imprudentes agressões à juventude
escolarizada) que a educação pública é desnecessária, sabe-se que o
desenvolvimento social de um país, fatalmente, passa pelas creches, escolas de
educação básica, cursos técnicos profissionalizantes e universidades. Os
recursos investidos – que não podem ser confundidos com ‘gastos’ públicos – em
ensino, pesquisa e extensão transformam de maneira qualificada a vida de
milhões de pessoas, notadamente crianças e jovens. Defender o direito à
educação, portanto, é um princípio basilar da res publica!
Cada vez
que a educação pública é atrozmente atacada quem sofre as consequências é a
população brasileira, sobretudo aquela das camadas mais empobrecidas do tecido
social. Logo, o anti-intelectualismo e a ignorância levadas às últimas
consequências corroboram tão somente para uma imagem invertida do que seria um
país efetivamente soberano. O representante do Poder Executivo não só pesa a
mão com declarações desastrosas como demonstra de maneira límpida que não está
à altura do cargo que ocupa!
terça-feira, 7 de maio de 2019
O PERVERSO E A MÍDIA BURGUESA SUBMISSA
Os recuos da teoria e da política nesse governo de abutres, biltres, néscios, safardanas e mentecaptos ganharam o seu ponto de inflexão com a gravíssima redução orçamentária destinada às instituições públicas de ensino, especialmente das federais. Com argumentos risíveis e sem qualquer fundamentação que valha, a tropa bolsonarista e o lema do nacional-entreguismo testam a paciência de uma população ainda inerme, mas que começa a entender o que e a quem o capitão reformado do exército presta juramento e obediência tácitas: o grande capital privado.
A mídia burguesa tradicional, por seu turno, que esteve pari passu na formulação do golpe jurídico-parlamentar de 2016, naturaliza os descalabros e as infelizes declarações de um sujeito que jamais será respeitado nacional e internacionalmente como estadista. Os 'napoleões de hospício' que circulam pelos gabinetes ministeriais testam a sanidade dos/as que ficam estupefatos/as com tamanha estupidez sobre qualquer temário.
As forças em luta começam a despontar. Sem ilusão, sabemos do que o aparato repressor estatal é capaz. Afinal, o que significa do ponto de vista histórico a metralha de 80 balas disparadas contra uma família negra num país que se mostra, diuturnamente, tão desigual, racista, misógino e recalcado?
A mídia burguesa que se acovarda e que se esconde em pautas que não interessam à população, também precisam ser responsabilizadas! Como os grupos empresariais jornalísticos são favoráveis à contrarreforma da previdência, seus silêncios são provas de uma conduta contra a classe trabalhadora, ainda que no plano da aparência se mostrem sensibilizados com pautas de políticas de identidade.
Para os/as trabalhadores/as o que importa em tal contexto é a unificação de todas as lutas. Sem dispersões e casuísmos, que só beneficiam a choldra tuiteira! O capital vive de crises cíclicas; logo, essa conta da contrarreforma previdenciária e de todos os ataques sistemáticos aos serviços públicos só agudizam e desmontam o que gerações inteiras demoraram para construir em benefício do povo brasileiro.
segunda-feira, 18 de março de 2019
A BARBÁRIE NOSSA DE CADA DIA
Quem consegue
manter a sanidade num país em que tantos crimes contra a dignidade humana e
acidentes evitáveis (que não podem ser considerados tragédias) são fomentados
dia após dia pelo discurso do ódio, inclusive e, deliberadamente, por aqueles e
aquelas que deveriam zelar pela justiça social? Retrocedemos muitíssimo nesses
últimos anos. O desprezo pela pesquisa, pelas evidências históricas e pela
memória social deu lugar à mentira contumaz; os mitômanos se refestelam e se
encastelam em mundos paralelos ou fictícios por meio de aparelhos portáteis de
mídia. Ora, nada é real se não tiver sentido ontológico!
O que o país tem
assistido, literalmente, todos os dias – de maneira passiva em grande medida –,
é o desmonte dos serviços públicos, da previdência social solidária e
geracional; das universidades federais públicas, agora massacradas e impelidas
à própria sorte pelo recente decreto nº 9.725, publicado em 12 de março de 2019
no Diário Oficial da União. Não há ‘desastre’ ou ‘tragédia’ sem autoria. Não se
pode naturalizar o massacre de crianças e jovens em escolas públicas como um
‘ato isolado’ ou mesmo desastres ambientais como a de Brumadinho. A facilidade
em ter armas de fogo pelo cidadão comum amplia a insegurança da sociedade; o
ódio como estratégia política autoriza a violência contra as mulheres
(feminicídio), contra a comunidade LGBTQ e contra os pobres, negros e todos os desprotegidos,
socialmente. A diminuição da maioridade penal, que também está no horizonte das
políticas públicas ultraconservadoras, é uma afronta ao Estatuto da Criança e
do Adolescente.
Se havia algum
resquício de Estado de Bem-Estar Social, isso não existe mais no país. A lógica
do ‘empreender-se a si mesmo’, que lança os trabalhadores ao deus-dará, já vem
criando uma imensa massa de desempregados e desalentados. A farsa meritocrática
não se sustenta quando as desigualdades sociais reprisam desigualdades
escolares, portanto, nem todos têm as mesmas oportunidades de empregabilidade.
A violência e a miséria em larga escala tendem a crescer de maneira
exponencial. E isso não pode ser encarado como coincidência, golpe do destino
ou vontade divina!
domingo, 27 de janeiro de 2019
O GANGSTERISMO RELIGIOSO NO BRASIL
Como bem apontou a
jornalista Andrea Dip em sua investigação sobre a ascensão das religiões
neopentecostais no Brasil, o binômio política/religião se tornou uma mistura
explosiva num país em que quem tem definido as regras do jogo político são as
bancadas da Bíblia, do Agronegócio e das Armas no Congresso Nacional.
Mas não basta
tomar o poder. “A direita orgulhosa, religiosa e conservadora homenageia
torturadores em carros de som nas grandes avenidas”. Orgulham-se, portanto, de
sua ignorância; polemizam e provocam especialmente partidários e simpatizantes
da esquerda. Representam a maioria agora. Não têm medo de serem punidos. Estão
do lado das ‘pessoas de bem’.
A Frente
Parlamentar Evangélica (FPE) no Congresso Nacional é gigantesca, congregando
diversos partidos, inclusive parlamentares de partidos de esquerda. A Comissão
Pró-Política de Santa Catarina, estado que abraçou o capitão reformado do
exército com uma expressiva votação em 2018, por seu turno, representa “um
departamento da Convenção das Igrejas Evangélicas Assembleia de Deus de Santa
Catarina e Sudoeste do Paraná, cuja missão é conscientizar os fiéis sobre a
importância de votar em representantes dos interesses da Igreja (...). a
comissão se orgulha de ter ajudado a eleger 110 vereadores, 5 prefeitos e 4
vice-prefeitos ligados a ela nos últimos pleitos”.
Os temas de cunho
moral são os que unificam os parlamentares evangélicos, independentemente de
partido. Como são avessos aos argumentos, às evidências, à ciência
sistematizada, são “barulhentos, intempestivos, aguerridos, beligerantes, e
esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão.
(...). é uma estratégia de parecer maior do que é, pelo grito – como acontece
nas próprias igrejas. As Igrejas têm esse discurso de guerra, de combate”. Mas
as alianças dos evangélicos com o capital também é evidente. Não por acaso a
bancada BBB (Bíblia/Bala/Boi) vota em bloco em qualquer situação!
Até determinados
pastores, acima de qualquer suspeita, denunciam de que as novas instituições
neopentecostais estão repletas de gângsteres religiosos, afeitos à lavagem de
dinheiro, sonegação de impostos e outras improbidades. Didaticamente,
importante se dizer, de acordo com os estudos do sociólogo Paul Freston e
trazido à baila por Andrea Dip, de “que a diferença mais importante entre as
Igrejas Históricas e as Pentecostais é a crença nos dons do Espírito Santo”. As
igrejas pentecostais estariam mais próximas da cultura do espetáculo e seriam
menos litúrgicas; no que tange às igrejas neopentecostais, como a IURD,
Renascer em Cristo, Bola de Neve, etc., as mesmas representam a “terceira onda
do evangelismo”, com ênfase na guerra contra o diabo e seus representantes na
Terra, além de difundirem a Teologia da
Prosperidade e o abandono dos tradicionais usos e costumes puritanos da
santidade, conforme análise do sociólogo, Ricardo Mariano. Em outras palavras,
a Teologia da Prosperidade é uma
reatualização dos estudos weberianos, conhecida por seus “apelos financeiros como
forma de garantir um espaço no céu”. Neopentencostalismo e o espírito do
capitalismo se convergem, nessa direção!
Tais igrejas detêm
1/3 das concessões de televisão no Brasil. Uma verdadeira farra de concessões
sem qualquer regularização e a desejada e ampla discussão com a sociedade
brasileira. Assim, foram angariando simpatizantes nas periferias, historicamente
esquecidas pelo poder público, que segundo o filósofo e psicanalista, Guilherme
Boulos, desencadeou uma verdadeira “captura subjetiva, mais do que a difusão de
uma ideologia. Tem a ver também com o empreendedorismo e com o esvaziamento de
soluções coletivas. O crescimento das Neopentecostais junto com o
empreendedorismo e com o enfraquecimento dos movimentos sociais, produz esse
caldo de uma ‘direitização’, mas isso não é simples, não dá para julgar o
pensamento dos evangélicos pelo pensamento dos pastores e líderes das Igrejas”.
Tanto é verdade que nem todo evangélico votou no capitão reformado do exército,
embora os mais de 20 milhões de votos necessários à Haddad no segundo turno do
certame eleitoral de 2018 estivessem concentrados nestes guetos neopentecostais
espalhados por todo o país.
Tragicamente, os
neopentecostais tornaram-se “personagens de um processo sem precedentes no
país, com plataformas baseadas na retórica do terror (‘querem acabar com a
família’), pelo impedimento da garantia de direitos sexuais e reprodutivos e
das ações de superação da violência de gênero. O que se desenha, como vemos,
pouco ou nada tem a ver com a defesa das famílias. Acaba por ser uma armadilha
(instrumentalização) de grupos políticos para quem professa uma fé”. Há mais de
1.500 denominações evangélicas no Brasil. Para a pesquisadora Christina Vital o
plano das lideranças dessas Igrejas é ocupar cargos executivos e o Judiciário,
para barrar as pautas relacionadas aos direitos reprodutivos das mulheres e à
comunidade LGBTQ.
Se a canalhice
foi, efetivamente, santificada, de acordo com as palavras da jornalista Andrea
Dip, que a mesma seja desvelada, desmascarada e totalmente destruída. Tal onda
reacionária está aniquilando os parâmetros civilizatórios que esse país
construiu a duras penas, mas que até hoje não pôde se consolidar pela
intervenção das elites dirigentes e agora apoiada por estas máfias religiosas
sedentas de poder e glória!
sábado, 25 de agosto de 2018
E, SE BOLSONARO VENCER AS ELEIÇÕES?
Os movimentos
fascistizantes que grassam pelo país não são meros acasos, assim como não é
causalidade as repetidas situações de violência empreendidas contra as
mulheres, professores (da Educação Básica ao Ensino Superior públicos), jovens
pobres e negros, historicamente vulneráveis pela ausência de políticas públicas
consistentes. A defesa empedernida de um ideal autoritário por determinados
setores da sociedade civil em tal conjuntura, num país que até os dias de hoje
carrega a nódoa nefasta de um passado escravocrata e da crescente e espúria
desigualdade social, além da concentração elevada de renda nas mãos de uma
minoria, expressa um triste cenário que pode levar ao Palácio do Planalto um
candidato que não terá receio em utilizar a repressão para coibir toda e
qualquer forma de manifestação social. Mais do que isso, Bolsonaro atenta
contra o conhecimento histórico e a memória social ao defender torturadores,
além de achincalhar jornalistas e comentaristas despreparados, sendo alçado à
condição de ‘mito’. Seria cômico se não fosse trágico!
O candidato do PSL/RJ à
presidência da República age sem peias. Escancara a sua misoginia, despreza os
movimentos LGBT e quilombola, além de ter desqualificado uma colega
parlamentar, dizendo-lhe que nem mesmo mereceria ser estuprada. Enfim, uma
lista interminável de ódio, destempero, desequilíbrio e mitomania. Apesar de
todos os exemplos aqui citados, Bolsonaro está com mais de 20% de intenção de
votos nas primeiras pesquisas de opinião pela corrida ao Planalto.
Assim, ignorar que o
acirramento da violência sob todos os seus ângulos – reforçada por grupos,
partidos e movimentos ultraconservadores –, anuvia a realidade concreta de um
país à beira de um colapso civilizatório, com taxas crescentes de feminicídio,
desemprego estrutural e desesperança coletiva. Apesar disso, há muita leniência
dos grupos empresariais jornalísticos, que veem em Bolsonaro apenas um bufão
como é o caso de Donald Trump. Acontece que Trump venceu as eleições nos EUA.
terça-feira, 17 de abril de 2018
NÃO ÀS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS (OSs)
A defesa e a contratação das organizações
sociais (OSs) – vistas como única solução para o atendimento público em creches
e unidades de pronto atendimento (UPAs) em Florianópolis –, revelam como a
racionalidade neoliberal ganhou contornos dramáticos em nosso país. Não por
acaso, o embate entre o Executivo/Legislativo municipal e a classe
trabalhadora, representada pelo seu sindicato (SINTRASEM), estão longe de serem
questões meramente locais, ainda que sistematicamente minimizadas pela imprensa
catarinense e até mesmo ignoradas pela sociedade.
Apenas como dado comparativo, segundo
estudos de Ana Carolina Navarrete, mestra em Direitos Humanos pela USP, e do
advogado e pesquisador, Gustavo Franco da Rosa, “em novembro de 2014 a prefeitura de São Paulo iniciou a reformulação de
todas as suas contratações com entidades privadas que gerenciassem equipamentos
e prestassem serviços públicos de saúde no SUS municipal. O processo acarretou
dispensas maciças, recontratações com salários até 70% mais baixos e seleção de
entidades de reputação duvidosa, com base em critérios exclusivamente
econômicos – em desobediência à legislação municipal sobre o tema”.
Praticamente, 30% dos serviços de saúde eram geridos pelas OSs, que firmam
contratos com a administração pública supostamente sem finalidade lucrativa. As
OSs, criadas ainda durante o governo FHC (1995-2002), constituem um modelo de
gestão calcado numa pretensa eficiência, tendo em vista que são dispensadas de
realizarem processos licitatórios para compras de insumos e desobrigadas de
realizarem concursos públicos para a contratação de pessoal especializado. Em
síntese, é a terceirização dos serviços públicos!
As
consequências são nefastas, caso as OSs sejam aprovadas em Florianópolis.
Destacamos algumas: 1) precarização das condições de trabalho; 2) ausência de
controle social das atividades praticadas pelas OSs; 3) critérios pouco
transparentes para a contratação das OSs, acalcanhados geralmente em aspectos
quantitativos, impactando diretamente na deterioração das relações de trabalho
e atendimento ao público. O debate precisa ser ampliado. O que está em jogo é a
qualidade social do atendimento de serviços públicos essenciais para grande
parcela da população florianopolitana.
quinta-feira, 5 de abril de 2018
FAKE NEWS E CREDIBILIDADE JORNALÍSTICA
Não
basta que os grupos empresariais jornalísticos no Brasil, responsáveis pela
grande quantidade de notícias que se irradiam em diferentes veículos e
plataformas, insurjam-se e pleiteiem que suas mercadorias informacionais ganhem
maior visibilidade em detrimento das redes sociais (leia-se facebook). Ainda que possamos concordar
que as redes sociais se apropriam de dados de seus usuários para todo tipo de
manipulação, incluindo tendências políticas em tempos de eleições, faz-se
importante considerar e problematizar que as redações dos grupos empresariais
jornalísticos estão cada vez mais distantes do interesse público, muitas vezes
atuando como meros assessores de imprensa de determinadas colorações político-partidárias.
E isso também é grave.
A
demissão crescente dos/as jornalistas das redações ou a degradação do seu
trabalho vincula-se a uma esquizofrênica necessidade de que suas atividades-fim,
a partir de agora, priorizem ‘agradar’ os leitores seja de que maneira for,
tendo como parâmetros (quantitativos) o número de ‘visualizações’ ou de ‘curtidas’
de uma notícia. Ora, o conteúdo informacional de um jornal que se paute pela
investigação minimamente isenta, atrairá leitores, justamente, pelo adensamento
das particularidades de um fenômeno social que esteja em evidência num certo
contexto histórico. Caso contrário, qual é a diferença entre esse tipo de
jornalismo e as famigeradas redes sociais?
Além
disso, o bom jornalismo exige equilíbrio. Isso significa que a informação deve
ser equalizada entre as mídias públicas, comunitárias e privadas. Não é o que
acontece no Brasil. A grande massa informacional que chega aos lares
brasileiros pela mídia eletrônica, por exemplo, encontra-se previamente
filtrada, editada e palatável para um consumidor que, muitas vezes, não busca
outras fontes de notícia para ampliar o seu cabedal analítico. Essa etapa é
mais complexa e exigirá uma discussão sobre a regularização das mídias.
sexta-feira, 16 de março de 2018
CRISE CIVILIZATÓRIA
O
assassinato brutal ou a execução sumária de uma mulher negra, militante dos
Direitos Humanos, moradora da periferia e a quinta vereadora mais votada do
estado do Rio de Janeiro, é a divisa mais acabada de um país racista, misógino,
e que a cada dia se depara com todo tipo de atrocidade à vida humana. Não é
possível se calar diante de uma conjuntura social que procura acomodar e
direcionar normativas que degradam as condições de trabalho de milhões de brasileiros
– especialmente a partir de abril de 2016 – em benefício do capital e do Poder
Judiciário, que deveria zelar pela justiça social. Aliás, a concupiscência
entre os Três Poderes é notória!
Num
passado não muito distante, as ditaduras civil-militares na América Latina
promoveram toda sorte de brutalidades, opressões, silenciamento dos movimentos
sociais e da liberdade de expressão. As comissões
nacionais da verdade, criadas para investigar os crimes desse período
recente da História latino-americana, em nosso país, foram iniciadas em 2011 e
finalizadas em 2014, porém, em grande medida, seus resultados foram
frustrantes. Para o historiador Carlos Fico a transição democrática brasileira
ainda não terminou. Diferentemente da Argentina, o traço marcante sobre a
ditadura civil-militar brasileira não é o “trauma pela violência”, mas a
“frustração das esperanças”.
Esperanças
que são golpeadas. Esperanças que são eliminadas com projéteis na calada da noite.
Esperanças que se frustram porque grande parcela da população brasileira está sem
perspectivas diante de um modelo econômico excludente e totalmente desigual. A
naturalização da violência sem peias sinaliza uma crise civilizatória num país
que até hoje não universalizou a Educação Básica; que não garante saúde pública
de qualidade para todos; que, hodiernamente, é bombardeado por noticiosos
seletivos dos grupos empresariais jornalísticos. Se a analogia da esperança
pode ser representada por uma flor, fiquemos com a máxima do poeta: “É feia.
Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
O ZEITGEIST NA CONTRAMÃO CIVILIZATÓRIA
A expressão alemã Zeitgeist sintetiza todas as manifestações
políticas, culturais e sociais de uma dada época histórica ou, em outras
palavras, representa o espírito de um
tempo, sintonizada com expressões artísticas originárias da literatura,
música, dança e artes plásticas, apenas para citar alguns exemplos. Mas, tal
fenômeno, ainda pode ser compreendido como uma síntese aguda de um tempo
histórico marcado por um conjunto de ações performáticas individualizantes
apartadas de mobilizações coletivas e de teor socializante.
O decandentismo europeu do final do século 19, do qual o escritor
inglês Oscar Wilde (1854-1900) é um dos seus principais representantes, teve
bastante influência em nosso país, especialmente na obra de João do Rio
(1881-1921). Grosso modo, o decandentismo
tinha traços da escola romântica, sobressaindo-se o ‘dandismo’ como modus vivendi. O gosto pelas coisas
fúteis, o interesse pelo efêmero, a associação da vaidade narcísica ao tédio,
também são marcas deste estilo artístico. Numa aproximação precária com os dias coevos,
estaríamos vivendo um período da História em que as intenções são mais importantes do que as ações, ou ainda, de que uma boa performance por meio das redes
sociais garantiria, por si só, efetiva
participação ativa, ocultando os efeitos nefastos de uma democracia consentida
e, portanto, descaracterizada de seus matizes mobilizadores em nível
estrutural.
Não por acaso, o
mercado editorial brasileiro tem realizado novas reedições de obras distópicas,
que traduzem em suas narrativas ficcionais, as dificuldades humanas de diálogo,
o isolacionismo narcísico, a obsessão por produtos tecnológicos que impedem ou
reduzem encontros presenciais e a necessidade compulsiva em expressar opinião
sobre qualquer assunto, ainda que não existam elementos conceituais ou teóricos
consistentes que sustentem determinadas abordagens. A necessidade
comunicacional a qualquer custo, portanto, mitiga todos os esforços
epistemológicos de compreensão sistemática da sociedade pautada na lógica do
capital, que a todo instante cria necessidades artificiais e supérfluas.
Esta verdadeira
‘empresa de si’, nos termos dos sociólogos franceses Dardot e Laval,
estabelecem novas formas de convívio, muito mais áridas e concorrenciais,
promovendo além da competitividade desenfreada em todos os setores da vida
produtiva, um aceno preocupante às ideias autoritárias, que reduzem as
manifestações artísticas a meras expressões de mentes recalcadas.
Contraditoriamente e, na contramão do que alcunhamos de ‘civilização’, é
justamente o ideário ultraconservador que não consegue resolver os seus
recalques. Nesta direção, tudo o que for ‘diferente’ de sua visão de mundo,
permitirá ao espírito totalitário repudiar sem peias. Logo, o dandismo virtual e
a ausência de vínculo com a realidade concreta, que não podem ser confundidas
com a expressão artística de um tempo, são insuficientes para combater os
exageros autoritários, já que legítimas disputas só podem ocorrer na arena
pública, portanto, terrena!
sábado, 30 de dezembro de 2017
UM MUNDO ALÉM DA APARÊNCIA
O direito social à
informação deveria conjeturar, necessariamente, direito ao contraditório. Em
outras palavras, acesso a variadas fontes de informação possibilitam aos
leitores compreenderem determinados fenômenos históricos além da aparência e
das simplificações condizentes com estes tempos em que a opinião
descontextualizada vale mais do que a investigação e o estudo sistemático. Por
princípio ético, sujeitos e setores da sociedade civil em suas mais diversas
atuações, deveriam ter as mesmas condições de construções discursivas sobre
determinado aspecto da vida pública. Tal seletividade informativa e nas mãos de
grandes agências internacionais, modelam e orientam consensos ativos,
reproduzidos ad nauseam pelas mídias
dos países periféricos do capital.
Além disso, cabe
destacar, que os desengajamentos empíricos coletivos são construções
históricas, daí a evidenciação de um consenso formulado pela lógica do capital
de que a ‘cultura da individuação’ e do ‘empreender-se a si mesmo’ são valores
a serem perseguidos, ainda que nem todos possam empreender e agregar capitais
simbólicos/culturais à sua formação profissional. A falácia reiterativa de que
não há empregabilidade para todos, reforçam a positividade da argumentação de
que toda e qualquer crise cíclica do capital pressupõe projetar e condicionar
novas e perversas formas de expropriação da força de trabalho. Os diários
noticiosos ao expressarem que a economia brasileira tem se recuperado,
paulatinamente, ocultam, ao mesmo tempo, que tal aquecimento econômico se deve
a elevadas taxas estruturais de desemprego e contratos de trabalho mais
flexíveis, elevando as taxas de lucro. As contradições entre capital e trabalho
são invisibilizadas, propositadamente.
Como bem afirma o jornalista
Francisco Karam, “falar em direito, em moral e em ética não é, portanto,
somente nos rendermos às evidências do que já existe, às evidências dos limites
da prática social e da prática jornalística. Implica, ao contrário, a
potencialidade de intervir no futuro social da humanidade”. E isso só será
possível, do ponto de vista do direito social à informação, quando revertermos
práticas discursivas que submetem imensa parcela da população mundial à
alienação, ao consenso ativo e à negação ao direito primordial da informação
sem o carimbo tácito dos monopólios midiáticos.
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Você ainda acredita em eleições?
O cenário de disputa
eleitoral que se descortina no ano que vem além de não trazer novidades que
tensionem os grandes temas nacionais, expressa um panorama em que as alianças
partidárias (indiferenciadas em suas bases programáticas) continuam a perpetuar
o velho e conhecido fisiologismo político. As contrarreformas trabalhista e
previdenciária foram o mantra deste governo, que só não definhou inteiramente
porque o toma lá da cá de cargos e mata-bichos lhe deram a sustentação
necessária para que os ataques sistemáticos à classe trabalhadora ganhassem
terreno. O apoio do setor industrial tem sido exemplar também neste quesito.
Não são os políticos
profissionais que se locupletam com vantagens pecuniárias e os deleites da
promíscua relação entre o público e o privado que têm determinado as diretrizes
governamentais. Se tivermos a compreensão de que a definição de Estado ampliado
se traduz no âmbito da sociedade política e civil, identificaremos que é
justamente na sociedade civil que temos os estratos de classe posicionados,
estrategicamente, operacionalizando as políticas públicas em vigor. A disputa
hegemônica e, por conseguinte, as forças sociais em luta, travam-se em
diferentes arenas. Como bem assinala a historiadora Virgínia Fontes, na
sociedade civil temos os clubes, as associações, os grupos midiáticos, as
igrejas, os partidos políticos oficiais, sindicatos, escolas e entidades dos
mais diversos fins. Ainda que sejam partidos não eleitorais, são capazes de
aglutinarem amplos setores sociais, atuando efetivamente como forças políticas. Assim, todas as
mudanças que ocorrem estruturalmente no país, relacionadas ao mundo do trabalho
e ao processo formativo na escolarização básica, são decisões políticas e
econômicas, mas não necessariamente populares. Por este motivo, podemos afirmar
– e concordando com Virgínia Fontes – de que a base programática da educação
pública no Brasil é atualmente uma “base programática empresarial, borrando as
diferenças entre programas partidários frente às práticas de adoção ou
parcerias empresariais com escolas públicas, acatadas por elites de quase todos
os partidos”.
A irrelevância e/ou a
indiferenciação crescente dos partidos políticos no Brasil torna o ritual das
eleições uma mera formalidade. Assim, a ‘crise da democracia’ é a crise do
modelo (neo)liberal, que ao fazer os seus ajustes macroestruturais não perde de
vista a elevação das taxas de lucro, submetendo imensa parcela da população
brasileira à indigência e ao endividamento.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
MAGISTÉRIO: IDENTIDADE FERIDA
O educador Paulo Freire
certa vez expressou que as professoras e os professores no Brasil estariam
feridos como seres de compromisso, tendo em vista que suas identidades
profissionais reiteradamente são desqualificadas pelas políticas públicas
educacionais vigentes. O desmonte dos serviços públicos de maneira geral, onde
o campo educacional se insere, por meio de políticas privatizantes e assentadas
numa racionalidade empresarial, também compõem este triste cenário aonde a
ideia de ‘público’ vai se tornando mera miragem.
Quando apresentadores
de tevê muito bem remunerados são contratados por universidades privadas para
serem garotos-propaganda na oferta de cursos em nível de licenciatura, as
chamadas publicitárias nos outdoors
destacam que tais cursos podem representar um ‘bom complemento de renda’, como
se o fato de ser professora ou professor no Brasil fosse apenas um bico. De fato, trata-se da uberização do magistério, onde o
indivíduo e os seus esforços contínuos são mais importantes do que a sociedade
e o bem comum. Direitos garantidos colocados em xeque, reforma da previdência
em curso e o avanço de movimentos ultraconservadores que querem ‘enquadrar’
professores por supostos crimes de assédio ideológico, também são aspectos
importantes se quisermos analisar os efeitos da desistência sistemática de
jovens professores na Educação Básica. Além disso, há a permanência nefasta da
dualidade estrutural educacional em nosso país, que possibilita conhecimentos
sistematizados para os filhos (ou herdeiros) das classes proprietárias e o
acolhimento social (com rudimentos de leitura e escrita) para crianças e jovens
da classe trabalhadora.
Professoras e
professores deveriam ser bem valorizados e respeitados como princípio ético de
uma nação, pois seus ensinamentos reverberam nas futuras gerações. Todavia, com
a profunda desqualificação, desprofissionalização e desintelectualização dos profissionais
do magistério pelo Estado neoliberal, toda sorte de violência física e
simbólica acabam ganhando os territórios escolarizados, desmotivando os jovens
professores ingressantes e embrutecendo os professores em carreira que
necessitam se desdobrar em cargas horárias elevadas de trabalho para receberem
um salário aquém do digno. As reformas verticalizadas na Educação Básica, especialmente
no Ensino Médio, e todas as decisões que implicam diretamente em práticas
políticas e pedagógicas, já não são mais amplamente discutidas/debatidas com os
professores por este modelo de Estado. Cuidar dos professores é cuidar de
processos formativos consistentes. Cuidar dos professores é reconhecer, acima
de tudo, que estes trabalhadores têm uma importância estratégica para que a
formação humana se constitua, efetivamente, de maneira integral, sob os
aspectos éticos, estéticos, políticos e culturais. Os professores deste país
(tão árido e desesperançoso, ultimamente) clamam por valorização profissional e
respeito da sociedade, que não raramente também destrata estes trabalhadores.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
FABRICANDO O SUJEITO NEOLIBERAL
Os cientistas sociais
Pierre Dardot e Christian Laval na obra A
nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal realizam uma
importante investigação sobre o que denominam de ‘sujeitos de um novo tipo’,
mais afeitos à competitividade, ao risco e à busca da eficácia. Segundo os
autores, “o efeito procurado pelas novas práticas de fabricação e gestão do
novo sujeito é fazer com que o indivíduo trabalhe para a empresa como se
trabalhasse para si mesmo (governo de si empresarial)”, ou seja, a
racionalidade neoliberal estaria produzindo sujeitos preocupados com a
maximização de seus resultados, expondo-se a riscos e assumindo inteiramente a
responsabilidade por eventuais fracassos.
O discurso gerencial
ganha tal dimensão que este ‘novo sujeito’ é visto como proprietário de capital
humano, que ele precisa acumular por meio de um cálculo responsável entre
custos e benefícios. Em outras palavras, a distribuição dos recursos econômicos
e das posições sociais é vista exclusivamente como consequência de percursos
bem ou mal sucedidos, diferenciando os riscófilos
(os que têm gosto pelo risco e potenciais empreendedores) dos riscófobos (os que têm medo de arriscar,
mais afeitos aos ofícios tradicionais). Os ‘gestores do risco’ seriam mais
adaptáveis e suscetíveis à intensificação do desempenho. Não por acaso a figura
do coaching é tão difundida nos dias
de hoje, como apontam os cientistas sociais: “Foi esse modelo mais do que o
discurso econômico sobre a competitividade que permitiu naturalizar esse dever do bom desempenho e difundir nas massas
certa normatividade centrada na concorrência generalizada”.
Em síntese, a obra nos
faz refletir sobre o significado da neogestão,
calcada no controle dos comportamentos e atitudes dos trabalhadores, que diante
do enfraquecimento dos coletivos de trabalho, isolam-se e internalizam
fracassos. Tal discurso da ‘realização de si mesmo’ e de ‘sucesso na vida’ leva
a uma estigmatização dos ‘perdedores’, ‘perdidos’, isto é, dos incapazes de se
adaptarem à nova norma social de felicidade. O fracasso social é visto, em
última instância, como uma patologia. Concluem os autores que parece ser inútil
lamentar a crise das instituições (família, escola, organizações sindicais) e
tentar compreender como todas essas instituições são hoje incorporadas e
transformadas em dispositivos de desempenho/eficácia em nome da modernização. Ou ainda, “oscilando
entre depressão e perversão, o neosujeito é condenado a ser duplo: mestre em
desempenhos admiráveis e objeto descartável”.
segunda-feira, 1 de maio de 2017
O OLHAR DA IMPRENSA SOBRE A GREVE GERAL
A ombudsman do jornal Folha de
S. Paulo no último domingo teceu
considerações relevantes sobre o trabalho da mídia nacional em larga escala
(aquela que tem poder de penetração mais aguda nos lares brasileiros) sobre a
repercussão da greve geral do dia 28 de abril. Enquanto parte da mídia
internacional sinalizava que a greve geral no Brasil tinha por pauta o combate
às reformas trabalhista e previdenciária do governo em exercício, os grandes
jornais brasileiros noticiavam, sobretudo, casos isolados de baderna e
vandalismo, assim como as interrupções no trânsito das grandes metrópoles, sem
se deterem nas pautas e na objetividade factual de que mais de 40 milhões de
brasileiros estiveram nas ruas lutando por direitos conquistados que agora se
encontram em litígio.
Da mesma maneira que o
assalto ao poder no último ano foi encarado como ‘normalidade constitucional’ por
meio da massificada e conservadora mídia nacional, tem sido moeda corrente nos noticiários uma deturpação/manipulação
das reais motivações populares em relação aos ataques sistemáticos aos direitos
da classe trabalhadora. O jornalista Janio de Freitas, também articulista da Folha de S. Paulo, comentou em sua
coluna de domingo passado que o atual governo, de pífia aceitação popular, não editou
qualquer medida de proteção social até o momento, aliás, muito pelo contrário,
o que ocorre no país é o desmonte dos serviços públicos e a precarização
crescente do trabalho.
Desde 1989 o país não
via tamanha manifestação. Contudo, rotulada e/ou estereotipada como meros
movimentos espontaneístas, as reivindicações populares vão sendo
desqualificadas e criminalizadas para que não ganhem musculatura no atual
contexto histórico. Parece-nos evidente que a cobertura dos veículos de
comunicação sobre temas tão caros à imensa população brasileira mereceria,
minimamente, mais detalhamentos, investigações e o justo contraponto em relação
aos diferentes posicionamentos políticos. Não há como contemporizar as
contradições ou os antagonismos entre capital e trabalho. Esta será uma luta
permanente enquanto o modelo de produção capitalista subsistir.
quarta-feira, 8 de março de 2017
A LUTA DE TODOS NÓS
A greve internacional
feminina convocada para o dia 08 de março não será uma paralisação qualquer. É
um chamado por justiça social e respeito às mulheres de todo o globo terrestre.
O Brasil é considerado o país mais inseguro do mundo no que concerne ao amparo
da integridade física e psíquica feminina; a cada duas horas uma mulher é
assassinada nos rincões deste território e a cada onze minutos, em média, uma
mulher é estuprada. Apesar da aprovação das Leis Maria da Penha (Lei 11.340/06)
e do Feminicídio (Lei 13.104/15) – sendo que esta última estabelece em seu
ordenamento jurídico que a violência contra a mulher com consequência de morte
é crime hediondo – estamos ainda muito longe de equalizar as diferenças entre
os gêneros, dadas as permanências históricas do regime patriarcal.
As reformas trabalhistas/previdenciárias
no Brasil e em toda a América Latina (apenas para falar do continente
americano) desconsideram a particularidade e/ou a singularidade da mulher no
que se refere ao mundo do trabalho. No Chile, por exemplo, as trabalhadoras são
consideradas ‘caras’ para o mundo corporativo, pois engravidam e deixam de ser
‘produtivas’. Além disso, a força de trabalho feminina ainda é empregada nos
ofícios mais degradantes em várias partes do mundo, com implicações e
motivações/justificativas sociais, religiosas e raciais de toda ordem. A
desqualificação do trabalho feminino também é flagrante no campo da Educação
Básica, onde as mulheres se inserem de forma majoritária, percebendo salários
aviltantes e com condições de trabalho aquém do razoável, além de planos de carreira
risíveis.
A luta das mulheres é de
todos nós, porque isto significa respeito e senso ético de igualdade; porque é
inconcebível que a barbárie continue grassando todos os continentes,
naturalizando a violência de qualquer espécie contra as mulheres, sobretudo de
jovens e pobres; porque a liberdade de orientação sexual, assim como o direito
ao aborto, devem ser problematizados sem mistificações e/ou generalizações
transcendentes, via de regra pautadas pela ignorância e apelos medievos. Que
esta convocação seja a primeira de muitas!
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