terça-feira, 11 de abril de 2006

A participação dos professores substitutos da UFSC na greve das IFES de 2005



Por Jéferson Dantas



A participação dos professores substitutos na greve das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) em 2005 foi de extrema relevância para a compreensão/avaliação de como estes trabalhadores em educação se encontram em situação de alarmante precarização. De acordo com um levantamento estatístico realizado durante a mobilização dos docentes do ensino superior, os professores substitutos representam, praticamente, 25% da força de trabalho da categoria na Universidade Federal de Santa Catarina, ou seja, contabilizam mais de 400 docentes. Entretanto, esta situação se agrava quando erguemos nossos olhos para a carga de trabalho dos professores substitutos em sala de aula (ensino): praticamente, 50% da força de trabalho da UFSC.
Neste sentido, a ‘novidade’ concernente à participação dos docentes substitutos na greve das IFES em 2005 foi, justamente, a denúncia de que esta força de trabalho precarizada, sujeita a um contrato de trabalho de caráter civil, i.e., um contrato de prestação de serviço sem qualquer garantia trabalhista mais consistente, precisa ser analisado estruturalmente num contexto de privatização e sucateamento do ensino público superior. A UFSC em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), principalmente durante a participação dos professores substitutos no Comando Nacional (CNG) da greve em Brasília, conseguiram elencar e organizar princípios comuns através de documentos direcionados à Reitoria das duas universidades e à sensibilização de suas seções sindicais (APUFSC e ADUnB, respectivamente). Esta parceria teve pelo menos um fruto positivo: a articulação e construção do primeiro Encontro Nacional de Professores Substitutos (ENAPS) a se realizar, provavelmente, em fevereiro de 2006, concomitante ao Congresso da Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior (ANDES-SN) [1]. Este primeiro encontro deve priorizar, certamente, o debate concernente à diminuição dos professores substitutos nas IFES e suas condições de trabalho, a abertura imediata de novas vagas mediante concursos públicos em todas as IFES do país, condições salariais dignas, dedicação exclusiva para os que têm 40 horas e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, já que os substitutos são contratados apenas para o ensino. Além disso, em momentos tensos e difíceis como ocorre em toda a mobilização de trabalhadores, os professores substitutos são os alvos preferidos para os constrangimentos, ameaças de demissão, de ‘não terem direito à greve’, enfim, toda sorte de humilhações e improbidades. A primeira atitude dos professores substitutos da UFSC foi eleger representantes locais da greve entre seus pares, sindicalização imediata e os devidos esclarecimentos da assessoria jurídica da APUFSC, encontros regulares entre os substitutos durante a semana e antes das AG’s (assembléias gerais). Foi elaborada ainda uma lista de e-mails dos substitutos, buscando a integração de outros Centros e Departamentos da UFSC e, consequentemente, o fortalecimento da identidade dos substitutos (BOLETIM DE GREVE, 2005, p. 2).
Durante a segunda quinzena de setembro de 2005, a representante dos professores substitutos no Comando Nacional de Greve (CNG/ANDES) apresentou em Brasília a ata nº. 2, de 13 de setembro de 2005, do Comando Local de Greve dos professores da UFSC, que pontuava entre outras deliberações os seguintes tópicos: a) estabelecimento imediato de concurso público; b) revisão contratual, i.e., reconhecimento da natureza trabalhista do vínculo, incorporando todos os direitos a ela inerentes, especialmente a revisão da remuneração em relação à carga horária do trabalho; c) condições iguais de trabalho para professores substitutos e efetivos, tais como estrutura física, técnica e de materiais de consumo; d) apoio e respaldo da categoria na paralisação dos substitutos, assegurando que nenhum educador tenha prejuízo ou sofra algum tipo de punição; e) audiência com o Ministério Público Federal para ajuizar uma ação civil pública, exigindo a abertura de concurso público, em virtude da caracterização da vaga (universo permanente de professores substitutos da UFSC) e a necessidade imediata de ampliação do quadro docente efetivo. Os tópicos elencados reafirmavam a necessidade de se reavaliar o impacto e o crescente inchaço de professores substitutos nas IFES, o que representa grandes perdas de qualidade e excelência acadêmica, já que os substitutos não podem se dedicar à pesquisa e à extensão, ferindo o princípio universal das universidades públicas: a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (BOLETIM DE GREVE, 2005, p. 3).
Todavia, os cinco tópicos supracitados passaram por uma depuração significativa, já que alguns membros da Diretoria da APUFSC não concordaram com o teor de determinados itens de uma carta construída pelos professores substitutos antes da assembléia de 13 de setembro de 2005. A referida ‘carta’ acabou se tornando um documento emblemático e vale a pena comentar algumas passagens da mesma, denotando impasses e campos de disputas internas. Primeiramente, a carta é endereçada ao Comando Nacional de Greve e constituída por sete sintéticos parágrafos. No primeiro parágrafo há um breve histórico de como surgiram os denominados ‘professores colaboradores’, ainda na década de 1980, e de como os mesmos através de intensa mobilização e uma greve que, inclusive, derrubou o Ministro da Educação do período, conseguiram ser incorporados ao quadro efetivo das instituições de ensino superior. Cabe lembrar que estávamos sob a égide dos últimos anos do regime militar no Brasil (1964-1985). Porém, no terceiro parágrafo da carta aparecem as primeiras divergências e uma luta silenciosa entre docentes efetivos e docentes substitutos: “Durante muitos anos a posição do ANDES e de praticamente todas as AD’S [Associação de docentes] tem sido não debater as condições de trabalho e questões específicas dos substitutos, pois a compreensão (que entendemos correta) é a de defender a não existência de profissionais com condições de trabalho precárias o que ocorre com os substitutos [sic] e que portanto não haveria o que discutir e a solução seria a abertura de concursos públicos, com que temos absoluta concordância”.
Já em seu quarto parágrafo, o ‘tom’ da carta torna-se mais incisivo: “[...] esta tática de não discutir as condições de trabalho dos substitutos não tem sido efetiva em seu propósito de diminuir a existência destes nas IFES; ao contrário, a presença destes tem aumentado significativamente, sendo que suas cargas horárias destinadas aos cursos de graduação são cada vez mais representativas, chegando a ser maiores do que o número de horas de professores efetivos, [...]”.
Ficava patente, portanto, o mal-estar ocasionado pela carta, sem eufemismos, colocando em xeque os posicionamentos políticos dos colegas em situação de efetividade. Havia uma determinada compreensão de que os “professores substitutos eram o mal necessário”, pois num contexto de produtividade e competitividade acirradas no universo acadêmico, o ensino precisava ficar nas mãos de alguém, e este ‘alguém’ estava personificado no docente em caráter temporário. Ainda que as práticas discursivas construídas nas assembléias de greve da UFSC e em outras IFES do país apontassem para o ‘problema dos substitutos’, sabe-se que na própria pauta de reivindicações protocolada pelo ANDES-SN e colocada na mesa de negociações com o MEC, não ficava suficientemente claro a situação dos substitutos. O último ponto de pauta, embora defendesse a abertura de novas vagas nas IFES, não ampliava o debate e a situação de precarização dos substitutos, dando a entender que este aspecto de relevância estrutural nas universidades públicas brasileiras iria, literalmente, para as calendas gregas.
Lembrando o educador baiano Anísio Teixeira, que na década de 1940 defendia que a universidade deveria estimular a criatividade intelectual e a destruição do isolamento de determinados setores da sociedade, assim como o constante espírito de investigação e desenvolvimento de quadros intelectuais do país (PINTO; LEAL; PIMENTEL, 1995, p. 77), parece-me que esta greve deixou de lado muito desse espírito. No âmbito de uma reforma universitária em curso, que defende o empreendedorismo docente e a busca de recursos privados para o fomento de pesquisas estratégicas, Anísio Teixeira, efetivamente, soa-nos extemporâneo. O Partido dos Trabalhadores (PT) na costura de sua estratégia de poder atual deixou de lado princípios muito caros presentes em sua trajetória histórica, das quais podemos elencar: a) valorização da cultura, do saber e do poder popular; b) defesa intransigente da escola pública, gratuita, laica e única; c) luta pela gestão democrática, gratuidade ativa e superação da dicotomia educação formal/educação informal; d) defesa da escola pública e gratuita em todos os níveis e criação de uma escola com princípios socialistas (Idem, p. 100-103).
Logo, os golpes duros que o ANDES-SN recebeu em todas as rodadas de negociação com o MEC e, tendo que presenciar a participação conjunta de um fórum de professores sem legitimidade sindical (PROIFES), representou, nitidamente, a estratégia de desqualificação impingida pelo MEC ao ANDES-SN, divisionando a categoria docente do ensino superior.
Levando-se em conta todos esses aspectos, os professores substitutos muito em breve passarão a ser majoritários em boa parte das IFES brasileiras. Sob todos os ângulos, isso será o estopim da destruição da universidade pública no Brasil. Imagino como será, por exemplo, construir uma greve tendo como elemento majoritário os docentes em caráter temporário, extremamente tangenciados por ameaças de demissão, constrangimentos por parte de chefes de departamento e coações de toda espécie. Do ponto de vista do embate político isto representa uma fragilização de conseqüências diversas. E o que é mais dramático: um facilitador para a implementação da reforma universitária em curso e o desmonte pleno da universidade pública.
Enfim, os professores substitutos da UFSC, em particular, demonstraram nesta greve uma compreensão mais aguda de suas condições de trabalho, denunciando nas assembléias a precariedade a que são submetidos. Além disso, destacaram-se nacionalmente, em parceria com a UnB, dando visibilidade ao seu caráter profissional, a indissociabilidade da pesquisa, ensino e extensão e o compromisso do ANDES-SN na colaboração do primeiro Encontro Nacional de Professores Substitutos (1º. ENAPS). Como em toda a greve, as avaliações possíveis são multifacetadas e polissêmicas. As lições foram inúmeras. A experiência política que os professores substitutos da UFSC adquiriram no comando local de greve e também no comando nacional, não deixam dúvidas de que este contingente de trabalhadores em educação é importante nos momentos cruciais de uma greve e na formação de futuros profissionais em áreas diversas do conhecimento humano. Neste sentido, as seções sindicais vinculadas ao ANDES-SN precisam mais do que nunca, estruturarem internamente e, permanentemente, fóruns que avaliem a nocividade do crescimento dos professores substitutos nas IFES, uma força de trabalho de baixo custo e que tem respondido por boa parte dos profissionais que são ‘lançados’ no mercado de trabalho todos os anos.

REFERÊNCIAS


Boletim de Greve – Informativo do Comando de greve dos professores da UFSC, Florianópolis/SC, n. 1, Ago. 2005.

Boletim de Greve – Informativo do Comando de greve dos professores da UFSC, Florianópolis/SC, n. 5, Set. 2005.

PINTO, Diana Couto; LEAL, Maria Cristina; PIMENTEL, Marília. Trajetórias de Liberais e Radicais pela Educação Pública. São Paulo: Ed. Loyola, 1995.



[1] A proposta inicial do ENAPS foi alterada por um Seminário de dois dias em Brasília (11 e 12 de fevereiro de 2006) organizado pelo ANDES-SN, tratando fundamentalmente da precarização do trabalho docente.

quarta-feira, 22 de março de 2006

Minha singela resposta ao ranking do ENEM

O que não aparece no “ranking”.

Jéferson Dantas

A Escola de Educação Básica Jurema Cavallazzi, situada no bairro José Mendes e que atende, principalmente, crianças e jovens do Morro da Queimada na cidade de Florianópolis, recebeu a pior avaliação do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) no Estado de Santa Catarina. Como educador que fui dessa escola, posso elencar alguns exemplos de como números “frios”, que promovem a competitividade e a isenção do poder público, procuram criar na percepção coletiva a idéia de que todos são iguais na desigualdade, nos termos da professora Terezinha Saraiva.
A E.E.B. Jurema Cavallazzi faz parte do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (FMMC) há pelo menos seis anos em parceria com mais oito escolas públicas estaduais e quatro Centros de Educação Infantil mantidas pelo Estado. O FMMC atende, basicamente, crianças e jovens que vivem em situação de risco nos morros e encostas de Florianópolis, quase todas ceifadas pela triste realidade do narcotráfico, péssimas condições de moradia e ausência de projetos sociais consistentes. Grande parte das escolas realiza eleições diretas para diretores, na contracorrente dos cargos de confiança apadrinhados pelo governador, prática tão comum em várias partes do país. O FMMC possui várias instâncias de deliberação coletiva, dentre elas a comissão de educação que planeja e executa ações pedagógicas de caráter social, cultural e educativo, como foi o caso da Mostra Cultural realizada no final de 2003 no principal teatro da cidade. Além disso, inúmeras foram as audiências com o então secretário de Educação, Ciência e Tecnologia Jacó Anderle, já falecido. O mesmo ocorreu com o secretário de Desenvolvimento Regional da Mesorregião da Grande Florianópolis, Valter Gallina, que em setembro de 2004 prometera a construção do ginásio poliesportivo na E.E.B. Jurema Cavallazzi, promessa nunca cumprida, embora o engenheiro responsável naquele momento tenha afirmado que havia orçamento para a obra. A Gerência Regional de Educação, Ciência e Tecnologia (GEREI) também foi procurada como interlocutora no sentido de auxiliar a referida escola em seus aspectos pedagógicos mais emergentes.
Fica-me uma grande indagação: como uma escola que busca, exaustivamente, a inclusão social de crianças e adolescentes em situação de risco pode ser a última no ranking do ENEM? Como uma escola que, em nenhum momento, isentou-se de sua responsabilidade social e educativa, procurando as organizações do sistema de ensino vigente, pode ter sido a última no ranking do ENEM? Como uma escola que há anos é campo de estágio das duas maiores universidades públicas do Estado (UFSC e UDESC) e que possui uma longa trajetória de intercâmbio com estas instituições de ensino superior (principalmente com projetos de extensão articulada à formação continuada de educadores) pode ser a última do ranking do ENEM?
Bem, a resposta não é simples. Está tangenciada por uma série de elementos que passa pela valorização social do magistério e condições dignas de trabalho. A E.E.B. Jurema Cavallazzi, em síntese, tem resistido a todos os desmandos das políticas públicas locais, já que não está coadunada a qualquer legenda partidária. Ah, mas isso não pode aparecer no ranking, não é mesmo? Prefiro acreditar no trabalho coletivo real, solidário, repleto de desafios cotidianos e com todas as multifaces de uma construção histórica do que em números frios e previsíveis sob a ótica da lógica do Capital. É justamente essa lógica que trata desiguais como iguais que tem permeado as políticas públicas nos últimos dez anos, denotando a desresponsabilização do Estado e a indiferença a sujeitos em plena formação escolar.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Do projeto literário "Verdades para serem ditas: os poemas da esperança" (2006)


IV

necessário
se afastar do amigo
para que ele
aprenda coisas novas
e possa te ensinar
também.

necessário
não dizer nada
quando o amigo
chora
e só quer o
teu abraço.

necessário
acolher o amigo
com culinárias
alquímicas e
beijos na face.

necessário
que a palavra
nunca seja em
vão.

necessário
que a vida vingue
em corações
exangues.

imperativo
amar o amigo
pleno de contradições
porque ele
é como tu:
auge e abismo!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

ENEM acirra a competitividade?


Igualdade entre desiguais

Terezinha Saraiva

Pela primeira vez, nesses oito anos em que o Ministério da Educação realiza o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o INEP resolveu publicar um "ranking" das escolas públicas e particulares de ensino médio, a partir dos resultados obtidos pelos alunos que o realizaram. Não sei qual foi a intenção. Considero, entretanto, uma decisão sem qualquer valor pedagógico, uma vez que a partir de uma comparação entre realidades diversas, em que inúmeras variáveis influem no processo ensino – aprendizagem e, em conseqüência, no desempenho dos alunos, a publicação do ranking levou a opinião pública a estabelecer um equivocado juízo de valor sobre as escolas. A publicação do ranking que comparou clientelas diversas, corpos docentes diferenciados, condições de trabalho desiguais, além de não traduzir um julgamento justo trouxe um grande desconforto e mal-estar às escolas, seus gestores, seu corpo docente, seus alunos e suas famílias. Qual o mérito de um ranking? A meu ver, como educadora, nenhum; sobretudo quando, como este, estabelece comparação entre coisas desiguais.
Se considerarmos estímulo e desestímulo, este último foi muito maior. A frustração alastrou-se entre os diversos atores das escolas mal classificadas no ranking. O esforço para construir e desenvolver uma boa proposta pedagógica, para oferecer ao seu corpo docente oportunidades permanentes de atualização, de modo a aperfeiçoar sua prática docente, de oferecer a seus alunos um ensino de qualidade, além de orientação para a continuação de seus estudos ou para buscar um espaço no mundo do trabalho, familiarizando-os com as várias profissões e com os cursos técnicos ou superiores existentes, enfim, o esforço para desenvolver um trabalho educacional de qualidade foi julgado pontualmente, por um único instrumento – a prova do ENEM, deixando de considerar as inúmeras variáveis que poderiam ter interferido nesse resultado. Por exemplo: sei de um excelente colégio particular do Rio de Janeiro, que não inscreveu para o ENEM os alunos das turmas de EJA, sabendo que seu desempenho seria, provavelmente, inferior, empurrando para baixo os resultados da escola. Do mesmo modo, conheço um outro excelente colégio particular, também do Rio, que inscreveu além dos alunos dos cursos regulares os das turmas que atendem jovens e adultos. As notas obtidas por esses últimos colocaram o colégio muito abaixo da classificação que obteria, se tivesse inscrito somente os alunos das turmas do ensino regular, que tiveram um excelente desempenho no ENEM. Por ter tido uma postura muito mais correta e democrática dando oportunidade, a todos, de realizaram o ENEM, o segundo colégio ficou mal classificado e julgado por mau desempenho perante os leigos, porque os educadores sabem que um ranking tem que ser visto com ressalvas e quase nunca traduz a qualidade do ensino oferecido pelas escolas e da aprendizagem alcançada
pelos alunos. Os aspectos positivos de um ranking são infinitamente inferiores aos aspectos negativos. Um outro aspecto negativo resultante do ranking foi a indução à comparação entre ensino público e privado, levando a uma assertiva generalizada que não é verdadeira: a de que escola particular é, em geral, melhor do que escola pública. Aliás, o próprio ranking mostrou os bons resultados dos Colégios de Aplicação, das Escolas Técnicas Federais, com destaque para a Escola Técnica, voltada para a área de saúde, mantida pela FIOCRUZ, do Colégio Pedro II, do Colégio Militar, todos eles públicos. Quem já foi gestor de um sistema educacional sabe que há boas escolas públicas e particulares; como há escolas fracas mantidas pelo poder público ou pela iniciativa privada. Generalizar é um erro.
Os dois exemplos aqui citados mostram o desserviço prestado com a publicação de um ranking de escolas, a partir dos resultados do ENEM. O desestímulo foi muito maior do que o estímulo, se era essa a intenção do INEP. É importante que as escolas recebam as notas obtidas por seus alunos, retirando, de sua análise, os procedimentos a serem tomados para cumprir, cada vez melhor, a sua missão: ensinar e fazer aprender. Quanto ao ranking, sua análise não leva a nada, a não ser afagar o ego de algumas escolas e levar frustração a muitas outras. E, pedagogicamente, sabe-se, e não é de hoje, que não se deve tratar igualmente os desiguais.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Do projeto literário "A precariedade do(e) Ser" (2005-200?)

a poesia
como o pão dormido
aguarda
seu destino.


na lata de lixo
meus
segredos
rotos e cegos.


e toda
a energia dos
dias
na presilha dos
sacripantas.



são com
estes que lutas
e desmoronas
por acaso.



há uma feição
estranha
nesta busca
e uma tarde morna
se enrosca
pelo teu corpo de estigmas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Do projeto literário "Forma Crua e Poema pra quem tem verso" (reunidos até 1997)


ARTISTA

“Só raramente, por singularidade,
uma ou outra mulher ama o
artista, quando já acaso também
existe nela qualquer corrente de simpatia
mental, qualquer relação de afinidade
que estabeleça entre ambos uma claridade
e harmonia de sentimentos mais ou menos
congêneres, equilibrados.”
(CRUZ E SOUSA)


Quem saberá
das fugas
dos artistas e
de seus devaneios
noturnos...
Quem saberá de seus noctambulismos
e de suas sensibilidades
discretas ...

Quem saberá resistir
ao poeta
que se
traveste de mendigo
e abre
as portas
do Paraíso
com o doce
ciciar dos
anjos e das
floridas falas
das hipnotizantes
magnólias ...
Oh, triste pássaro
audaz!
Quem te seduz no vôo?
Não morra
sem conhecer
os doces
beijos dos
faróis, das
fêmeas endiabradas de Senso
Crítico e
de achismos tórridos ...
Não sonhe!
Oh, tresloucado
companheiro das
viagens mórbidas ! ...
Não te
imobilize por fragmentos
rotineiros
das tardes
infernais ...
Quem saberá encontrar
a dor do outro?
Das efêmeras casualidades,
dos registros
límpidos,
das cachoeiras
que inundam
teu corpo
de alvuras gélidas,
Enrijecem teus músculos fatigados
e o prenúncio dos dias
d’ouro
são as misérias
lúgubres
do instante da
volúpia
incerta ...
Quem poderá amar o artista?
Quem saberá o
infinito
desejo
de cada
alma peregrina?
São incertas as mariposas
e
os insetos zunem
pelo jardim
das delícias ...
Cálidos e
morosos
beijos,
desventuras
do artista
sem dono ...
Misturas de covardia
e
indolências alegres ...


Janeiro de 1997

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Qual educador(a) já não passou por isso?

> Zero Hora, 02/02/2006 - Porto Alegre RS

Demissões de docentes, uma surpresa anual
Cecília Farias/ Diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Privado do RS (Sinpro/RS)



Início de ano... Reflexões sobre o que passou, balanço e novos desafios para o próximo ano. Para grande parte dos profissionais que iniciam mais uma jornada com a garantia de seus empregos. Mas, para uma expressiva parte dos professores da rede privada de ensino, o início do ano está sendo marcado pelo afastamento do seu ambiente de trabalho, pela angústia e preocupação com o sustento no próximo período. Esta tem sido uma situação recorrente há muitos anos.
As instituições de ensino privadas, diferentemente das instituições de ensino públicas, aproveitam o final de um ano letivo e o início de outro para fazerem uma "limpa" no seu quadro docente, seja com a justificativa de mudança na organização curricular, seja para superar eventuais problemas de gestão, seja, ainda, porque aquele professor "não mais atende às necessidades da instituição".
Essa última justificativa, normalmente nunca abordada pela direção das instituições com os docentes, se caracteriza, em muitos casos, em total surpresa para o professor.
A mudança do corpo docente, a cada ano, traz como conseqüência imediata a constante necessidade de incorporar novos profissionais que precisam se adequar ao projeto político pedagógico específico de cada instituição. Ocorre que a rotatividade de profissionais ataca sistematicamente a identidade da instituição, colocando em risco a consolidação do projeto pedagógico. Neste sentido, surge um primeiro questionamento: por que a escola particular do Rio Grande do Sul, que tem demonstrado uma extrema preocupação com a aprovação de seus alunos, não tem investido na capacitação de seus professores? O que pode justificar a demissão de um professor que há anos entrega para a instituição os finais de semana na preparação de suas aulas, as horas livres dedicadas às atividades extracurriculares e, até mesmo, a flexibilização no cumprimento da legislação trabalhista? Em que momento ela "perde" esse profissional?
É lamentável que o mesmo esforço da escola privada gaúcha em promover ações que inviabilizem a reprovação de seus alunos não seja estendido aos seus colaboradores. Que não haja, durante o ano letivo, acompanhamento do trabalho do professor para que possam ser superados possíveis problemas, que não aconteça a formação em serviço, a exemplo da previsão nas escolas públicas e, principalmente, que o espírito fraterno, enaltecido pelas diversas instituições confessionais, não tenha correspondência, muitas vezes, no dia-a-dia da escola privada do Rio Grande do Sul.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Do projeto literário "Suspenso e Alheio ou as minhas reticências sinceras" (2005-2006)


Só de pancadas e tragédias esse amor não conseguirá sobreviver. Ninguém consegue. O homem sério que conta dinheiro no ministério diz ter prioridades para a nação. O outro homem que quer fechar os olhos do país usa de trocadilhos populachos para adocicar o amargor destes dias de estupefação e impunidades. E há um parlamentar-anão que promete sermos homéricos! Líderes de comandos mafiosos assassinam prefeitos e testemunhas. E rimos disso tudo como num teatro do absurdo. É o teatro do absurdo! Brecht não riria.

E não veio o furacão. E não veio a dança. E não veio o verão. E não vieste. E não sofri. E os dias que passaram não contabilizei nas minhas anotações noctívagas. Os irmãos Graco jazem em terras longínquas. E a agrária reforma não veio, irmão. E a praia virou sertão, caro Conselheiro.

domingo, 29 de janeiro de 2006

Amor & Arte


Somente a arte pode nos dar uma sensação de completude, de transcendência. Seja na literatura, na pintura, no cinema ou na educação. A arte cinematográfica é uma das mais fascinantes obras humanas. Quando os cineastas aprenderam a técnicas de montagem, também aprenderam a contar uma história com as mesmas tensões, permanências e rupturas da vida cotidiana. Com sabedoria, Griffith e Eisenstein tornaram o cinema uma das mais belas criações do gênero humano. E a beleza é a única coisa que nos acende, desperta e motiva. O cinema transforma situações deprimentes em arte e passamos a ressignificar a natureza do 'belo'.
Estou cada vez mais convencido de que o amor é a única forma de nos mantermos vivos e ligados à Gaia. Amar é uma arte. Exige cuidado, paciência, constância, habilidade, ternura, paixão, embate. O amor é a glória! Fiquei comovido com a entrevista do ator Raul Cortez numa das últimas edições da Revista IstoÉ. No fim da entrevista ele fez a seguinte consideração, referindo-se ao poeta Rainer Maria Rilke: "Põe a cabeça no travesseiro e pergunta se você viveria sem escrever". No interior dessa citação, quanta entrega e paixão! Assim como o ator não vive sem atuar, o educador não vive sem educar. E é essa a minha autêntica entrega...minha forma de semear o amor pelo mundo. Quantos sujeitos já passaram pelas minhas mãos? Quantas almas foram tocadas pelas minhas palavras e pelos meus gestos de carinho? Quantos del@s me recompensaram com seus depoimentos carinhosos, sinceros e amorosos? E isso não é pouco. Só o amor é capaz de dar essa medida. Só o amor nos arrebata! Só o amor é capaz de nos construir/desconstruir. O amor é a única virtude. Só ele nos conduz aos verdadeiros enlaces. Só o amor pode nos retirar de uma situação permanente de miséria. Só o amor pode nos fazer enxergar com os olhos sensíveis d'alma. Só o amor é a verdadeira fortaleza e somente ele pode nos libertar. Desnudar-se, portanto, faz-se fundamental!!!

As canções nativistas e a alma gaudéria


Pesquiso canções e intérpretes nativistas do Rio Grande do Sul. A especificidade dos temas, a importância dos festivais, levam-me àquelas paragens por ora tão distantes. Essa idéia de raiz, de tradição que os gaúchos possuem é bastante peculiar. Carrego comigo um pouco das tradições no amargo que bebo todos os dias, companheiro das leituras nas invernadas. Num desses momentos de lembranças da infância escrevi "Poço de Saudade"(1999), que foi devidamente musicada. É uma milonga:
Desgarrei-me do meu pago/ não me abrigo mais no pala/ sou um poço de saudade/ só o tempo é que me abala.
Ainda criança na Campanha/ meu avô contava histórias/ sobre o vento minuano/ dos charruas, lutas inglórias.
Desde piá eu já vislumbro/ que a raiz é o que importa/ e que o meu lugar no mundo/ só tem sentido nas bravatas.
Recuar no tempo é triste/ quando se está longe dos seus/ quanto mais o tempo insiste/ mais se sabe o que perdeu.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

A permanência do preconceito


Portal Aprendiz, 23/01/2006

Professores negros não chegam a 1%

Na tentativa de corrigir as desigualdades raciais, cada vez mais universidades separam vagas para negros no vestibular. Enquanto isso, na outra ponta da sala de aula, um problema da mesma natureza continua sem atenção: o número insignificante de professores negros no ensino superior. Quem chama a atenção é o antropólogo José Jorge de Carvalho, da Universidade de Brasília (UnB). No ano 2000, ele fez uma espécie de censo racial em 12 importantes instituições de ensino superior. A conclusão: num país em que 45% da população se declara negra (preta ou parda), o número de professores dessa raça não chega, em média, a 0,7%.
O índice mais baixo foi na instituição de ensino e pesquisa mais conceituada do País. Dos 4.705 professores da Universidade de São Paulo (USP) em 2000, só cinco eram negros (0,1%). "Os números são escandalosos. É difícil encontrar outra explicação que não seja o racismo", diz Carvalho, que fez o levantamento para o livro Inclusão Étnica e Racial no Brasil (Ed. Attar). Na raiz desse problema, segundo o antropólogo, está a dificuldade que os negros têm para chegar à universidade pública. Dos estudantes que se inscreveram no vestibular deste ano da USP, 23,1% eram negros. Na segunda fase do concurso, o grupo de negros caiu para 12,9%.
Para Carvalho, as universidades só têm a perder com a exclusão racial na docência. "Com mais negros, o leque de temas tratados na academia se torna mais variado, chegam mais conhecimentos novos. A experiência pessoal do professor faz diferença." O hoje professor Renato Emerson dos Santos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), sentiu a ausência de negros quando procurou orientador para seu projeto de mestrado. Formado em Geografia, ele queria tratar da segregação racial. "Fui desencorajado por quatro professores. Disseram que o tema não tinha nada a ver. Consegui fazer o mestrado porque aceitei abordar outro tema", ele afirma. Santos estava entre os 30 professores negros identificados na Uerj em 2000. Ele, porém, diz conhecer não mais que 12.
Para o autor do levantamento, o tema precisa ser debatido porque "o poder no país passa pelo professor universitário". Ele cita exemplos, como Cristovam Buarque, reitor da UnB e depois ministro da Educação, e Carlos Lessa, reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) antes de presidir o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
O Ministério da Educação prometeu abrir 4 mil vagas para professores nas universidades federais até 2007. Para Carvalho, que é branco e ajudou a criar o sistema de cotas para vestibulandos negros em Brasília, essa é a chance de levar as ações afirmativas para a docência. Ele sugere que o professor negro tenha "acesso preferencial". "É diferente da cota. Se cinco são aprovados para três vagas, os negros teriam preferência." A Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) pode ser a primeira a adotar o critério. A idéia foi aprovada pelo conselho universitário e agora aguarda a decisão do governo estadual.

sábado, 21 de janeiro de 2006

Noites Insones

Varo madrugadas. Noites longas, por vezes ásperas... e sonhos tempestivos. O corpo retesado, máculas por braços e pernas... e só desperto com o canoro pássaro que parece conhecer todos os meus segredos e degredos. Por certo, quando finalmente estiver em sono profundo, a mercê de todas as representações oníricas, poderei ter a medida certa do quanto fui alerta e do quanto aprendi com a musa de todas as épocas. E só ela, a Clio desavisada, pode compreender que o tempo é fronteira do que não se sabe... e ainda que caolha e submersa na lama humana, empreenderá suas retóricas análises... e eu estarei lá... insone... com minhas reticências agudas e sinceras.
NOTA: Este breve texto foi construído pensando no meu grande amigo Alexandre Barp, que pediu-me para explicar a gênese da expressão "Clio Insone". Então, Barp, promessa cumprida!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Do projeto literário "Forma Crua e Poema pra quem tem verso" (1987-1997)

POEMA PRA QUEM TEM VERSO


Você
até
me
olha
com
desconfiança
cruel...



Ele
não
ama


e


Chora
lágrimas
de
Papel...

Espionagem Virtual


Google nega pedido dos EUA para revelar buscas

Folha Online

O gigante das buscas Google se recusou a cumprir uma intimação do governo norte-americano que vai contra a política de privacidade da companhia --a administração Bush gostaria de saber o que milhões de pessoas estão procurando na internet com a ajuda da popular ferramenta.
Segundo a empresa, o governo quer uma lista com todos os termos digitados na caixa de buscas durante uma semana específica --caso elaborado, este documento teria milhões de palavras. Além disso, o Google deveria fornecer cerca de 1 milhão de endereços virtuais contidos em seu banco de dados e selecionados a esmo.
A intimação, afirma a agência de notícias Associated Press, mostra como os sites de busca podem ser úteis para os governos, quando eles querem controlar a população. Para justificar o pedido, representantes dos EUA falam que estas informações são "vitais" para o cumprimento de leis que protegem crianças contra a pedofilia.
Com a recusa do Google --a intimação chegou à empresa em meados do ano passado--, o advogado Alberto Gonzales, que representa os EUA, pediu nesta semana que um juiz de San José interviesse no caso e fizesse outro requisição oficial para a entrega das informações.
Ontem, o Yahoo! confirmou à Associated Press ter recebido uma intimação parecida. "Não revelamos qualquer informação pessoal de nossos usuários", afirmou a empresa. A Microsoft --dona da ferramenta de buscas MSN-- se recusou a dizer se recebeu um pedido oficial deste tipo.
Para especialistas, este caso preocupa por ir contra as políticas de privacidade das empresas de busca --teoricamente, o internauta tem direito de procurar o que bem entender nestes sites, sem ser identificado.
Este tipo de preocupação em relação ao direito à privacidade aumentou ainda mais quando se soube que, depois dos ataques de 11 de setembro, os EUA tiveram acesso à comunicação de civis sem autorização oficial para fazê-lo.
Com agências internacionais

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

Brasil: terreno das contradições e das desigualdades



Estado de Minas, 19/01/2006 - Belo Horizonte MG

Réquiem para o trabalho: Universidades, quase sempre inacessíveis, deveriam ser o berço dos jovens que querem se preparar para o trabalho

Maurício Pessoa

Terá morrido o direito ao trabalho, levado pelos ventos furiosos e inclementes das novas tecnologias, incapazes de serem pacientes com os despreparados? Ou terá sido condenada ao sepultamento a esperança dos mais jovens, inaptos para a produção e vocacionados à marginalidade do ócio imposto pelo preconceito e pela má vontade? Seja o que for, para um universo estimado em mais de 17 milhões de desempregados – sem levar em conta as multidões de jovens que todos os anos batem às portas das fábricas, lojas e escritórios e as encontram fechadas –, este é um país que maltrata sua gente e despreza direitos naturais. Os jovens não trabalham porque, mesmo tendo a vitalidade da juventude, não dispõem da experiência gerada pela maturidade. Aos mais velhos, no entanto, é negada a oportunidade de trabalhar, porque, apesar da experiência, não têm a força da juventude. Não é ironia de mercado, é crueldade. Um casulo é o túmulo de uma lagarta e o berço de uma borboleta; as universidades, quase sempre inacessíveis, deveriam ser o berço dos jovens que querem se preparar para o trabalho, mas são, simplesmente, a desesperança de jovens e velhos, condenados a se tornarem meros espectadores dos acontecimentos. Assim, num país que convive com mais de 400 mil engenheiros desempregados, não se deve admirar as longas filas às portas dos quartéis como o retorno do serviço à pátria, mas, sem dúvida, a busca de um soldo, roupas e comida, além da garantia do emprego. O desenvolvimento econômico está atrelado a uma palavra sempre descuidada no Brasil, a educação.
Governos e empresários sempre se sentiram distantes do fenômeno durante o período em que manejar máquinas e equipamentos era quase trivial. Apertar parafusos, produzir uma peça, a exemplo do que sempre fizeram os torneiros, são assuntos do passado. Hoje, exige-se amplo conhecimento de informática, domínio da língua inglesa, num país onde a maioria das crianças, tangidas pela fome e pela miséria, mal consegue terminar o primeiro grau. Não há trabalho, morreu o emprego e a ressurreição da remuneração depende do desenvolvimento econômico, utopia de políticos e promessa de governo nunca realizada. Não se descobriu ainda ser a educação a mais criadora de todas as forças econômicas e a mais fecunda de todas as medidas financeiras. O que se sabe é que o Brasil é feito por nós. É urgente desatá-los.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Do projeto literário "Kiara e o Encontro dos Anjos" (2001)

O silêncio do meu pai

Dia chuvoso de carnaval. Na praia com uma dezena de pessoas entre mulheres e homens, buscava me fortalecer e me proteger da selvageria carnavalesca. Encontrei a mulher com o sorriso da permissividade. A praia deserta e sem iluminação elétrica, dava contornos mais saborosos ao ambiente breu.
Todos sorriam, cantavam e bebiam. Banhávamo-nos numa lagoa que nos conduzia ao oceano. Volúpias de mistério e descobertas! Todos os dias a aurora insistia em seu canto último. Teimava em nos sacudir. Preâmbulo das horas matutinas. Ronronávamos, acreditando que poderíamos ludibriar o tempo. Uma alma desesperada do meu lado fechava os olhos e, em tal clamor, lancinava-me sem piedade. A miséria era maior do que a devassidão humana!
Conversávamos, animadamente, sorvendo o amargo do chimarrão. Na brasa, o carreteiro estava quase pronto. Nuvens carregadas ameaçavam inundar nossas tendas plásticas. Dois viajores da América Central falavam da revolução no país de origem. Quando anoiteceu, chuva torrencial nos acuou. Tremíamos e sonhávamos apertados em lençóis de algodão. De um canto da tenda, grunhidos últimos dos retardatários da madrugada insone.
O carnaval se foi. Ainda havia a última canção. A última lamúria dos ventos feminis. Ao regressar para o meu casulo de degredos, já não era o mesmo. O pai me visitou. Algo raro. Fomos almoçar juntos. Conversava com ele num restaurante de aparência suspeita. Era Domingo. O pai acreditava que as novas gerações iriam mudar a ‘cara’ do canil brasilis. Olhar distante era aquele. Uma pressa de ir embora. Para onde? Entremeado pelos goles da cerveja quente, olhava para ele, para o seu silêncio interno.
Nota: Meu pai faria 62 anos hoje (18/01/06).

Queda de braço entre Andes e Mec ainda não terminou...



> Folha Dirigida, 17/01/2006 - Rio de Janeiro RJ

Técnicos e professores podem voltar a parar

Natália Strucchi

Ainda sem um acordo com o Ministério da Educação (MEC), o conjunto de técnico-administrativos das universidades federais pode retomar a greve iniciada no ano passado e que acabou após o governo se comprometer a atender parte das reivindicações da categoria. Após 48 dias de retorno às atividades normais nas instituições, com o novo calendário acadêmico em vigor, o coordenador-geral da Fasubra, sindicato nacional dos técnicos, João Paulo Ribeiro, garante que diante da falta de acordo com o MEC, outra greve pode ser a saída. "Diante de tanta intransigência, o jeito vai ser botar o bloco na rua. Ou seja, pode haver greve novamente", avisa.
Ribeiro conta que, no último dia 10, houve uma reunião com o ministério porém nada ficou acertado. "Tivemos ma reunião no dia 10 e o MEC se contradizia o tempo todo. Uma hora afirmava que era uma reunião de negociação, outra hora dizia que não", afirma. O dirigente explica que a verba prometida pelo MEC, durante as negociações da greve que durou mais de
100 dias, não vai mais ser repassada agora. "Durante a greve, o governo prometeu R$255 milhões em incentivo para capacitação e carreira. Agora não vai mais dar esse valor, alegando que não tínhamos fechado um acordo", reclama Ribeiro. Com a situação atual, o coordenador garante que a Fasubra continuará a lutar pelos seus direitos. "Estamos em uma situação crítica, ficamos mais uma vez na pior, com grande indignação. Vamos continuar forçando a barra, afinal ficou muito difícil. O governo jogou tudo para o segundo semestre".
Andes se revolta com paralisação do PL - O Sindicato Nacional dos Docentes do Ensino Superior (Andes) também não está nada satisfeito com a atitude do MEC após a greve. Segundo a presidente do Andes, Marina Barbosa, o ministério paralisou o Projeto de Lei (PL) que estava em andamento na Comissão de Educação e Cultura da Câmara e que previa um reajuste salarial de 8,45% para a categoria. "O MEC simplesmente paralisou o PL para fazer algumas correções. Eles nem sequer avisaram isso para o sindicato. Ficamos
sabendo através da internet", reclama Marina. De acordo com a dirigente, o ministério não cumpriu o prometido. "A greve terminou e nós continuamos na mesma. O ministério não fez nada e ainda pretende diminuir nosso salário. Vamos denunciar à sociedade e ao Congresso qual o verdadeiro caráter do MEC", avisa a presidente do Andes. O sindicato vai tentar conseguir uma audiência no ministério, construir um calendário de lutas para reivindicar direitos e debater a campanha salarial de 2006. "Em janeiro já deveríamos receber o que tinha sido combinado com o ministério e não deve acontecer. Está marcada para 12 de fevereiro nossa próxima reunião nacional, para decidirmos que decisão tomar", declara. Sobre outra possível greve, Marina afirma que os professores não pensaram na questão, mas vão acompanhar tudo o que está acontecendo para decidirem o que fazer. "Vamos realizar muitos debates para resolver esta questão. Queremos primeiro trabalhar no acompanhamento das coisas", conclui a presidente do Andes.
Secretário desmente acusações dos sindicatos
O secretário-executivo adjunto do MEC, Ronaldo Teixeira, declarou que ambas as situações citadas são inverídicas. "No que diz respeito aos professores, o projeto está no Congresso e estamos fazendo grande esforço para sua aprovação, que não terá contrariedade, aumento nunca tem contrariedade. Em relação aos técnicos, a implementação da segunda etapa está em curso através da formação de um grupo de trabalho e de comissões", afirma Teixeira. O secretário conta que, na reunião do último dia 10 com a Fasubra, os representantes discutiram o assunto. "Fizemos a reunião para tratar da instituição de grupos de trabalho para que possam realizar a implementação da segunda etapa do plano de carreira, que é uma conquista histórica dos técnicos-administrativos. Essas declarações da Fasubra me surpreendem parcialmente", garante.
Em relação às declarações da presidente do Andes, Teixeira diz que o encerramento da greve foi unilateral, diante da proposta feita pelo ministério. "Não foi, lamentavelmente, assinado um acordo. Na verdade, estamos implementando nossa proposta com a compreensão da maioria dos professores. O sindicato em si não assinou nada. Já o ProIfes, que é a outra Associação Nacional dos Professores, concordou conosco, mas também não assinou um acordo", explica.
Teixeira falou da proposta feita pelo MEC. "A nossa proposta contempla reivindicações históricas. Serão R$650 milhões este ano e R$770 milhões de impacto para o ano de 2007. Estamos convencidos que é uma proposta qualificada. Tanto é que os professores saíram da greve, mesmo que não houvesse acordo formal, e decidiram ser favoráveis à proposta". Quanto à retirada do PL do Congresso Nacional, o secretário novamente desmente a
versão apresentada. "O MEC não retirou o PL do Congresso Nacional, de forma alguma. Não só foi enviada a proposta ainda em dezembro, como a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, já se comprometeu junto ao ministro da Educação, Fernando Haddad, de solicitar urgência na votação", esclarece.
Segundo ele, o ministério está trabalhando na expectativa da volta dos trabalhos do Congresso para intimar a solução. "Se for votado agora ou em março, ainda sim o impacto é a partir de janeiro. Portanto é retroativo, não haverá nenhuma perda para os professores", explica. O dirigente reforça que a palavra dada pelo governo continua de pé. "A palavra empenhada pelo MEC, pelo ministro e pelo presidente continua de pé. Talvez todas as acusações tenham um viés político, de parte daqueles que tentaram manter a greve e não obtiveram sucesso", finaliza.

Em busca da identidade brasileira



Vivemos, atualmente, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo, falsos dilemas e falsos problemas. Quero dizer com isso, que temos nos meios de comunicação de massa, diversos experts em assuntos econômicos, políticos, sociais e culturais, que tentam compreender o país numa dimensão bastante empobrecida de suas reais potencialidades, de suas reais motivações diante de um mundo carcomido pelo sensacionalismo, pelo arrivismo e pela competitividade cada vez mais desenfreada. É como se o ‘quarto poder’ quisesse impingir valores/crenças sem qualquer mediação histórica, desqualificando falas divergentes e/ou grupos sociais que discordam desta mimese absurda da sociedade de consumo.
Todas as formas de violência que assistimos hoje via satélite (homens-bomba, chacinas, estelionatos, corrupção estrutural, etc. e etc.), são fenômenos históricos que não foram devidamente resolvidos em suas diversas etapas históricas. A ‘fórmula da violência’ talvez tenha mudado o tom, mas continua sendo violência! Tudo que a sociedade produz materialmente/imaterialmente ganhou uma marca de qualidade que precisa passar, rigorosamente, pelos padrões ditados pelo ‘deus-mercado’. E se este acordo for rompido ou questionado de maneira veemente, o aparato repressor do Estado age sem qualquer receio ou lamento.
As práticas autoritárias se fazem sentir nas arenas política, econômica, cultural e educacional, como se todos pertencessem à alguém ou à alguma coisa da qual desconhecem, mas não conseguem se desvencilhar. Penso que ainda somos vistos como uma sociedade exótica, uma nação (?) terceiro-mundista cercada de miséria, inventividade, alegria e, ao mesmo tempo, de ‘passionalidade lusitana’. Entender o Brasil é analisar, efetivamente, o nosso passado colonial, daí a dívida que nós historiadores/educadores temos com uma História Comparada entre Brasil e Portugal. Isto explicaria, em boa parte, os mandos e desmandos de um Estado caolho, que necessita urgentemente ressignificar suas práticas políticas e ganhar um mínimo de credibilidade dos trabalhadores deste país.

O embrutecimento na relação pedagógica


Estou convencido de que o principal diferencial na formação de um graduando são as relações pedagógicas estabelecidas durante a sua vivência acadêmica. Ao integrar o quadro do magistério do Departamento de Estudos Especializados em Educação, em caráter temporário, tive contato com turmas da licenciatura (Letras Alemão/ História), e todo o trabalho desenvolvido deu-se no intuito de valorizar as experiências sociais e, principalmente, problematizar o inventário dos tempos de escola – ensinos fundamental e médio – dos graduandos. De acordo com a fala de um estudante de História, a disciplina que ministrei – Estrutura e Funcionamento do Ensino de 1o. e 2o. graus – possibilitou a todos os seus colegas “expor em primeira pessoa” as angústias/dilemas da profissão. Na realidade, os encontros se transformaram em verdadeiros depoimentos dos tempos de escola, mediados pela legislação educacional vigente e referencial bibliográfico que tratava diretamente da função da escola pública e a valorização social do magistério.
Além dos debates acalorados, análises de casos e júris simulados, realizamos algumas dinâmicas de grupo, enfatizando a importância do carinho e do afeto. Foram momentos bastante marcantes, a ponto de alguns estudantes confessarem em grande grupo que depois dessa Disciplina, cresceu o desejo de serem professores da rede pública.
Mas, qual é a novidade deste relato aparentemente tão banal? Na verdade, algo bem simples. Há um elevado contingente de educadores espalhados pelos diversos centros da UFSC que têm desprezado as experiências de vida dos seus educandos, agindo de maneira fria e distante, menosprezando a própria razão de ser do processo ensino-aprendizagem: a(s) troca(s) pedagógica(s).
Compreender este fenômeno no âmbito do universo acadêmico parece-me essencial, já que a coisificação nos relacionamentos humanos tem ganhado uma dimensão perigosa, levando muitos graduandos à desistência de seus respectivos cursos. Aponto, pois, a necessidade de que nós, educadores, formemos homens e mulheres melhores, sempre preocupados com o restauro emocional efetivo desta nova geração de profissionais. Do contrário, estaremos reproduzindo a competitividade desenfreada, a meritocracia e a estratégia da desqualificação do outro, tão típicas da sociedade capitalista. Temos acima de tudo um compromisso ético com os nossos educandos e isto significa evitar o embate cada vez mais dilacerante entre Eros e Tânatos.

Para não esquecermos...


Ecos da Ditadura Militar em Florianópolis

04/07/2005

(após um relato de um estudante universitário: preso, desnudado e torturado psicologicamente).


Os últimos acontecimentos em Florianópolis têm nos revelado os limites da democracia representativa e, fundamentalmente, o desrespeito às liberdades individuais, o que é anticonstitucional. Evidente que me refiro ao movimento estudantil (ME) que tomou as ruas da capital catarinense, exigindo a diminuição das tarifas dos coletivos urbanos, algo que o atual prefeito havia se comprometido durante o pleito municipal. Na primeira manifestação de peso que o Sr. Dario Elias Berger enfrentou, não titubeou: acionou o aparato repressor para defender com unhas e dentes o capital/patrimônio privado.
Os jovens só são importantes, hodiernamente, quando se tornam consumidores de bugigangas eletrônicas ou quando vendem sua força de trabalho por míseros tostões. A potencialidade vital, o Eros criador da juventude, foi praticamente absorvido pelos instrumentos midiáticos, que os idiotiza de maneira implacável. Porém, quando a categoria “juventude” tenta se impor politicamente e ideologicamente é completamente desqualificada pelas mídias de massa, com termos no mínimo grotescos: baderneiros, vândalos, vagabundos, maconheiros, etc. Sim. A mesma juventude que consome e produz, não pode se rebelar. A rebeldia tem de ser silenciada para garantir o “direito de ir e vir” do cidadão pacato, honesto, resignado e respeitador da ordem. Estes termos lembram em muito o discurso dos parlamentares catarinenses em relação à população de Florianópolis, quando da visita do general-presidente João Baptista Figueiredo à capital em novembro de 1979. Os ecos da repressão militar, 20 anos depois, impõem-se de forma preocupante. O prefeito-empresário tem internalizado muito bem estas práticas arbitrárias.
O ME deve se orgulhar deste momento histórico, até porque estamos num processo de paralisia intelectual/política jamais vista neste país. Não serão as tropas de choque, as balas de borracha e os cães excitados que vão conseguir destruir aquilo que é intrínseco à juventude; a capacidade de sonhar e transformar a realidade existente! Precisamos estar atentos aos abusos do aparato repressor do Estado, pois isto pode se configurar como algo naturalizado na sociedade; em outras palavras, uma Ditadura Civil!