sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Mercado da Educação





Por Jéferson Dantas

Em pelo menos duas oportunidades no periódico A Notícia de Joiniville/SC, o presidente das escolas privadas, seção Santa Catarina, defendeu energicamente a contrariedade às cotas nas universidades públicas. Não é de se surpreender, afinal, as escolas privadas e, principalmente, o mercado dos cursos pré-vestibulares, lidam com a lógica da seletividade e da meritocracia. Nesta direção, crianças e jovens provenientes das escolas públicas e, fundamentalmente, a juventude afrodescendente tem menos chances de ingressar numa universidade gratuita.

O espírito republicano nacional só passou a se preocupar com a ‘educação para todos’ muito recentemente. Mesmo os ‘escolanovistas’ na década de 1930, que exigiam a ‘igualdade das oportunidades’ sabiam dos limites e as contradições de um país essencialmente agrário e mais preocupado com a educação das elites rurais. Como bem assinala o sociólogo francês François Dübet, as mesmas oportunidades na ‘entrada’ (ingresso na educação básica) não correspondem a uma trajetória escolar sem percalços na ‘saída’. Em outras palavras, os arbitrários culturais presentes na sociedade e no território escolar, além de selecionarem, reforçam exclusões ou sanções sumárias que podem levar à evasão. A expressão utilizada por Dubet para aqueles que conseguem chegar ao ensino superior não poderia ser mais enfática: os/as ‘sobreviventes’ da Educação Básica.


O mercado da educação precisa justificar sua racionalidade numa sociedade pautada na competição e seletividade cada vez mais intensa. O darwinismo social se perpetua na trajetória escolar; nas escolhas profissionais; num modus vivendi associado ao arrivismo e à capacidade elevada de consumo. Se tais aspectos não são suficientemente elementares para se compreender as opções e lutas de classes e os mecanismos de controle estatal que promovem a mediocridade na Educação Básica pública, então dificilmente poderemos defender ‘igualdade de condições’ num país que oferece escolaridade desigual.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Diretores no parque de diversões





Por Jéferson Dantas


Seria trágico, se não fosse obsceno. Mil e quinhentos diretores das escolas públicas estaduais de Santa Catarina foram convocados para um encontro nos dias 5 e 6 de junho no município de Penha, onde está instalado o parque de diversões do Beto Carrero World. Deve-se levar em conta que na ‘convocação’ dos diretores não havia qualquer pauta. Muito estranho, já que se tratava de formação continuada dos ‘gestores’ educacionais.

Além disso, alguns elementos obscuros se imiscuem nesta pretensa formação: o ano eleitoral municipal. Não é segredo para ninguém que os diretores indicados pelo governador (cargos de confiança) são instrumentos fundamentais em épocas de eleição, já que são cabos eleitorais fervorosos. Tendo este triste panorama como tela, podemos inferir o quanto o processo de politização e democratização nas escolas públicas estaduais catarinenses está tangido pela prática das ameaças; a discussão permanente do currículo escolar em vigor e, sobretudo, a aposta qualificada na formação contínua dos educadores/as tem ido para as calendas gregas. Aliás, pelo calendário oficial da Secretaria de Estado da Educação, os dias de formação continuada foram arbitrariamente determinados em toda a rede pública estadual; todavia, não houve qualquer investimento ou ajuda de custo para que as escolas e centros de educação infantil pudessem articular a vinda de palestrantes ou oficineiros em tais dias determinados (alguns dias de formação acontecerão no recesso escolar). Soma-se a isto o fato da formação continuada não ser contabilizada como ‘dia letivo’ numa leitura enviesada da LDBEN 9.394/1996 pelos técnicos educacionais.

Enquanto os diretores das unidades de ensino estaduais se divertiam na montanha-russa (encarada como atividade cultural), outros diretores se dividiam em palestras (esvaziadas) que, provavelmente, pouco acrescentarão na mudança das práticas pedagógicas e na forma de se gerir a ‘coisa pública’. Não há como escamotear a intencionalidade de propaganda política neste evento. Diretores ganharam agasalhos e kits de apoio pedagógico. Seria uma estratégia de ‘massagear’ o ego destes profissionais? Tal panorama nos convida para uma reflexão aguda sobre o que a sociedade catarinense precisa reivindicar por uma educação, efetivamente, de qualidade, compromisso social e eticidade.



quinta-feira, 22 de maio de 2008

Maniqueísmos de botequim


Por Jéferson Dantas


Um senador associado a uma sigla partidária que, outrora, foi conivente com a ditadura militar no Brasil (1964-1985), tentou de forma capciosa ou ardilosa convencer a opinião pública de que a ministra-chefe da Casa Civil ‘mentiu’ em relação ao dossiê produzido sobre os gastos do governo FHC. Para tanto, utilizou-se de uma artimanha mesquinha ao indagar à ministra se ela teria mentido ou omitido informações para os inquisidores-torturadores sobre os seus ex-companheiros guerrilheiros durante o período do regime militar. Em outras palavras, tentou construir a tese de que se a ministra ‘mentiu’ no passado (ainda que sob tortura), voltaria a mentir no presente para proteger seus aliados políticos.

Tais estratégias de convencimento são perigosas e devem ser problematizadas em seus devidos contextos históricos. No que tange, por exemplo, às ações afirmativas e às cotas públicas para os/as afrodescendentes, os/as desfavoráveis utilizam um único e taxativo argumento: não há diferenças raciais! Pois bem, até quando o debate em questão permanecerá preso aos fatores genotípicos? Se não há diferenças essenciais entre as ‘raças’, porque a população afrodescendente percebe os piores salários, apresenta níveis inferiores de escolaridade e reside nas regiões de grave risco social? Será que é tudo por acaso? Ira divina? Incompetência?
Enquanto a complacência jurídica burguesa e a ignorância
histórica dos pseudo-intelectuais continuarem favorecendo uma perspectiva miserável do debate, o discurso e a ação meritocrática serão as únicas a vingarem!

Se não podemos concordar com a desavergonhada atitude antiética de um senador da República, muito menos podemos ‘baratear’ questões de fundo histórico no Brasil. Há nesse intrincado tabuleiro de xadrez, problemáticas que envolvem questões étnico-raciais, de gênero e, sobretudo, sociais. Logo, são insuficientes e reducionistas visões pré-concebidas que não levam em conta o mínimo esforço propositivo associado à pesquisa e à dialética. Caso contrário alimentar-se-á o maniqueísmo vulgar, bem próprio da conversa de botequim...







segunda-feira, 5 de maio de 2008

Lazer, Trabalho e Contradição




Por Jéferson Dantas



Deparei-me com uma entrevista realizada por um semanário nacional ao consultor estadunidense da Organização das Nações Unidas (ONU), Christopher Edginton. O consultor em questão é secretário-geral da World Leisure Organization, entidade não-governamental que presta assessoria à ONU em questões relacionadas ao lazer e ao desenvolvimento pessoal. Até aí, nada demais. O que espanta são as respostas insuficientes e reducionistas do consultor no que se refere ao mundo do trabalho, tangido pela lógica do capital.

Para Edginton, que esteve recentemente no Brasil participando do seminário O Lazer em Debate, uma das definições possíveis de ‘lazer’ seria o “tempo livre, no qual não se tem que trabalhar para garantir a sobrevivência”; ou ainda “um estado da mente”, que pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Ainda que entendamos que o lazer e o bem-estar social deveriam ser as metas permanentes dos governos ditos democráticos, não há como dissociar tais elementos da lógica que estabelece e distribui bens econômicos e simbólicos de forma desigual. Em outras palavras, o ‘tempo livre’ ou o ‘ócio criativo’ defendido pelo sociólogo italiano Domenico De Masi, só poderiam funcionar numa sociedade efetivamente equânime, quando então toda racionalidade privatista teria se extinguido. Pensar o ‘lazer’ amparado numa suposição praticamente utópica revela o quanto as contradições do capitalismo estão sendo deixadas de lado, já que tal sistema opera decisivamente na exploração da mão-de-obra qualificada e desqualificada, deixando marcas indeléveis no corpo e na psique humanas.

Para aqueles que entendem ser o ‘trabalho’ uma categoria em declínio e que deveríamos estar antenados num mundo do ‘pós-trabalho’, sugeriria, então, que deixassem de trabalhar e vivessem em função do ‘ócio criador’. Ora, as mudanças no mundo do trabalho contemporâneo apenas se metamorfosearam em novas estratégias de exploração, conduzidas principalmente pelas inovações tecnológicas. Num mundo cingido pela opulência, de um lado, e pela miséria, de outro, deveríamos sim discutir as reparações históricas em relação aos povos massacrados e espoliados economicamente; estes últimos, provavelmente, não sabem o que é lazer.




domingo, 20 de abril de 2008

O ENEM E A DISTINÇÃO




Por Jéferson Dantas


As escolas públicas e privadas melhores classificadas no Exame nacional do Ensino Médio (ENEM) possuem vários aspectos em comum: saídas de campo a museus e teatros; excelente infra-estrutura (laboratórios, quadras de esporte, piscinas); período integral de estudos; reforço na formação humanística, com aulas de Sociologia e Filosofia; educadores com mestrado e/ou doutorado; acompanhamento psico-pedagógico para os/as estudantes; remuneração adequada para os/as educadores e boas condições de trabalho. Aparentemente, não há nenhum segredo aqui, ou seja, quando educadores/as são valorizados/as profissionalmente e quando a infra-estrutura possibilita aos sujeitos aprendentes uma formação mais plena, os resultados, certamente, aparecem.

Todavia, como foi o caso de uma escola privada de São Paulo, a posição no “ranking do ENEM” não foi satisfatória porque parte dos/as estudantes que realizaram as provas pertenciam a um programa de auxílio a jovens carentes (bolsistas da escola). Em outras palavras, a escola privada em questão se eximiu de sua formação e culpabilizou as “marcas de origem” destes/as jovens para o mau desempenho no Exame. E o que dizer, então, das escolas públicas, notadamente, que não possuem banheiros, recursos didáticos complementares e diversificados; apoio pedagógico e até mesmo educadores que preencham todas as vagas nas mais diversas áreas do conhecimento? O que dizer da carga horária destes profissionais em educação que precisam se deslocar de uma escola para outra e são ‘penalizados’ quando precisam se ausentar por total esgotamento físico e psíquico? Até quando um país do porte do Brasil, que investe pouco mais do que 3% do PIB em Educação continuará tratando esta área estratégica com descaso ou políticas públicas paliativas e descontínuas?

Ainda que a própria Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN 9394/1996) no Título IX das Disposições Transitórias, parágrafo 5º, indique que “serão conjugados todos os esforços objetivando a progressão das redes escolares públicas urbanas de ensino fundamental para o regime de escolas de tempo integral”, o que temos em grande medida, são escolas sucateadas e educadores exaustos. Não seria mais prudente que os/as educadores/as pudessem se dedicar exclusivamente a uma única escola, com tempo para planejar e ensinar? Da maneira que se constrói a “distinção” num país eivado de contradições sociais, há uma permanência nefasta em se culpar estudantes pelo “insucesso escolar”, como se a individualização do “insucesso” estivesse descolada de outras problemáticas estruturais, tais como trabalho e renda, moradia e possibilidades de adquirir bens culturais que vão além da escola. Logo, o ENEM continua sendo um instrumento de distinção, além de servir de marketing público para as escolas que conseguem atingir os critérios requeridos.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Todos os desejos, por Jéferson Dantas






O que vaza em mim

desejo-teu

que foi colapso








tua boca

o mistério

não apaga



e tuas pernas,

coxas

nádegas




cheiro que embriaga


e era

a língua

exposta

na antesala








de vômitos

e restos

espelhados



e tuas mãos

hábeis


onde

o líquido leitoso

por fim

aquietara




e eu não

via noite

mais clara





e na varanda

só a fumaça

do cigarro

mais barato


e a quintessência

foi a cena

da tua nudez

muda


e eu já não ouvia




e eram cheiros

nossos

que recendiam


foi tua

última

aparição


minha boca

seca



desejosa de

teus

úmidos

fluidos



e num flux

éramos

engano


miséria

e retidão


eu te escolhera

pela mansidão

do olhar




e também

sofria


e a miséria

era só

minha.
















domingo, 23 de março de 2008

O TRIUNFO DO PRAGMATISMO


Por Jéferson Dantas



Tem sido bastante comum e até mesmo reincidente a aparição de jornalistas e/ou articulistas na mídia de massa que promovem o “discurso da desqualificação”. Tal estratégia da desqualificação nos termos utilizados pela filósofa Marilena Chauí tem um firme propósito: enterrar os dissensos e as falas coletivas discordantes. Portanto, o fatalismo contido nestes discursos impregnados pela ‘lógica do capital’ acenam para a desmobilização social e o triunfo inconteste do pragmatismo.

O sociólogo Carlos Eduardo Sell no caderno AN Idéias de 23 de março de 2008 confronta a validade epistemológica do pensamento marxiano/marxista de uma forma completamente anti-dialética (para não dizer reducionista). Afirma o sociólogo: “Do ponto de vista de sua estruturação lógica, o legado de Marx foi superado pela direção tomada pelo pensamento filosófico e científico contemporâneo. Sob o aspecto filosófico porque o pensamento contemporâneo sofreu, ao longo do século 20, o que se chamou de linguistic turn ou giro lingüístico [...]”. Sell simplesmente enterra a dialética ao compor sua argumentação fundamentada numa suposta ruptura epistemológica que não daria mais vez à compreensão histórica marxista. E, complementa o seu raciocínio, enfatizando que o pensamento marxista – por ser determinista e, portanto, positivista – não teria instrumentos teóricos e metodológicos para confrontar as visões “pós-modernas” da ciência. O sociólogo quer nos convencer de que o materialismo histórico está de fato sepultado, sem discutir o caráter emancipatório da condição humana presente neste construto teórico.

Sell confunde socialismo com ‘socialismo real’. Evidente que Marx teve limites de alcance teórico, caso contrário, contentar-se-ia com exercícios de futurologia. Como bem assinala o filósofo húngaro István Mészáros no seu estudo A Teoria da Alienação em Marx, os detratores marxianos procuram julgá-lo por aquilo que ele não foi ou que não conseguiu teorizar, afinal, é muito mais cômodo expressar juízos de valor do que discutir suas proposições. Entendo que aí residem minhas discordâncias de Sell: estaria o sociólogo fazendo uma comparação grosseira do ‘socialismo real’ do ‘socialismo científico’? Baseado em que fundamentação teórica é possível afirmar que o socialismo científico apresenta um viés puramente economicista ou mecanicista? Não se deve levar em consideração as apropriações realizadas em nome da obra marxiana ao responder a estes aspectos? De que ‘marxismos’ ou ‘pós-marxismos’ estamos falando?

Carlos Eduardo Sell refuta o socialismo porque compreende tacitamente que do ponto de vista político e histórico, o mesmo não representou uma alternativa aos regimes liberais. Pelo contrário. O socialismo suprimiu a democracia pelas vias stalinista, maoísta ou castrista e demonstrou, empiricamente, sua ineficácia no que concerne à produtividade econômica e eqüidade social. A ‘redenção’ teria vindo no final da década de 1980 com a queda do muro de Berlim e os regimes socialistas no leste europeu, assim como o fim da União Soviética em 1991.

A “profunda revisão dos paradigmas existentes”, da qual o sociólogo nos convida a enveredar, não pode se dissociar – como num passe de mágica ou a partir de uma análise transcendente – do inventário teórico de Marx e seus estudiosos. Concordo que precisamos reavaliar as apropriações e os limites do pensamento marxista, mas não posso concordar com a ausência de alternativas à lógica do capital, pois aí sim, estaremos reproduzindo valores voltados à competitividade desenfreada, exploração incessante da força de trabalho e destruição abusiva dos meios naturais.

Sepultar Karl Marx (1818-1883) ou silenciá-lo teoricamente é estar de acordo com visões parciais de mundo; é estar comprometido politicamente e ideologicamente com os pragmáticos que, não por acaso, abrigam-se no legalismo jurídico formal e em certa sustentabilidade calcada no ‘capitalismo solidário’. Para Mészáros todo reformismo de cunho liberal não passa exatamente disso, ou seja, de medidas paliativas que não levam em consideração mudanças efetivamente estruturais no corpo social. Entre a possibilidade de um mundo mais justo e igualitário (que não deve ser confundido com utopia) e um mundo do fatalismo, os pragmáticos optaram por este último, tendo em vista que a internalização permanente da alienação coletiva é incapaz de elaborar um projeto histórico “para além do capital”.

sábado, 22 de março de 2008

Uma noite com Gardel






Era
Um
Tango argentino...




Um
Ar
De tragédia...







Ele


removeu os
Cacos
Da
Queda...




Ela
Impulsionou
As pernas
E
Saiu,
Silenciosamente...



terça-feira, 4 de março de 2008

ANTONIETA DE BARROS PEDE SOCORRO!




Por Jéferson Dantas

No ano passado, a escola de ensino fundamental, Antonieta de Barros, localizada na área geográfica central de Florianópolis, apresentou um problema estrutural em seu prédio, o que colocava em risco as condições de trabalho de educadores e educandos. A situação foi “resolvida” pela Secretaria de Educação (SED) com o fechamento da escola e a realocação de educadores e educandos para outras unidades de ensino do centro da cidade. Todavia, as argumentações ambíguas e/ou escapistas dos representantes da gerência regional de educação, SED e Secretaria do Desenvolvimento Regional da Grande Florianópolis, não apontaram a contento a possibilidade de reabertura do prédio para o respectivo ano letivo; e o que é mais grave: a escola Antonieta de Barros corre sério risco de se transformar num estacionamento, já que seu portão principal já foi derrubado sem qualquer discussão com a comunidade escolar.


As crianças e jovens em situação de risco social representam o principal público atendido pela escola Antonieta de Barros. Nesta direção, a memória da educadora e primeira parlamentar negra catarinense está sendo profundamente violentada por uma política educacional arbitrária e insensível a uma inclusão educativa solidária e equânime. O fato de a escola pertencer à Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (CE/FMMC) tem ocasionado litígios em relação ao aparato estatal educacional, tendo em vista as diferentes compreensões históricas e políticas sobre as implicações do currículo, formações continuadas, avaliação escolar e gestão democrática.


Durante muitos anos a escola Antonieta de Barros foi campo de estágio da então Faculdade de Educação (atualmente, Museu da Educação catarinense), funcionando, praticamente, como uma ‘escola de aplicação’. Muitos educadores/as foram formados em Florianópolis tendo este espaço educativo como locus de práticas de ensino diferenciadas e estruturadas conforme as novas pesquisas educacionais em âmbito regional e nacional. Antonieta de Barros (1901-1952) se orgulharia, profundamente, em saber que crianças e jovens (em sua maioria, negras como ela) têm acesso ao ensino regular, inseridos num projeto coletivo que tem priorizado a cultura afrodescendente e a visibilidade dos/as negros/as na cidade de Florianópolis. Logo, os movimentos sociais organizados nas comunidades dos morros de Florianópolis, associações civis e grupos de pesquisa acadêmica comprometidos com a memória dessa educadora, precisam se unir para evitar que mais uma escola pública não feche as portas por descaso governamental.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

MOVIMENTOS SOCIAIS RURAIS E 20 ANOS DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL





Por Jéferson Dantas

Os movimentos sociais que se fortaleceram no Brasil no início da década de 1980 (como foi o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra – MST), tiveram importância crucial nas transformações de cunho jurídico, que culminaram na promulgação da Carta Constitucional brasileira em 1988. Nesta direção, muitos documentários foram produzidos no Brasil e em Santa Catarina sobre o tema.

Os filmes aqui selecionados, brevemente analisados, são os seguintes: a) O Canto da Terra; b) Terra para Rose; c) Terra; d) Reforma Agrária, Justiça Social; e) Terra e vida Catarina – a luta dos trabalhadores rurais sem-terra; f) Questão Agrária no Paraná. Os dois primeiros documentários foram produzidos por cineastas de ofício; Terra e Reforma Agrária, Justiça Social foram produzidos por instituições ligadas ao INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e à ACARESC (Associação de Crédito e Apoio Rural ao Estado de Santa Catarina). Os documentários restantes foram produzidos pelos próprios integrantes do MST em meados da década de 1980, portanto, em plena efervescência social e política no Brasil.

Os tempos de ‘abertura’ e anistia política irrestrita no final da ditadura militar (1964-1985), não surtiram os efeitos desejados na área rural, bastante prejudicada pelos desmandos da política agrária brasileira, além de conflitos generalizados envolvendo latifundiários, pequenos agricultores e milícias particulares. Com o ‘golpe’ do Colégio Eleitoral e a derrota das diretas-já, assume a presidência da República o ex-arenista José Sarney (1985-1990) devido ao falecimento de Tancredo de Almeida Neves. Durante o governo Sarney foram criados ministérios extraordinários para solucionar ou amainar os problemas no campo; todavia, a concentração de terras nas mãos de grandes grupos multinacionais (inclusive do setor de automotores) e de políticos influentes (como era o caso de Severo Gomes), neutralizou qualquer ação governamental mais enérgica. José Gomes da Silva, agrônomo, fundador da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), secretário da Agricultura no estado de São Paulo (1984-1986) e presidente do INCRA em 1985, chegou a dizer no período que a problemática do campo sofria de “inércia governamental”.

Em tal contexto, o MST se organiza na região sul do Brasil, a partir de 1984, no estado do Paraná. Em contrapartida, o aparelho estatal procura legitimar um discurso de apoio ao pequeno agricultor e evitar os conflitos generalizados na área rural. No documentário Terra, produzido pela ACARESC, admite-se que há no estado de Santa Catarina muitos latifúndios, contradizendo o documentário Reforma Agrária, Justiça Social, que ressalta a pequena área geográfica de Santa Catarina como elemento dificultador para o processo da reforma agrária, caracterizando-a como “formada por minifúndios”. Além disso, Reforma Agrária, Justiça Social vai buscar na ‘Guerra do Contestado’ (1912-1916) imagens de caboclos mortos e a reintegração das terras aos seus descendentes, dando a impressão de que o Estado estaria reparando a dor promovida pela chacina governamental que levou a vida de mais de dez mil catarinenses.

Já os documentários Terra e vida Catarina... e Questão Agrária no Paraná, são bastante semelhantes no que se refere ao caráter didático, i.e., tentam explicar as principais dificuldades apresentadas pelo MST até chegar, mais detalhadamente, na problemática do campo. Há ainda uma grande preocupação em identificar as funções de cada líder nos acampamentos, como forma de legitimar a intencionalidade de suas reivindicações a partir das ‘comissões de trabalho’. As palavras de ordem são enfáticas: “Organização e Reforma Agrária!” Os documentários supracitados revelam o desejo do MST em promover tal debate em nível nacional, contando com o apoio das universidades públicas e da sociedade civil organizada.

Nos discursos institucionais e do MST, apresentados neste período histórico (década de 1980), os antagonismos se acirram. O envolvimento de parlamentares e de grandes empresas internacionais no grande negócio fundiário criavam entraves na concepção de projetos mais sólidos para manter as famílias no campo. Além disso, denúncias explícitas contidas no documentário Terra e vida catarina... demonstram o quanto os banqueiros são intransigentes; os juros escorchantes cobrados pelos bancos não condiziam com os anos de safras ruins, dificultando a existência material de centenas de famílias e empurrando-as para os centros urbanos. Não por acaso, atualmente Santa Catarina apresenta um dos maiores índices de êxodo rural do Brasil (em torno de 90%).

Os dois últimos documentários aqui analisados (Terra para Rose e o Canto da Terra) foram realizados por cineastas de ofício. Os planos não se mantém tão estáticos e há diversos recursos interpretativos que fogem do ‘discurso direto’. O documentário Terra para Rose foi produzido em 1987 e dirigido por Tetê Moraes; trata-se da luta de trabalhadores rurais no Rio Grande do Sul para que as terras da Fazenda Anoni (improdutivas) sejam adquiridas pelo INCRA e divididas entre os agricultores. A protagonista do documentário, Rose, violentamente assassinada, torna-se um ícone pela luta no campo; a interpretação que o cineasta realiza diante do movimento social evidenciado, ultrapassa os discursos acadêmicos ou institucionais; a linguagem cinematográfica, plástica, surpreende e recria diferentes tonalidades discursivas; sensíveis afetos ao trabalhador simples e aversões pontuais aos latifundiários. Nesta direção, como afirma a pesquisadora Mônica Almeida Kornis, a “imagem não ilustra nem reproduz a realidade, ela a reconstrói a partir de uma linguagem própria que é produzida num dado contexto histórico”.

O documentário O canto da Terra, dirigido por Paulo Rufino em 1986, preocupa-se mais com a quantificação dos fatos históricos, como se os mesmos por si só fossem determinantes no processo de interpretação das desigualdades sociais. Paulo Rufino procura comparar as diferentes visões das instituições sociais em torno da reforma agrária, entrevistando políticos ligados à União Democrática Rural (UDR); líderes eclesiásticos ligados à Comissão Pastoral da Terra (CPT) e também os próprios latifundiários. Os pequenos agricultores são analisados como vítimas de um sistema econômico opressor, voltado aos grandes interesses do capital.

Tal quadro histórico foi determinante para as discussões na Assembléia Nacional Constituinte, culminando na promulgação da Carta Constitucional de 1988. O então deputado federal, Luiz Inácio Lula da Silva, comentou naquele momento que a Constituição seria “sua bíblia”. Passados 20 anos, a Constituição Federal possui muitos remendos e muitas projeções jurídicas que não foram devidamente implementadas. Os movimentos sociais urbanos na década de 1990 foram sufocados e a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) aprovada em dezembro de 1996, em nada lembra as discussões iniciadas naquele ano de 1988 com ampla participação de educadores de todo o país. O inchaço urbano e a engenharia dos serviços básicos prestados à população das grandes e médias cidades necessita ser reavaliada. No que tange à área rural o agribusiness tem afetado a vida de pequenos agricultores, além de não possibilitar a expectativa de trabalho e permanência dos jovens no campo. Estes fatores sociais conjugados (Educação, área rural, empregabilidade/trabalho e sustentabilidade urbana) são desafios políticos que extrapolam meras intencionalidades jurídicas, exigindo a reativação organizada dos movimentos sociais.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

MALDITOS ESCLARECIDOS/ por Jéferson Dantas

A miséria da
poesia.


'Pó'. Poeira.
E verborragia.


É nisso que virou
a semântica
cega dos versos.

Quero lâmina
e venenos!

Rimas pobres
e ingênuas
servem bem aos
egos insossos...

ou às gavetas...

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Educadores como intelectuais




Por Jéferson Dantas

Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo italiano, reiterava de forma pertinente que todo ser humano é ‘filósofo’ em alguma medida, dada a faculdade de todos pensarem a respeito de um determinado objeto. Transferindo tal compreensão para o campo educacional, parece-nos razoável que os/as professores/as da Educação Básica permitam-se cada vez mais ao exercício do pensamento, tendo em vista as suas ações estratégicas na formação de crianças e jovens. Significa, sobretudo, assumir o compromisso social de educar além das fronteiras instrumentais do conhecimento especializado; romper com a estrutura rígida de um currículo que mais ‘aprisiona’ do que ‘liberta’.
Educadores/as que agregam à sua formação inicial o engajamento social conseguem atingir seus objetivos pedagógicos de forma mais plena; conduzem sua prática no fortalecimento da estima de educandos, politizando o conhecimento científico, sem ficarem trancafiados/as nas redomas da instrução vazia e pragmática. Os instrumentos avaliativos são entendidos como processos não-estanques, onde o que importa é a internalização do que foi mobilizado conceitualmente.
Logo, o/a educador/a é o/a agente particular essencial na mediação de um mundo ceifado pela intolerância, desigualdade e exclusão. A força coletiva dos/as educadores/as é extremamente decisiva na reformulação de currículos rígidos, concorrendo para uma estratégia de implosão lúcida de mecanismos avaliativos arbitrários na educação formal. A educação básica pública, nos moldes em que se encontra, reduz sobremaneira a capacidade de intervenção de educadores e educandos, já que por se tratar de uma instituição eivada de hierarquias tecnoburocráticas (cargos comissionados), acaba por esvaziar sua intencionalidade precípua. Educadores politizados, atuando como ‘intelectuais orgânicos’ nos termos gramscianos, dificilmente sucumbem aos desmandos de políticas públicas que permanecem reduzindo o/a educador/a a um/a tarefeiro/a sem brio, compromisso e voz!

sábado, 26 de janeiro de 2008

2o. FEMIC

Eu e a Filarmônica Comercial estamos participando da seletiva do Segundo Festival da Música e Integração Catarinense. Estaremos disponibilizando a canção concorrente "Tranqüila Gaivota" neste blog em breve. O meu afetuoso abraço aos companheiros de caminhada: Ju, Jana, Rapha, Dani, William, Suelen, Mineli, Isaias, Ginga, Pablo e Adriana.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

A compreensão histórica das cotas



Por Jéferson Dantas


Para os/as que defendem uma competitividade em regime de ‘igualdade’ nos processos seletivos de ingresso ao ensino superior, as políticas de cotas devem ser, energicamente, combatidas. Tal lógica, todavia, encontra argumentação na idéia de que as cotas ‘beneficiam’ os afrodescendentes, quando deveria sim, vincular a qualidade da educação básica a todos os brasileiros, tornando todos/as aptos/as ao ingresso no ensino superior. Tal desejo foi fomentado pelos signatários do Manifesto escolanovista de 1932, que defendiam a ‘hierarquia das capacidades individuais’ num país essencialmente agrário e que não tinha qualquer projeto de inclusão social aos afrodescendentes. Cabe lembrar que a escolarização básica garantida pelo Estado brasileiro tem, praticamente, apenas setenta anos de existência formal (com mais tropeços do que acertos).


Se, ao mesmo tempo, compreendemos que as ações afirmativas ou as políticas de cotas representam uma atenuante (um ‘meio’ e não um ‘fim’ em si mesmo, conforme expressão do educador Petrônio Domingues), devemos também atentar ao processo de exclusão, humilhação e expropriação das comunidades afrodescendentes no Brasil ao longo de séculos. As condições gerais de trabalho e escolaridade destes grupos sociais continuam sendo muito inferiores aos dos brancos, denotando um racismo pela via ‘fenotípica’. Somente no estado de São Paulo, a expectativa de vida dos negros em pleno século XXI não chega aos 55 anos, tendo em vista suas precárias condições de existência material. Deste modo, ainda que juízes ou advogados compreendam, precariamente, que as cotas étnicas representam uma excrescência jurídica (já que não é possível determinar, geneticamente, quem é branco e quem é negro), o que está em jogo, fundamentalmente, é um processo histórico de racismo velado e cinicamente desconsiderado por determinada parcela da opinião pública.



Nesta direção, numa sociedade pautada no consumo e na competitividade, fica evidente que os ganhos sociais devem pertencer a um número cada vez mais reduzido de indivíduos. Estão fora de questão as discussões de fundo histórico, porque o que está em jogo são os interesses privados; os interesses coletivos se tornam uma ‘abstração’, e a pobreza e/ou a miséria são tratadas como algo alienado de todas as relações sociais existentes.



Concordo e defendo que a educação básica pública deve ser radicalmente qualificada, entretanto, as políticas de cotas também favorecem um debate profundo mal resolvido, repleto de feridas não suturadas. É quando se põe em tela a situação dos/s negros/as neste país que podemos vislumbrar as ações afirmativas não como um benefício de ‘mão beijada’, mas como uma das várias ações de reconhecimento sócio-histórico-cultural de todas estas comunidades envolvidas. Como nos ensina o filósofo húngaro István Mészáros, o princípio da igualdade na sociedade burguesa é apenas ‘legalista-formal’, destituído de caráter histórico e de mediações dialógicas.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Livro de Jéferson Dantas no primeiro semestre




Car@s amig@s e leitor@s do blog, no primeiro semestre de 2008 estarei lançando um pequeno livro artesanal (prosa poética) com o título Suspenso e alheio [ou as minhas reticências sinceras]. Ainda não há previsão de data para o lançamento. Provavelmente, no início do outono (aí teremos um bom pretexto para bebericar um vinho tinto seco, não é mesmo?)
Existe ainda a possibilidade de estarmos divulgando algumas canções do projeto musical A cada manhã, com os arranjadores e compositores da banda.



Então, até mais!!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

2008 - dois anos do Blog!!!!

Para não cairmos na lógica piegas de que bons ventos o novo ano traz, façamos o seguinte: acreditar que 2008 nos colocará novos desafios; que teremos muito o que aprender; que teremos mais paciência e serenidade sem perder de vista os embates e/ou conflitos necessários. Os ritos de passagem nos ensinam, pelo menos, o quanto precisamos eliminar os fardos que não nos pertencem e vislumbrar horizontes desconhecidos.
Aos meus/minhas leitores/as um 2008 repleto de incertezas, aventuras e desvarios!!!

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cinema


arte,
esta inominável.

território de luz, sombra, encanto e
poesia.

Mergulho!

Fábula e gestos exagerados.
Edições, cortes de imagens, suspensas falas, ritos no acaso.
[Pérolas escondidas no copião].

Sínteses de fotogramas que olhos humanos não apreendem.
Ensaios.

Ação!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Por uma educação estética



Por Jéferson Dantas

Num mundo cada dia mais embrutecido, onde as relações humanas estão coisificadas, a educação estética pode servir de alento no sentido de dar visibilidade às diversidades sociais. O ensino formal brasileiro, via de regra, tem se mostrado ineficiente na formação de estudantes que apresentam diferentes formas de aprender e de se expressar. Um currículo engessado, essencialmente disciplinar, eurocêntrico, onde os educadores exercem uma prática pedagógica notadamente focada em sua área de conhecimento, não tem possibilitado um diálogo mais horizontal e, portanto, menos excludente, entre educadores e educandos.



Para a educadora Graciela Ormezzano, a educação estética procura priorizar a imaginação, o lúdico e “o amplo espectro da estética do cotidiano que considera o design, a arquitetura, o artesanato, a música popular, a comunicação audiovisual e a arte da rua, assim como todos os estilos de sociabilidade”. Nesta direção, a estreiteza curricular do ensino formal, esmagada por uma avaliação certificativa e que atende, sobretudo, parâmetros burocráticos, as subjetividades são anuladas e descartadas do universo escolar. Tal análise torna-se ainda mais dramática no ensino formal noturno, onde é comum salas de aula esvaziadas, professores desmotivados e estudantes desmobilizados na relação com os diferentes saberes. A situação em tela, todavia, é muito mais complexa, pois exige formação continuada de qualidade aos educadores e a ressignificação do espaço-tempo no ambiente institucional de ensino, ainda bastante contaminado pela “lógica da fábrica” (customização das tarefas escolares, temáticas estanques e controle da ‘produção’).



A educação estética está longe de ser a panacéia para todos os males educacionais brasileiros. Entretanto, a arte pode minimizar as variadas carências afetivas e cognitivas de crianças e jovens em situação de risco social; ressocializar adolescentes marginalizados por um modelo econômico pautado na competitividade e no consumo exacerbado; recuperar a auto-estima de jovens mulheres violentadas; enfim, fazer da educação estética uma possibilidade de ressignificação da vida. Afinal, ninguém nasce bandido ou santo, como bem assinalam os educadores Pablo Gentili e Chico Alencar. Assim, continua sendo o objetivo maior da educação formal pública brasileira e de todo ato educativo ‘humanizar os homens’, como bem nos alertava a filósofa Hannah Arendt e o educador popular Paulo Freire.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Educação catarinense em alerta!




Por Jéferson Dantas


Os mais de vinte mil afastamentos médicos ocorridos no magistério catarinense, só em 2005, revelam os danos psíquicos provocados a estes/as profissionais devido às más condições de trabalho, salários indignos e carga de trabalho extenuante. Dentre as causas mais freqüentes do adoecimento docente, encontram-se: depressão, síndrome do pânico, síndrome de burnout, doenças cardiovasculares, estresse, etc.. Todavia, como se não bastasse a evidência das doenças laborais sofridas pelos/as educadores, - o que atinge, sobremaneira, sua estima e a própria identidade profissional – a Secretaria de Estado da Educação e outras instâncias burocráticas do aparato educacional catarinense, têm colocado em xeque a veracidade de tais afastamentos por atestados médicos. Nas entrelinhas, gerentes regionais de educação, secretários, diretores, especialistas (a lista hierárquica é imensa) duvidam tacitamente dos médicos que estão diagnosticando os/as educadores/as; ou seja, os/as trabalhadores/as em educação estariam fazendo ‘corpo mole’ para não irem ao trabalho.



Ao não reconhecer as mazelas estruturais que atingem a educação pública catarinense, a Secretaria de Estado da Educação se investe de uma postura prepotente, autoritária e antidemocrática. Apenas para dar um exemplo, a Comissão de Educação das Escolas do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (CE/FMMC) que atendem, principalmente, crianças e jovens em situação de risco social em Florianópolis, tem sido atacada e ameaçada, sistematicamente, pela Secretaria supracitada, numa demonstração de inabilidade no trato da coisa pública. Os diretores eleitos democraticamente por sua comunidades escolar e local convivem com o fantasma da exoneração e do assédio moral, algo inadmissível em se tratando de um bem comum como é o caso da educação.



A permanência de tal comportamento do poder público no que tange à educação catarinense contribui muito para o desgaste dos/as que estão empoderados/as na máquina tecnoburocrática. Os diálogos inexistem. As decisões são verticalizadas. A CE/FMMC tem sido hostilizada nas reuniões administrativas promovidas pela Secretaria de Estado da Educação. Num Estado que se diz democrático, os dissensos e as opiniões divergentes fazem parte de tal embate. São, justamente, nos conflitos, que se estabelecem soluções alternativas e possibilidades que beneficiem a maioria. Entretanto, se os mecanismos de controle estatal servem tão-somente para reprimir, calar as vozes discordantes, a sociedade civil precisa estar devidamente organizada e pronta para os desafios que se apresentam no dia-a-dia.