sexta-feira, 10 de novembro de 2006

A África revisitada




Jéferson Dantas



Segundo o geógrafo Rafael Sanzio Araújo dos Santos ainda não se fez o “suficiente, o necessário, o durável pela África. O mundo, a Europa, a América, tem grave responsabilidade nesse processo secular de falência”. Num continente onde 40 de seus 52 países estão entre os mais pobres do mundo, não há mais como vendar os olhos para a destruição permanente de um território historicamente explorado pelas grandes potências capitalistas. Uma exploração construída pela violência física e simbólica em relação às grandes civilizações africanas, escravismo mercantil e a ideologia xenófoba proveniente de várias partes da Europa.

O Brasil, sendo a segunda maior nação de ascendência africana do mundo, deve muito a esse continente. Afinal, foram os braços dos escravos africanos que construíram esse país nos últimos quatro séculos. E, assim como na África, os regimes colonial, imperial e republicano no Brasil não deram conta da inclusão da grande maioria dos afrodescendentes no processo produtivo nacional. Os afrodescendentes ainda não conseguiram estabelecer um processo de “empoderamento” que lhes dê a visibilidade merecida. Entre preconceitos e estereótipos que acompanham a triste e sinuosa história desses homens e mulheres separadas pelo Atlântico, há a permanência da ideologia eurocêntrica, mais apaziguadora do que comprometida com a situação de miserabilidade dos povos africanos.


Assim, para que a nação brasileira possa construir um projeto de inclusão, torna-se imprescindível reavaliar os descaminhos do processo educacional público brasileiro, pedagogicamente/historicamente autoritário e extremamente excludente. Além disso, é fundamental repensar a realidade cruel das comunidades periféricas de morros e encostas de várias cidades brasileiras, que apresentam como perfil étnico, em grande parte, homens e mulheres de descendência africana. O continente africano, assim como o Brasil, foi secularmente dilapidado. Na África, tragicamente, impera em grande medida regimes políticos frágeis e suscetíveis à corrupção endêmica. É esta a herança nefasta que queremos e projetamos para as gerações futuras brasileiras? Uma sociedade onde a impunidade, o racismo e o arrivismo são as faces da mesma moeda?




domingo, 5 de novembro de 2006

O custo das oligarquias




Jéferson Dantas



Nas primeiras décadas do século XVI a coroa portuguesa dividiu a sua nova colônia na América em quinze grandes trechos de terra que contornavam o litoral brasileiro, sistema que ficou conhecido como capitanias hereditárias. As capitanias hereditárias do ponto de vista social, econômico e político foi um total desastre. Além de ter concentrado enormes extensões de terra nas mãos de pouquíssimos donatários, representou a gênese perversa do latifúndio improdutivo numa terra em que, originariamente, civilizações autóctones extraíam sua subsistência da própria natureza. A lógica do mercantilismo europeu ou o pré-capitalismo teve no Brasil sua face perversa com a escravidão que durou mais de três séculos, situação que nos envergonha até os dias de hoje.

Todavia, os nichos sócio-culturais dos oligarcas continuam mais vivos do que nunca. Embora arrefecidos nas últimas eleições para cargos executivos no Brasil, as oligarquias regionais durante muitos séculos governaram e governam boa parte do Brasil. A truculência grotesca, favoritismo, clientelismo, paternalismo ou a ameaça sistemática aos seus desafetos, são as características mais evidentes deste gênero político nefasto e dasalentador. Se outrora as oligarquias rurais (coronelismo) chefiavam seus redutos eleitorais via voto do cabresto e outras artimanhas indecorosas, as oligarquias urbanas souberam muito bem se aproveitar dos anos de chumbo no Brasil através da conveniência com a tortura, repressão sistemática e delação em larga escala. Tanto as oligarquias rurais como as urbanas hoje se confundem. Ocupam o Congresso Nacional e mantém a mesma postura arrogante de seus descendentes seculares. Governam de costas para as populações empobrecidas. Oferecem migalhas em troca de seu empoderamento ad vitam aeternam.

Logo, o custo social das oligarquias é bem evidente. Entre outros aspectos, sepultam a liberdade de expressão, condenam a vivacidade das vozes dissonantes à humilhação pública e ao desterro. Submete a população empobrecida a uma condição cada vez mais paupérrima e ignorante. Anulam os projetos de ascensão social dos que mais necessitam. Os trogloditas de prenomes e sobrenomes que habitam esta terra há centenas de anos representam a imagem mais deprimente de uma nação que precisa crescer economicamente e socialmente apesar deles.

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Plano Diretor Participativo


Plano Diretor Participativo em risco (?)

Jéferson Dantas â



O pedido de demissão de seis secretários do executivo municipal de Florianópolis é um importante alerta para avaliarmos a reestruturação administrativa da capital catarinense. Mais do que uma exoneração coletiva, as disputas internas pelo poder denotam o estilo de governo de Dário Berger, bastante acostumado à centralização, prática desenvolvida quando prefeito de São José, na grande Florianópolis. Entretanto, Berger necessitará ter jogo de cintura na continuidade das discussões do Plano Diretor da Capital, tendo em vista que os movimentos sociais envolvidos – principalmente o Fórum do Maciço do Morro da Cruz - não arredarão o pé enquanto não forem devidamente ouvidos. Uma novidade que o atual prefeito municipal desconhecia, ou seja, a mobilização organizada da sociedade civil.
Também é verdade que os demissionários – e aqui cito dois em especial – não estavam nada confortáveis em suas funções. Rodolfo Pinto da Luz, secretário da Educação, provavelmente reconheceu as limitações do cargo ou a restrita abrangência de deliberações mais autônomas. Pinto da Luz tem uma trajetória política que não lhe permite arriscar compromissos partidários que possam afetar a sua imagem. Optou por projetos pessoais mais focalizados. Ildo Rosa, responsável pelo IPUF, embora tenha voltado atrás em sua decisão, alegou orçamento apertado e excesso de burocracia em sua pasta. Todavia, estava tendo uma atitude democrática na condução do Plano Diretor, ouvindo, sugerindo e participando de diversas assembléias coordenadas por lideranças comunitárias.

Logo, os desdobramentos da exoneração coletiva do executivo de Florianópolis só poderão ser percebidos nos próximos dias, quando o secretariado for recomposto. Cabe, porém, enfatizar a condução de um Plano Diretor Participativo calcado nas necessidades prementes de milhares de pessoas em situação de risco nos morros e encostas da capital (em torno de 30 mil, atualmente). Florianópolis possui especificidades geográficas e naturais que precisam ser respeitadas. Para que Berger consiga se fortalecer no Executivo, terá de ouvir a sociedade civil. Caso contrário sofrerá reveses incalculáveis em seu ambicioso projeto de escalada política.


â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisador do GTEC - Grupo de Trabalho Estudos do Currículo, da Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz E-mail: clioinsone@gmail.com

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Projetos simplificados



Jéferson Dantas



Na reta final do segundo turno os dois candidatos à presidência da república brasileira ainda não manifestaram, claramente, seus projetos sociais. Acusações pessoais, maniqueísmo tosco, endemonização e tons desqualificatórios são destilados à revelia do eleitorado. Alckmin tem a seu favor os velhos caciques regionais, que não medirão esforços para convencer os eleitores indecisos no pleito de 29 de outubro. Lula ainda repousa na aura mítica que o levou ao poder em 2002, mas que não poderá se sustentar ad infinitum numa possível vitória no segundo turno.

Tanto Lula quanto Alckmin não farão grandes mudanças macroeconômicas. O comando tucano mexerá drasticamente no gerenciamento público – o chamado ‘choque de gestão, propalado por Alckmin -, já que sua agenda está intimamente associada ao reformismo neoliberal. Para o presidente Lula a reforma política passa a ser uma questão estratégica, o que poderá processar mudanças significativas na história do Partido dos Trabalhadores. Porém, uma coisa é certa: Alckmin e Lula não empolgam o eleitorado médio brasileiro. Há, inclusive, temores velados de que Lula, ganhando a eleição, terá enormes dificuldades para governar nos próximos quatro anos. Ou seja: rumores de golpismo no ar!

Os golpes contra a democracia acontecem, justamente, quando os mecanismos jurídicos existentes fracassam. Sempre há argumentações radicais e autoritárias reivindicando punições exemplares, exclusões, destituições e certo saudosismo auriverde. A polarização ideológica que se vê nesse momento histórico da política nacional revela ainda duas trajetórias distintas. Alckmin agrada em cheio as elites e parcela do eleitorado que aposta no ‘bom presidente’ que sabe representar o povo, isto é, o formato, a embalagem é mais importante que o conteúdo. Já Lula tem apoio dos mais pobres e para muitos ‘foi longe demais como presidente’. A endemonização de Lula por determinado segmento da imprensa não ajuda em nada a compreensão de seu significado político para o Brasil. Na longa e penosa consolidação democrática tupiniquim reinam os clichês envolvendo bandidos e mocinhos. Esquecem os polemistas de plantão que a nação brasileira é bem maior de que seus dilatados egos.

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Um ex-cineasta formador de opinião e falsos polemistas!


Um ex-cineasta é o maior formador de opinião do país. Posa de jornalista e muita gente o leva a sério. Um outro articulista do semanário Veja - que escreve nas últimas páginas da revista - também gosta de ser levado a sério. Hoje convivemos com esses falsos polemistas! Gente sem caráter que ganha a vida desqualificando os outros com a maior naturalidade. A 'estratégia da desqualificação', aliás, é bem conhecida do tucanato. Não por acaso o ex-cineasta e o jornalista-marrom são defensores enfáticos da política neoliberal.
Em tempos de eleição, os falsos polemistas ganham ares de profetas, agradando a classe média classicamente influenciável. Está mais do que na hora de resgatar-se uma imprensa combativa e realmente preocupada com os interesses da sociedade. Se é que algum dia a grande mídia se interessou pelos incautos de olhares bovinos...

O Oligarca que gosta de desqualificar


O Senador Jorge Konder Bornhausen (PFL) - e toda a cúpula intelectualóide do PSDB/PFL - tem o feio costume de desqualificar seus desafetos. Governador biônico em Santa Catarina durante a ditadura militar (1978-1982), parece se ressentir dos tempos que podia utilizar as prerrogativas da Lei de Segurança Nacional (LSN). Naquela época nebulosa da história política brasileira, Bornhausen tinha como aliado o seu afilhado Esperidião Amin, Secretário de Obras de seu governo - a pasta mais bem servida de recursos públicos. A última pérola de Bornhausen (conhecido no meio político como 'alemão') foi essa:
O presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), chamou nesta terça-feira o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de "mentiroso" ao reagir às críticas do petista contra o candidato Geraldo Alckmin (PSDB), feitas durante entrevista concedida esta manhã à Rádio Bandeirantes. Bornhausen disse à Folha Online que Lula vem mantendo uma versão mentirosa sobre a possibilidade de Alckmin privatizar empresas estatais como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal.
Formidável! Bornhausen acusa o presidente Lula de mentiroso! O oligarca agora posa de esteio da moralidade e da ética! Convenhamos, senador, é necessário muita pachorra para assumir esse papel que, efetivamente, não lhe cabe.

terça-feira, 3 de outubro de 2006

O monopólio da mídia


Hora de decidirmos!

Jéferson Dantas â



Aproxima-se o dia das eleições. Momento de decidirmos os rumos do país, de apostarmos em novos projetos políticos ou de legitimarmos estruturas arcaicas, baseadas no empreguismo em larga escala, populismo desbotado, nepotismo e oligarquias fundadas e alimentadas durante o regime militar. Importante lembrar ainda a função das mídias impressa e eletrônica na cobertura do processo eleitoral e a responsabilidade da mesma na influência da opinião pública. Em tempos de desqualificação de intelectuais de peso - como foi o caso da filósofa Marilena Chauí -, pelo semanário ‘VEJA’, torna-se fundamental compreendermos os limites de atuação dos grandes monopólios do mundo da comunicação.

Na lógica do capital os monopólios ditam as regras do mercado e exigem que a sua oferta seja aceita em larga escala, ainda que o custo/benefício nem sempre seja favorável. Entretanto, imaginar essa lógica no mundo da informação ou do entretenimento é extremamente perigoso. Cai-se na armadilha de todos terem acesso às mesmas informações, reproduzidas ad nauseam em jornais, emissoras de tevê e rádio. A uniformização das notícias, com raríssimas reportagens de peso, introduz o incauto leitor na pachorrenta e miserável explanação de acontecimentos que dizem respeito aos rumos do país, como é o caso do processo eleitoral. Nada razoável aceitar diretrizes editoriais que tem dois pesos e duas medidas. Ainda mais numa democracia frágil como a de nosso país, onde o quarto poder tem mais barganha do que o Estado.

Logo, receio que nos encontremos diante uma imprensa cada vez mais homogênea e assecla de interesses escusos. Como já comentei em artigos anteriores, liberdade de imprensa pressupõe responsabilidade e compromisso ético com o seu leitor. Se assim não for, a falácia do jornalismo independente apenas reforçará o coro das retóricas vazias, e saberemos, perfeitamente, de que lado estará aquele que, teoricamente, preocupa-se com a informação isenta e desvinculada de grandes grupos econômicos.
â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino em São José/SC. E-mail: clioinsone@gmail.com

sábado, 16 de setembro de 2006

A escola dos meus sonhos




Jéferson Dantas


Na escola dos meus sonhos não há grades, nem sinal que lembre ambulâncias ou corpo de bombeiros; há, no entanto, um currículo integrado, educadores comprometidos politicamente, diretores eleitos pelo voto direto, espaços de inclusão lúdicos, pais participativos e estudantes entusiasmados com o processo de aprendizagem. Na escola dos meus sonhos todos são responsáveis pelos encaminhamentos pedagógicos. Há grupos operativos, com tarefas pré-definidas e avaliações permanentes. Sendo um lugar público, a escola dos meus sonhos se define e se identifica com ações públicas, e não com o poder estatal clientelista, alinhado ao favoritismo e ao nepotismo. A escola que povoa meus mais recônditos pensamentos entende a democracia como construção cotidiana, inacabada, imperfeita, porém, prenhe de possibilidades.

A realidade, entretanto, está permeada pelo embrutecimento e o desencanto. Dados do Ministério da Educação (MEC) revelam que o Brasil está com um déficit de educadores na Educação Básica em torno de 710 mil profissionais. Em médio prazo isso será o colapso da nação! Salários pouco atrativos, condições de trabalho desumanas, violência física e simbólica crescente no ambiente escolar, direções indicadas (cargos de confiança) e grades curriculares fragmentadas, são apenas alguns exemplos da desistência sistemática de educadores ingressantes no magistério. Um país que queira ser competitivo tecnologicamente e amadurecido, politicamente, tem de investir em educação de forma robusta, elegendo-a como a prioridade número “um” do país.

Nesta direção, a escola dos meus sonhos não é a utopia incerta, a idealização ad infinitum, as projeções que arrefecem ou vão para as calendas gregas. A escola dos meus sonhos é e sempre será possível, pois se configura como um dos poucos espaços públicos de construção do conhecimento e de exercício da democracia, da ética e da formação política. Desistir desse sonho é desistir da juventude, arremessando-a para a cultura da violência, desapego à vida e ao arrivismo sem fronteiras.

â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino em São José/SC. Articulador do GTEC/FMMC (Grupo de Trabalho Estudos do Currículo do Fórum do Maciço do Morro da Cruz). E-mail: clioinsone@gmail.com

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

Indignar-se é preciso...

O gérmen da indignação

Jéferson Dantasâ

A indignação é uma das sensações humanas mais dilacerantes, porém, também é a que mais nos impulsiona à transformação e às reivindicações legítimas. Numa conversa informal com colegas de trabalho tive um exemplo nítido de como a indignação pode ter uma jornada tortuosa, culminando no arrefecimento profundo. Acontece que ouvir de educadores tão jovens a afirmação categórica, imperativa, inquestionável de que o Brasil não tem jeito e não é um país sério, concorre para um sinal de alerta há muito estudado e pesquisado: educadores ingressantes não querem mais trabalhar em escolas! Isto resultará em políticas públicas de valorização do magistério?

Há, contudo, um outro aspecto embutido na indignação arrefecida de meus colegas de trabalho: o desejo de ir embora do Brasil. Ir para um país onde as leis funcionem, onde a impunidade não impere e que a violência social seja tratada como política de Estado, preferencialmente com ações preventivas e que não determinem a chacina de vidas humanas por grupos de extermínio. Canadá, Nova Zelândia, Austrália, Suécia, Dinamarca, Suíça... Estes são alguns dos lugares sonhados pelos jovens trabalhadores brasileiros. Potencialidades que o nosso país exporta a custo zero. Se tiverem sucesso, não voltam mais! Cuidarão de seus filhos longe do Brasil e lembrarão deste território em épocas de copa do mundo, num misto de exílio, exotismo e resignação.

Deste modo, indignar-se atualmente não tem mais a mesma compreensão semântica dos tempos de enfrentamento à ditadura militar ou a qualquer forma de autoritarismo (estatal ou privado). A indignação do tempo presente se limita às bravezas, explosões momentâneas e um profundo mal-estar, principalmente pela ausência da coletividade. Tenho cultivado a minha indignação entremeada ao lirismo. Mas, acima de tudo, há a recusa explícita do conformismo. A resignação é a desistência da Vida. Seria a vitória triunfal de Tânatos. Que o nosso Eros criador possa ser maior que a incompetência dos homens públicos e que nos orgulhemos deste país repleto de contradições, armadilhas, alegrias e muitas vezes sem nenhum caráter, tal qual o mito macunaímico.

â Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Professor efetivo da rede municipal de ensino em São José/SC. Pesquisador do GTEC - Grupo de Trabalho de Estudos do Currículo da Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz e do GIEL – Grupo Interdisciplinar de Estudos da Linguagem. E-mail: clioinsone@gmail.com

domingo, 27 de agosto de 2006

Candidato ao Senado por Santa Catarina decreta o fim das ideologias!



O fim das ideologias (?)

Por Jéferson Dantas



Um determinado candidato a senador por Santa Catarina tem pedido aos seus leitores no horário eleitoral gratuito um voto de confiança, “independente das ideologias”. Isto me chamou bastante a atenção, afinal escolhemos os representantes do poder Legislativo não só pelo seu histórico, mas, sobretudo pelo seu entendimento de sociedade e pela maneira como a sua agremiação partidária se comporta na elaboração de leis que atendam ao bem comum. O candidato decretou o “fim das ideologias” com a maior tranqüilidade, estabelecendo uma nova regra: os eleitores não precisam mais se preocupar com os matizes ideológicos de direita, centro ou esquerda; estão todos no mesmo barco (ou saco).


Embora a credibilidade da classe política se encontre bastante abalada, onde impera a impunidade e a corrupção nos três poderes, engana-se quem acredita que as ideologias estão mortas e sepultadas. O movimento histórico nos últimos vinte anos, com o fim do socialismo real e a hegemonia praticamente absoluta do neoliberalismo, apenas nos aponta com gravidade a necessidade da sociedade civil se reinventar. Em outras palavras, urge a elaboração de uma contra-hegemonia que recupere a força das utopias, de uma sociedade mais justa e igualitária. A violência crescente e o fosso cada vez maior entre a opulência e a miséria é responsabilidade do Estado sim! Porém, quando o Estado se desresponsabiliza de suas funções primordiais, jogando para o mercado o equilíbrio social e econômico, temos aí uma opção de classe, ou seja, a ideologia da classe dominante e a manutenção do statu quo de um determinado segmento social.


Logo, as ideologias não morreram e estão longe de serem sepultadas. O candidato ao senado por Santa Catarina comete um equívoco premeditado. Aposta na velha máxima de que os(as) eleitores(as) votam no “indivíduo” e não na ideologia partidária. As coligações inimagináveis, as bravatas de auditório e homens públicos comprometidos com as velhas oligarquias é que precisam ser desveladas em Santa Catarina. Se as opções são cada vez mais exíguas, que pelo menos saibamos reconhecer as práticas discursivas dos(as) candidatos(as) ao Congresso Nacional, discursos esses que beiram ao cinismo, baseados na crença de que os(as) eleitores(as) são ingênuos(as) e não sabem separar o joio do trigo.








segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Mídia e desqualificação do(a) educador(a)




Por Jéferson Dantas



Tem me causado muita surpresa a maneira como um grande grupo empresarial da mídia na região sul tem tratado a questão da educação em Santa Catarina. São matérias sistemáticas em periódicos impressos e também nos telejornais diurnos e noturnos que desqualificam os educadores catarinenses, invertendo a lógica de que a precarização da educação pública é, acima de tudo, uma questão estrutural e não simploriamente “culpa” de quem tem formado gerações inteiras de catarinenses.

Uma das últimas matérias publicadas por este importante grupo empresarial da mídia, apontou em “rápidas pinceladas” que os atestados médicos dos professores se ampliaram consideravelmente no mês de julho, denotando, aparentemente, que os professores estão se utilizando artificiosamente dos atestados para não trabalharem. Ou seja, as juntas médicas estão sendo coniventes, certamente (?). Nunca li neste periódico uma matéria consistente sobre as doenças psíquicas e físicas que os educadores sofrem nos ambientes escolares, muitos deles sucateados e impróprios para a prática pedagógica. Apenas para citar, a síndrome de burnout e o assédio moral são apenas algumas das situações corriqueiras em várias escolas catarinenses e do Brasil como um todo.

Já em seus telejornais, a empresa tem reservado espaços específicos para tratar da educação e os seus âncoras com olhares bravios exigem limites à indisciplina dos estudantes e atitudes enérgicas dos educadores. Num dos últimos programas que assisti, sugere-se sutilmente que o modelo privado de educação básica deve ser o mesmo seguido pelo modelo público, tendo em vista que os “resultados” são mais positivos, objetivos e direcionados (leia-se vestibular). Em outros termos, a relação mercantilista/trabalhista da educação acaba se tornando a mais adequada para se evitar as faltas freqüentes dos educadores e a disciplinarização de sua conduta no ambiente escolar.

Logo, faz-se importante a relativização do que tem sido publicado pela mídia no que se refere à educação catarinense, principalmente quando um determinado grupo empresarial se coloca como interlocutor privilegiado ou “arauto” das mazelas educacionais. Não se pode confundir a liberdade de imprensa com irresponsabilidade. Ao culpabilizar, nas entrelinhas, os educadores pela falência da educação, os empresários da mídia cometem uma grande violência simbólica contra aqueles(as) que estão, justamente, numa das pontas mais frágeis dessa problemática. Invés de culpar educadores e educadoras pelo fracasso escolar dos educandos, não seria mais honesto e responsável pesquisar profundamente o que está embutido no processo ensino-aprendizagem?

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Nada de novo no "front"...

Portal Último Segundo, 14/08/2006

Baixo nível da educação brasileira limita crescimento, diz estudo do Ipea

BRASÍLIA - O Brasil fez muito nas últimas décadas em matéria de educação, mas hoje há relativo consenso de que o baixo nível educacional da nossa força de trabalho é um dos fatores limitativos do crescimento. A constatação está no documento Brasil, o estado de uma nação, lançado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o texto, a população brasileira é formada por pessoas que "podem ser tuteladas e podem até atingir bons níveis de produtividade". O estudo ressalta que essas pessoas têm baixa capacidade para realizar tarefas mais complexas e tomar decisões que exigem capacidade analítica mais sofisticada, o que impede o desenvolvimento.

Embora reconheça que há mais ofertas, o Ipea diz que falta qualidade no ensino. Entre 1970 e 2000, o número de matrículas saiu de 1,119 milhão para 3,680 milhões no ensino médio, e de 425 mil para 2,694 milhões no ensino superior. Entretanto, o texto qualifica de "lastimável" a educação básica no país, ao compará-la à de outros lugares. "A pior notícia das comparações internacionais é a constatação de que a capacidade de compreensão de leitura dos alunos das nossas elites é inferior ao nível obtido pelos alunos de classes mais baixas da Europa".
Apesar do aumento do número de vagas, especialmente no ensino fundamental, os pesquisadores do Ipea consideram má a qualidade do ensino, e constatam que não há estímulo para a permanência do aluno na escola. Embora o ensino fundamental tenha se universalizado, ou seja, todos entram na escola, somente 84% concluem a quarta série e 57% terminam o ensino fundamental. No nível médio, o índice deconclusão é de apenas 37%, sendo que, entre indivíduos da mesma idade, que entram ao mesmo tempo na escola, apenas 28% saem com diploma. O estudo relaciona a evasão à condição social do aluno. Na categoria dos 20% mais pobres do país, 95,2% dos alunos entre 7 e 14 anos estão na escola. Quando chegam à idade entre 15 e 17 anos, a proporção cai para 73,6%. No grupo entre 18 e 24 anos, apenas 28% permanecem estudando. Entre os 20% mais ricos, 99,3% das crianças entre 7 e 14 anos estão na escola. Dos 15 aos 17 anos a parcela é de 94,6% e dos 18 aos 24 anos, 51,6%. "A ordem do dia é investir incansavelmente em qualidade, passando pela melhor qualificação dos professores, pela melhoria da infra-estrutura de ensino e pela motivação de seus profissionais", conclui o texto do Ipea.

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

Para pensar...agir...e resistir!

Folha de São Paulo, 04/08/2006 - São Paulo SP

Esquizofrenia na educação e cultura

Alcione Araújo

Os números são eloqüentes: dos 186 milhões de habitantes, a educação -estudantes e professores, do ensino fundamental ao doutorado- envolve 55 milhões. Cotejar esses números com os da produção artística é deparar-se com outro país. A tiragem média de um romance no Brasil é de 3.000 exemplares; a ocupação média dos teatros, de 18%; em crise, as gravadoras têm números pífios, e a média de espectadores de filmes brasileiros, de 250 mil, está em 180 mil em 2006.

Os números revelam enorme desinteresse pela arte e, deduz-se, cresce a distância entre os significados percebidos pelo público e o conteúdo latente das formas de expressão. Nem os 55 milhões envolvidos na educação usufruem da produção artística. O país vive esquizofrênica fratura: uma educação sem cultura e uma criação artística sem público. A economia pode até crescer, mas cresce sem alma. Criação da subjetividade, de percepção subjetiva, as artes interagem com as demais metáforas -filosofia, antropologia, sociologia etc.- criadas pela sensibilidade e razão humanas para se entender, entender o mundo e se entender no mundo. Braço sistematizado da cultura, a educação tem métodos, normas e hierarquias para realizar a transmissão do saber. A expectativa é que, vivenciado o processo -graduar-se, digamos-, se esteja preparado e motivado para fruir a arte de várias épocas nas suas várias formas. O que se vê, porém, são médicos que jamais leram um romance, engenheiros que nunca foram ao teatro, advogados que não vão ao cinema, dentistas que não se emocionam com a música etc. Na origem do fenômeno, uma sociedade que não tem a educação e o saber como valores, mas sim como meios de ter uma profissão e se inserir na produção. Se assegurar o emprego, prescinde-se da qualidade no ensino, ou, num utilitarismo ingênuo, se dá o diploma, cumpriu o papel. Sem minimizar a importância do emprego num país carente dele, com tal visão, a educação renuncia à função de desvelar universos e se limita a formar mão-de-obra mais ou menos qualificada. Compelida pelos vestibulares, a idéia reflui aos níveis médios, reduzidos a cursinhos preparatórios. O pragmatismo expulsa as disciplinas chamadas de humanidades, que dão lugar àquelas de especialização prematura. Nessa moldura, a missão da universidade -universalização do saber pelo tripé da formação do profissional, do cidadão e do homem- torna-se uma trajetória de adestramento para a produção. A história reconhece na aliança entre educação e cultura a primazia de criar sonhos e inventar meios para realizá-los. O valor simbólico da cultura fecunda o processo civilizatório, dos valores às leis, da política à vida. A herança de colonizado, a exclusão social e a elitização da cultura atrelam o futuro da produção artística ao que a educação lhe reservar. A cultura é dependente da educação. Se não cumpre sua missão, sufoca as artes. Não se pode pensar a educação sem a cultura, nem a cultura sem a educação. No espectro cultural, há um vácuo entre arte popular -autônoma à educação- e arte tradicional, dita do espírito. Tentou-se fazê-las dialogar num amplo projeto nacional popular abortado pela ditadura. No "gap" entre as duas, irrompeu a indústria audiovisual de entretenimento, hoje hegemônica. O público, além de introjetar valores dessa indústria, assiste à contaminação da cultura do espírito e da cultura popular pela anódina cultura de massa.

Ao artista, resta o desalento por sua obra não chegar ao público, não emocioná-lo nem aguçar sua imaginação, não humanizá-lo nem levá-lo a pensar. Artista e arte perdem a função, o público empobrece e estreita o horizonte da sociedade. Não se formam platéias e as obras não circulam; não se viabiliza economicamente a produção, cujo custo crescente a torna mais dependente do Estado, suscetível à discriminação política e acomodação estética -o artista inibe a própria ousadia. À falta do público induzido pela educação, a produção artística se autodesqualifica na busca de audiências que não a reconhecem e perde o público cativo remanescente. Educar não é apenas qualificar para o emprego, nem arte é apenas adorno que aguça a sensibilidade. Há uma dimensão humana que, sem educação e cultura, nada agrega como experiência coletiva nem alcança a plenitude como experiência individual capaz de discernir e ser livre para escolher. E, sem isso, não podemos dizer que somos realmente humanos.
ALCIONE ARAÚJO , 56, pós-graduado em filosofia, é romancista, dramaturgo, cronista e roteirista de cinema. É autor de "Urgente é a Vida" (prêmio Jabuti 2005).

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Demasiadamente humano

Tenho passado pouco por aqui. Manter um blog não é tarefa fácil. E creio que tenho me repetido, exaustivamente. Parece que tudo já foi dito, mas o "tudo" é bastante prepotente. É imensa a tarefa daquele que se expressa! Na poesia, na arte plástica, na música ou numa sala de aula... Entretanto, resistir, dizer, falar, gritar, liberar os grilhões da expressividade cambaleante é um alimento perene! Único fruto que nos conforta e nos transporta à eternidade. Somente a obra nos redime! E somente o verdadeiro amor é capaz de nos purificar da imensa fadiga, da nossa pequenez e da inescapável finitude...

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Do projeto literário "Verdes Idades para serem ditas".

"Persistência da Memória", de Salvador Dali.













e o brilho
difuso
que ainda
se
espalha
pela casa:
é uma centelha
ou uma vel(h)a acesa?



e a valsa que
prometeste ao teu
amor
na primeira chance
de corpos colados
em noite-furor
em noite de amor
cambaleantes de éter
e álcool?

e a sedução
que nunca se abala
olhares
na tela
virtuais casualidades
encontros na chuva
pesadelos na rua
e sonhos de
desventura?

varando noites
tu te revelas
cão andejo!

ainda que revire latas,
ainda que revire cacos da memória,
ainda que te encontres
esfolado na matéria.

quarta-feira, 21 de junho de 2006

Enquantos milhões de brasileiros passam fome...


Número de milionários no Brasil chega a 109 mil

CASSIANO GOBBET, da BBC Brasil

Um estudo da Merrill Lynch publicado nesta terça-feira mostra que número de pessoas no Brasil com mais de US$ 1 milhão (R$ 2,12 milhões) chegou a 109 mil em 2005. O número de milionários no Brasil em 2005 aumentou em 11,3%, comparado a 2004. Segundo o 10º Relatório sobre a Riqueza Global, o número de investidores que têm mais de US$ 1 milhão passou de 98 mil para 109 mil no período.O Brasil está entre os países onde o grupo de pessoas com mais de US$ 1 milhão além de suas residências mais cresceu. Coréia do Sul (21,3%), Índia (19,3%) e Rússia (17,4%) foram os países que tiveram os maiores índices.
No mundo todo, a quantia de dinheiro em poder das pessoas dessa faixa atingiu os US$ 33,3 trilhões (R$ 70,7 trilhões de reais), num acréscimo de 8,5% em relação ao ano anterior. Os Estados Unidos seguem como o país com a maior quantidade de milionários e também com o maior volume de dinheiro acumulado por essas pessoas. Contudo, pela primeira vez os EUA não conseguiram superar o crescimento do ano anterior, crescendo 6,8% em comparação aos 9,9% de 2003. O estudo também mostra que os patrimônios de ricos de continentes diferentes têm origens diversas.
Na Europa e na América Latina, o maior volume de recursos está alocado na propriedade de negócios ou no dinheiro vindo da venda de companhias, enquanto nos Estados Unidos, a maior parte do montante vem de renda.

terça-feira, 20 de junho de 2006

Tempos de Circo...

A mistura de Copa do Mundo e eleições, além da conhecida falta de prioridade à educação, está colocando em risco a aprovação de uma medida (Fundeb) que vai transferir, em quatro anos, R$ 4 bilhões de verbas federais para o ensino básico. Pode não ser muito, mas é o que se conseguiu depois de demoradas negociações. O pior nem é isso.O pior é que está para expirar a validade do sistema de financiamento do ensino fundamental (Fundef), e, se o novo mecanismo não for aprovado, entraremos num buraco jurídico, no qual quem será dragado é o ensino. Há meses está se alertando para esse risco (inclusive neste espaço) e pouco, ou quase nada, tem se avançado, apesar da gravidade do assunto. Dizem até que o tema não anda por questões eleitoreiras: não gostariam de dar essa conquista para Lula.O fato, porém, é o seguinte: o Congresso está montando uma armadilha para o país numa questão tão estratégica como educação. É necessário, portanto, que os políticos pensem um pouco menos em futebol e em eleições para evitar essa armadilha.


Gilberto Dimenstein, 48, é membro do Conselho Editorial da Folha e criador da ONG Cidade Escola Aprendiz. Coordena o site de jornalismo comunitário da Folha. Escreve para a Folha Online às terças-feiras.

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Sobre o Poder, por Jéferson Dantas

Na sanha pelo poder muitos homens tombarão, tomados de vaidade e arroubos juvenis, como se tivessem a solução para tudo e para todos! No entanto, no terceiro milênio que se descortina, assistimos apenas um tipo de liderança: o arrivista! O arrivista não tem sentimentos e nem se importa em ser dúbio ou ambíguo. Age por uma determinação calculada, cercada de 'marketing', maquiagem pesada e apoio de sanguessugas de plantão.
O poder público se transformou no espaço eterno do privado. Pelas paredes do Congresso Nacional, com seus corredores que mais parecem labirintos, só restou o teatro de homens e mulheres absurdamente despudorados. Não há ética! Só a sanha do poder! Só o desejo de esmagar/desqualificar o divergente. Numa democracia jovem como a nossa, não é de se espantar que os arrivistas arreganhem os dentes para os ingênuos do mundo apodrecido da res-publica.
Após leitura de "O dia em que Getúlio matou Allende", do jornalista Flávio Tavares.

terça-feira, 6 de junho de 2006

Do projeto literário "Verdes idades para serem ditas"

2

na manhã de
chuva
as leituras que faço
são tensas
confidenciais.


o café quente
preparado no acordo
das horas
reluz na
fina têmpera do
quarto de estudos.

preparo-me
para o exercício do tempo
e penso na mulher
que amo.

fico feliz
com as gotas
da chuva...
com
as minhas escolhas.


e quando
o domingo se finda
acenando para
mais uma semana
nem o coração
entende
o porquê de tanta
leveza
em tempos de
neve nos
semblantes alheios.

PEDAGOGIA WALDORF



Diário da Tarde, 06/06/2006 - Belo Horizonte MG

à esquerda, Rudolf Steiner






Felizes na escola

por Helena Trevisan


Nossa filha mais velha já morava em Barcelona há um ano quando fomos visitá-la com seus dois irmãos. Na ocasião, o caçula tinha seis anos de idade e ainda não estava alfabetizado. Esse detalhe é muito importante para o que eu vou contar em seguida, pois se tornou o motivo pelo qual acabei escrevendo um livro tempos depois. Aconteceu que em Barcelona fomos visitar a Casa Juan Miró, um acervo das obras do grande pintor catalão. Uma das salas do museu intitulava-se Constelación. Ali, nos sentamos diante de uma tela por alguns instantes. E então, meio provocativa, perguntei ao pequeno: Victor, o que você está vendo? Uma constelação , respondeu ele, candidamente, para o meu mais total espanto.

Se tivessem feito essa pergunta a mim, com toda a minha capacidade intelectual devidamente amadurecida, essa resposta seria mais do que esperada. Além do fato, é claro, de eu ter lido a palavra constelación escrita no pórtico de entrada da sala. Mas, em se tratando de uma criança não alfabetizada, o que isso revelaria? Anos depois, a lembrança desse fato me trouxe uma súbita clareza no entendimento do que preconiza a pedagogia Waldorf,metodologia empregada na escola em que o Victor estuda até hoje. Criada em plena desolação do pós-guerra, em 1919, em Stuttgard, Alemanha, por um visionário chamado Rudof Steiner, a pedagogia foi aplicada pela primeira vez numa escola fundada para os filhos dos empregados da fábrica de cigarros Waldorf-Astória, daí o seu nome. A pedagogia leva em conta temas tão atuais, como preservação do meio ambiente, justiça social, formação ética, inteligência emocional, que é fácil esquecer que ela já tem quase um século de existência.

Na prática, ela prega que a transmissão do conhecimento deve acompanhar numa obediência rigorosa e solene, o desenvolvimento do aluno. Isso quer dizer que se deve respeitar o momento certo para se ensinar determinado conteúdo, e esse momento é quando o aluno experimenta no seu íntimo uma experiência semelhante. A prova do vestibular que assombra nossos jovens cada vez mais precocemente, cai como uma bomba em plena flor da idade, aquela etapa da vida em que tudo é só promessa, e quase nada realização, pois estamos tratando de futuro. São raros os casos em que, aos 17 ou 18 anos, umacriatura possa garantir que a carreira escolhida será de fato aquela para todo o sempre, pelo simples motivo de que não houve ainda existência suficiente para tamanha certeza. Podemos dizer que uma escola Waldorf não prepara os jovens para o vestibular. Prepara para a vida, da qual o vestibular é apenas uma parte e um treino, basta se dedicar a esse fim específico e tudo se resolverá, com maior ou menor brilho.

Quando nosso filho foi capaz de captar o que Miró expressou em pinceladas, compreendi que, mesmo sem conhecer letras, sem saber fazer contas, ele entendeu. E seu entendimento foi muito mais espontâneo e verdadeiro do que o meu, sua mãe letrada e com diploma universitário. A pedagogia Waldorf se propõe a formar homens livres. Isso dá sem subterfúgios ao se expressar pela arte, através das emoções. O que se aprende com a alma, jamais sai da cabeça e se manifesta nos gestos naturalmente. Se todas as metodologias de ensino se propusessem a ouvir o que os alunos dizem sem palavras, haveria mais estudantes felizes nas escolas.