terça-feira, 8 de março de 2011

PELE DE PENUMBRA


E qual foi o maior arrependimento? A escrita despedaçada ou a vida ordinária carcomida pela tensão constante? E isso que não terminava, e isso que destruía, vento de espasmos, sublime e amendoada pele de penumbra.

E tua voz que cortava o ar na fuga de minhas adagas-serpentinas; e bem que deliravas no carnaval particular destes sonhos tão medíocres, mas de ardor singelo, busca minha e tua.

E aquelas aquarelas esquecidas pelos cantos modorrentos da casa, tons gris de tua experiência primeira.

E o ato final foi a renúncia sofisticada de entranhas e sonhos menores. E disso não me eximia, pois desde o início busquei o teu limite e a minha deletéria agonia!

SILÊNCIO




Respeite o meu silêncio. Não o silêncio sem palavras, mas o silêncio da penumbra. Não me exijas o que não posso lhe dar ou aquilo que nunca poderei lhe dar. Respeite minha crença e os meus tombos cotidianos. Deixe-me respirar com vontade!

Entenda! Respeite o meu lugar no mundo, não muito e nem tanto. Assim, deixe-me num canto a ruminar as coisas e os intentos secretos. Esqueça de mim por um tempo...

Perceba a minha concentração para objetos que talvez não tenham importância para ti. Não queira ler os meus pensamentos e apontar com o dedo autoritário e pontiagudo o quanto sabes das cinzas e das flores. Contento-me com os meus espólios e os aromas que criei em segredo.

Só fale o necessário e mesmo assim em determinados horários. Não venha com toda essa aura onipotente que não lhe cabe e, de fato, não cabe a ninguém. Só registre o encontro ordinário, as fagulhas e as chamas intermitentes. Aliás, comece a me esquecer bem devagar. Quem sabe um sonho, outra vida, uma aposta divertida... Respeite o silêncio e a distância da espera.  

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ALHEIO


 


Vai se perdendo o desejo e a lascívia do primeiro encontro. Sobretudo, é o gozo interrompido; é a viuvez da relação carcomida pela verborragia narcísica ou pela masturbatória evocação de dizeres incongruentes e estéreis.
O que se vê é este homem suspenso e alheio. Que se alegra com pequenas peripécias do destino; incapaz já de evocar o instinto e a abertura plena às experiências afetivas que fogem do ‘controle’, por conta da eterna culpa judaico-cristã.
É este homem-vácuo que caminha pelas ruas e enojado com a sua condição indigna de estar-no-mundo, prepara seus pequenos venenos para que a embriaguez assuma o controle de tudo! Só neste estado emergente e anestésico que sua virtude enterrada pode atender demandas estratosféricas. E, assim, encerra-se no território autístico satisfeito com as elucubrações noturnas de suores aziagos.
Mas, deixar que se apodere da alma o medroso impotente, que se acomodou na jaula doméstica em troca de um aparente sossego, revela-se como a destruição da criação poética e potencializadora! São estes tempos de adagas no corpo e de frio na espinha; são estes tempos de corpos em brasa, mas que se auto-incineram e viram fumaça!
Este homem que se esfumaçou, síntese da automutilação, está condenado aos psicofármacos! A sua alegria vem da química induzida! E suas ações só podem ser concretizadas quando, virtualmente, sente-se liberto! E tudo aquilo que ele chamou de amor não aconteceu, de fato, em sua existência; são episódicos os estertores da alma! Isto já foi sinalizado na última aurora!
Culpado que está por não amar o suficiente, o homem-trágico trai o seu destino. Está humilhado! Divaga totalmente e divide suas parcas riquezas com tal parcimônia que nem parece se preocupar com as ruinosas escolhas e a decrepitude de sua aparência. Os sonhos são quimeras diante da cáustica urbanidade de múltiplos sons e pedrarias.
Suspenso, alheio e reticente, este homem vagueia atordoado, ora alegre com as pequenas conquistas, ora soturno com os seus embates interiores. Não há, aparentemente, mais tempo nem espaço para o rompimento do acordo tácito e imobilizador das alianças equivocadas e não-amorosas!
 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CARNAVAL E CINZAS


E se eu rasgasse
a fantasia?
A tua máscara?
Ainda ias
me querer?

Continuarias
insinuante
faiscante
loba-louca de desejo?

E quando
 a farra fenecesse,
seriam
cinzas
as tuas
lânguidas mordidas
agridoces?

E se eu te desejasse
além dos dias
da carne?
A provocação de
seios e coxas desnudas
fariam
parte de nossos
rotos dias?

Eis que
partias numa
esfumaçada
rua de
inebriantes cigarrilhas...

E toda a gente
amargando
o pó
enredada
no colorido-serpentário
de serpentinas.


PERMANÊNCIAS


O que fica
deste ensinamento
não é o desfecho,
tampouco a ilusão
de ter sido menos.

O olhar perscrutador
hoje ausente
ainda é fagulha
em nossas ações
de erro, falibilidade e ousadia!

O que ‘idolatramos’
não é o ser inalcançável,
mas aquilo
que nos aproxima como
espécie.

O que permanece
reconstrói
e lança-nos
ao inefável,
torrente de todas
as lamas, vivências, amorosidades
e perdas/encontros incalculáveis.
                                                                 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A SOLUÇÃO FINAL: MARCAS DA TRAGÉDIA


E, então, vieram as delações, os interrogatórios intermináveis, as prisões e os desaparecimentos. Fomos interrogados seis vezes durante uma só semana. O marido de _____ foi encontrado para depor e o mesmo não titubeou em denunciá-la como subversiva, mãe irresponsável e envolvida em encontros e guerrilhas clandestinas. Foi o que bastou para que _____ se apartasse de mim para sempre. Quanto a mim, o próprio jornal em que trabalhava foi extremamente sucinto: “Não passa de um reporterzinho de porta de cadeia!”. Reduzido, portanto, a um repórter anônimo, que fazia matérias sobre estupros, furtos, assaltos, pedofilia e violência doméstica, penso que os interrogadores não acreditavam que eu fosse perigoso para a sociedade.

Destruído por perguntas sem sentido e pelo fato de ter perdido _____ sem lutar, provocou-me enjoos insuportáveis e vômitos noturnos. O toque de recolher foi adotado há duas semanas. E, sabe-se que existem áreas de extermínio de andarilhos e de supostos delinquentes. A assepsia social agradou em cheio os senhores que desfilaram em nome da TRADIÇÃO, FAMÍLIA e PROPRIEDADE. Aos poucos, o comércio e as escolas foram reabrindo. Os hospitais destruídos pelos conflitos armados foram reconstruídos pelo exército. Os jornais que ainda circulavam exibiam a manchete em tons vibrantes: “ACABOU O CAOS! A ORDEM SOCIAL IMPERA!”. As fronteiras da cidade foram, paulatinamente, reabertas.

Os corpos incinerados ou jogados ao mar nunca puderam ser identificados. Com a extinção temporária dos partidos políticos, a Junta Militar governava com mão de ferro, assessorada por especialistas civis e servis. O número reduzido de estudantes nas escolas dava bem a medida da quantidade de crianças e jovens assassinados durante o período de limpeza social. O prefeito-predador relatava com orgulho: “O mal foi cortado pela raiz! Invés de permitir que mais delinquentes nasçam desta genética apodrecida dos miseráveis resolvemos eliminar todos no nascedouro! As pessoas de bem, acredito, estão do nosso lado!”. E, assim, resolvia-se o problema da distribuição de renda, da equidade social, da fome e do abrigo!