domingo, 25 de abril de 2010

A PRESSA QUE MATA

frágil existência.

a raridade
da
entrega.

notícias
tristes
que
reorientam
a vida célere
e absurda!

nebuloso dia
dum cinza
metálico
enfático.

a vida
se perde entre os
dedos
como a
areia da
ampulheta.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

DO QUE É DO HUMANO - LIVRO DE JÉFERSON DANTAS

O livro 'Do que é do humano' é formado por pequenos contos, numa linguagem simples e direta. Confira! Clique no título acima e boa leitura!

Saudações literárias!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O amarelo do tempo

à mesa
com papéis amarelos
a me contar coisas
que vivi
e isto
era estranhamento.

palavras que
teriam brotado
de minha boca 
em algum
momento.

eu que
teria paralisado
em alguma
'outra vida'
agora retomava isso
misturado
e suspenso.

pois que agora
o que via
era um novo-antigo
que 
aperfeiçoava
o que havia
esquecido.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

Por Jéferson Dantas

Em relação à matéria dominical do jornal AN (28/02/2010) sobre os vinte anos de desaparecimento do ex-governador de Santa Catarina, Pedro Ivo Campos, penso ser importante ressaltar controvérsias para que não tenhamos uma visão unilateral deste personagem político, notadamente proveniente de seus antigos aliados e correligionários. 

O governo Pedro Ivo Campos representou a vitória de um PMDB moderado, para não dizer conservador. Depois dos anos de chumbo e de um processo de redemocratização ainda capengo, Pedro Ivo assumiu o governo sem demonstrar qualquer compromisso com o Plano Estadual de Educação (PEE) construído a duras penas pelos/as educadores/as de todo o estado de Santa Catarina durante o governo Amin (1983-1986). Além disso, na primeira greve do magistério durante o seu governo (1987-1990), agiu de forma truculenta e autoritária lembrando os momentos mais torpes do período ditatorial no Brasil. Foram mais de dezessete mil professores demitidos. Perguntado sobre as lacunas pedagógicas que estes educadores deixariam, Pedro Ivo Campos teria respondido com o seu ‘jeito peculiar’: “Quem leciona Geografia pode lecionar História”. Alheio às complicações pedagógicas que tal ação poderia proporcionar, seu governo conseguiu desmobilizar as eleições diretas nas escolas, além de destruir todos os propósitos contidos no PEE.

Como bem nos ensina o historiador inglês Eric Hobsbawm em sua obra 'Era dos extremos', cabe aos historiadores lembrar o que a humanidade já esqueceu. Nesta direção, nenhuma herança política ou cultural deve ser analisada de forma pragmática, sem mediação e tensionamentos. Ao traçar o perfil deste político, entendo que o próprio discurso jornalístico desconsidera os antagonismos e a opinião de milhares de pessoas que não compartilham de tal pensamento único e homogeneizante.

O reacionarismo do governo Pedro Ivo Campos não era o mote de tal homenagem, pois via de regra, parece-nos que os mortos se deificam e nada mais pode macular a sua imagem. Ao identificar tais mediações e conduzir a análise para além de uma homenagem a - histórica, poderíamos ter um quadro mais honesto de sua herança política e isto exigiria ouvir diversos sujeitos históricos. Uma análise epidérmica e cronológica não possibilita aos leitores compreenderem a construção da personalidade política de Pedro Ivo Campos, tampouco as reestruturações internas de sua legenda partidária, bastante afastada nos dias atuais dos propósitos concernentes ao chamado ‘MDB histórico’.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Neoconservadorismo e consenso educacional



Por Jéferson Dantas

As recentes reformas educacionais oficiais em nosso país nas duas últimas décadas, notadamente no campo curricular e no processo de formação docente, têm demonstrado a permanência de um modelo escolarizado público profundamente enraizado no etnocentrismo, ‘branquidade’ e sexismo, conforme estudos do teórico crítico estadunidense Michael Apple. Além disso, os sistemas públicos de ensino estão nas mãos de sujeitos pouco afeitos ao diálogo e, sobretudo, comprometidos com suas alianças partidárias. Em outras palavras – e Santa Catarina não foge à regra –, impera o fisiologismo político num setor que necessita de mudanças efetivamente estruturais.

Não é segredo para ninguém os lamentáveis índices de reprovação e de evasão em unidades de ensino em que boa parte de seu público escolar é proveniente das camadas sociais mais pobres. O desequilíbrio de capital escolar e de transmissão de bens culturais ou simbólicos para crianças e jovens em tal contexto é resultado de uma prática recorrente, i.e., em tais ambientes de aprendizagem estão concentrados/as os/as educadores/as mais despreparados/as para enfrentar tal realidade, não sendo raro o absenteísmo docente; produtividade escolar pífia; ausência de critérios de avaliação coadunados com uma prática educativa emancipatória e, fundamentalmente, pouquíssima valorização salarial da classe docente. Para os neoconservadores, é mais importante que as escolas assumam currículos desprovidos de dissenso e que a reprodução dos valores hegemônicos continue fazendo parte do desalentador cenário escolar que temos em nosso país.

O recente resultado do ENEM (Exame nacional do Ensino Médio) demonstrou mais uma vez que em tal ‘lógica de ranqueamento’ as escolas públicas quase sempre levam a pior. Isto não significa que os/as educadores/as não se esforçam, muito menos os/as estudantes. Todavia, não se pode ter uma educação de qualidade sem que outras questões sociais fiquem em segundo plano. Uma criança ou jovem desprovida de capital econômico e cultural é a que mais necessita do capital escolar. Mas, não por acaso é a que mais abandona a escola e a que mais tarde terá maiores dificuldades de empregabilidade. Nesta direção, o consenso educacional defendido pelos neoconservadores procura imprimir uma marca indistinta no que compreendem ser os ‘verdadeiros valores’ a serem ensinados, prescindindo as comunidades escolar e local de suas próprias escolhas teórico-metodológicas. Como nos ensina Apple, faz sentido um currículo oficial nacional num país de dimensões continentais como é o caso do Brasil? Ou melhor: faz sentido uma escola burocratizada, hierarquizada, verticalizada e usada como moeda de troca em conchavos eleitorais?



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tantas palavras...

exigindo
palavras obtusas
às duas da matina.

querendo
explicação
de tudo
o que não sabe.

e eu filosofando
cartesianas
verdades
no vislumbre
da tarde.

agora me
reconhecias.

e podias
partir
repleta
de vazia existência.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS

Publicado originalmente no Jornal Notícias do Dia

 
O terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos lançado pelo governo Lula há algumas semanas está mexendo com três vespeiros clássicos em nosso país: militares, Igreja Católica e o agronegócio. No que tange ao primeiro aspecto, os militares compreendem que o documento apresenta elevado teor ‘revanchista’, principalmente com a proposta da ‘comissão nacional da verdade’, que tem por finalidade um exame minucioso do aparato repressor que grassou pelo Brasil em mais de 20 anos de ditadura. Evidente, que para o torturador do regime militar, agia-se em nome da defesa de princípios democráticos, ainda que a imprensa tenha sido amordaçada, houvesse todo e qualquer tipo de violação individual e a Constituição Federal tenha sido rasgada ao meio. Isto demonstra por um lado o sério e dificultoso processo de enxergarmos as nossas chagas históricas recentes, eliminando de forma preocupante as suas evidências e os seus algozes.

Já a Igreja Católica importunou-se com a possibilidade da retirada de símbolos religiosos de repartições públicas. Ora, nada mais justo, afinal tais espaços sociais de trabalho são laicos e não devem fazer menção a qualquer tipo de religião. Todavia, com a sua trajetória em nosso país desde a colonização portuguesa ocorrida no século XVI, a Igreja Católica tem interferido em vários domínios sociais, fundamentalmente aqueles associados à educação. Além disso, não deixa de ser polêmica a descriminalização do aborto, assunto caro para os vetustos representantes do Vaticano.
 
Por fim, o programa ao bater de frente com o agronegócio enfrenta adversários no Congresso Nacional (ala ruralista) dispostos a não permitir que a grande escala de produção agrícola que beneficiam em grande medida poucas famílias e empresas, deem lugar aos subsídios relevantes à agricultura familiar. O programa também prevê a regulamentação dos mandados de reintegração de posse fundiária, um novo estatuto para os povos indígenas e a taxação sobre grandes fortunas (já conjeturada desde a aprovação da Constituição Federal em 1988).
De fato, o programa como um todo apresenta imperfeições e, possivelmente, muitas de suas intenções não sairão do papel. A discussão de tal documento nos vários âmbitos da sociedade brasileira foi muito frágil, para não dizer quase inexistente (apresentada em formato eletrônico e no período das festas de final de ano). Por outro lado, seus princípios são muito valiosos, já que representam questões sociais não resolvidas neste país, tais como o latifúndio improdutivo, imposição hegemônica religiosa e a impunidade dos torturadores. Se o programa vai vingar, não se sabe. Mas, a polêmica está lançada! 
                                                                                                                                                                                        

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os limites de Copenhague

 

A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima em Copenhague, Dinamarca, foi literalmente uma ‘vergonha’, como bem apontaram os manifestantes presentes no lado de fora do encontro. Evidente que havia outros interesses por parte de alguns chefes de Estado em participar de um evento como esse, pois isso capitaliza visibilidade internacional, uma possibilidade de assento no Conselho de Segurança da ONU, tratativas comerciais diferenciadas, fortalecimento de nações não hegemônicas, etc. Mas, os limites de um acordo sobre a emissão de gases poluentes e de qualquer ameaça ao planeta Terra não podem estar descolados dos limites do Capitalismo. E isto significa perceber, analisar e avaliar outros prejuízos sociais em tal contexto.

A destruição da Terra já vem acontecendo há muito tempo. O número de favelas por todo o planeta é algo assombroso e preocupante. O urbanista estadunidense Mike Davis revela, por exemplo, que a situação da África é a mais extremada. A esperança de atenuar a pobreza urbana desapareceu de qualquer estimativa oficial, quando o FMI e o Banco Mundial observaram que as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU para a África não se cumpririam até 2015, i.e, não seria atingida por várias gerações. A África subsaariana, por exemplo, só obteria educação primária universal em 2130, uma redução razoável da pobreza em 2150 e a eliminação da mortalidade infantil evitável apenas em 2165. Até 2015 a África negra terá mais de 330 milhões de favelados, número que continuará dobrando a cada quinze anos. Tal realidade não é diferente para a América Latina, Ásia, Oriente Médio e Leste da Europa. Todavia, a maior concentração de miséria ou de indigência social está concentrada nas nações que se livraram do jugo colonial apenas há algumas décadas.

Nesta direção, pensar o impacto ambiental do planeta é repensar a sociedade em que vivemos. Uma sociedade carcomida pela exploração intensiva da força de trabalho dos seres humanos; pela desqualificação do trabalho feminino e utilização da mão de obra escrava em muitos países; da exploração do trabalho infantil e da ausência de escolaridade básica para milhões de crianças em todo o mundo. Os chefes de Estado em Copenhague, cada qual olhando para o seu próprio umbigo, não deram respostas satisfatórias e suficientes para a humanidade. Reduziram as esperanças de um mundo mais justo, acreditando por certo que haverá planeta ‘sustentável’ daqui a algumas décadas (como se isto fosse possível sem a interferência humana). A Conferência de Copenhague foi a demonstração autêntica de como o corporativismo industrial internacional não mede qualquer esforço em fazer valer suas metas lucrativas e a expansão de seus mercados, ainda que à custa de vidas e do planeta que nos subsiste.





sábado, 19 de dezembro de 2009

Furacão

todo dia
todo dia


eu me lembro


do que fui.


todo dia
todo dia


voz de furacão!

Escuta

é uma
forma de percurso
isso
que aqui está.

não posso
duvidar
da quimera
e nem da
rosa.

a vida
desta maneira

e o segredo
roto
a nos humilhar...

suas
sapatilhas
de desenhos
gélidos.

e a
palavra
doce
deste 
dia-inverno.

eu saberia te escutar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Livro de Jéferson Dantas na vitrine virtual AGbooks

DO QUE É DO HUMANO


Por: Jéferson Dantas
"Para entender devo me calar de maneira monástica. Retrucar seria inglório. Observar o gesto, as palavras cortantes que brotam daquela boca como ameaça sistemática. E às vezes nem era isso que ardia profundamente. Apenas o prazer de machucar, lanhar e depois cuspir. [...]. E sei que gostava de umas sujeiras; de umas ofensas cabalísticas, que findava no deleite do quartinho, onde se debulhava inteira na excitante orgia".

Autor: Jéferson Dantas
Tema: Literatura Nacional, Ficção, Poesia
Palavras-chave: existencialismo, ficção, modernidade, poética, prosa
Número de páginas: 40
Peso: 80 gramas
Edição: 1 ( 2009 )




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ASSIM

nesta
dança
um pouco de tua

luz


vi
tua pele
alva
e incandescente


e esta
chama
que ainda
arde

era
de manhã
no tempo
que
escolhemos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ÉGAB


o que eu sabia
era
o segredo
da casa.

casa-gelo
e ventania.

por certo
outra vida.

nem sequer
palavra
ou
distância.

égab,
a herança
tatuada
n'alma!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Alheio


sentado aqui
vejo estas pessoas
que
se arrastam
corpos pesados
e lamentos.

e devagar
te sopro
versos
e te ensino
coisas
que julgara
ter esquecido.

ah! a manhã
que me traz
a loba-luz
que me trai
reclusão!

já não procuro
tua boca.
e aqui
de perto
olho estas pessoas
e
não desperto...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Três


tu só
assim
em noites

a querer
voar
e a
querer
partir.

e não te
moves.

e assim
te
plantas
na cama
a morder
fronhas
e sonhos

como se
um
anjo
pudesse
lhe salvar...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DOIS


estas horas
que não passam.

e a principal
novidade
na cidade
é uma tevê
digital
num boteco
onde
os ratos
são fregueses.

e estas horas
que não passam.

e esta tinta
tão borrada
a
pintura
d'alma
que se escapa...

UM


a janela
deixa entrar
isso
que não é meu.

és
a bota
na garganta
a me
sufocar.

e eu me desfaço
desta tua
pouca alegria

e ímpeto
de amar!



CRÉDITOS DA FOTO:
DANIEL PEDROGAM

quarta-feira, 1 de julho de 2009

HOMENAGEM A UM GRANDE INTELECTUAL



Por Jéferson Dantas

O sociólogo Paulo Meksenas, de maneira precoce, deixou-nos no dia 22 de junho. Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1984), Mestre em Didática pela Universidade de São Paulo (1993) e Doutor em Educação pela Universidade
de São Paulo (2001), Meksenas era professor adjunto IV da Universidade Federal de Santa Catarina e atuava no Programa de Pós-Graduação em Educação onde, entre outras atividades, ministrava a disciplina de Educação e Epistemologia. Na
Licenciatura em Pedagogia ministrava as disciplinas de Pesquisa e Prática Pedagógica I, II III e IV. Autor de inúmeras obras e coordenador de atividades de extensão, Meksenas descobriu tardiamente que estava com câncer. A convivência pessoal e intelectual com este grande educador marcou, profundamente, a vida de muitos estudantes, futuros educadores e colegas de ofício, que puderam desfrutar de sua sabedoria e de sua generosidade ao tratar de temas tão espinhosos e caros ao processo educacional.

Como todo intelectual engajado e erudito, Meksenas nunca fugiu dos litígios concernentes ao processo de formação de educadores, enfatizando a importância politizadora no território escolar e, fundamentalmente, a necessidade permanente da pesquisa e leitura na Educação Básica. Nesta direção, condenava o ‘senso comum pedagógico’ e políticas públicas educacionais voltadas a uma produtividade acadêmica muitas vezes estéril e pouco propositiva. Apesar de toda a sua erudição, nunca se esquivava das indagações aparentemente ingênuas provenientes de seus discípulos, além de apresentar uma postura democrática e não arrogante no convívio acadêmico. Numa de suas últimas aulas na disciplina de Epistemologia e Educação recebeu o carinho e o respeito de todos os seus alunos, que foram, praticamente, unânimes em afirmar que a sua conduta como educador era irreparável, mesmo quando os autores estudados (Marx, Weber, Comte, Merleau-Ponty, Foucault, Thompson, Agnes Heller, Bourdieu, Nietzsche, dentre outros) apresentavam diferentes níveis de apreensão teórica e metodológica. Em outras palavras, Meksenas ‘tornava fácil’ o que era, aparentemente, penoso, quando se trata de autores fundadores do pensamento humano.

O legado de Meksenas é inegável. Quando um intelectual de sua envergadura nos abandona de forma tão abrupta, sabemos o quanto a nossa responsabilidade como educadores-formadores e/ou intelectuais orgânicos se eleva. Contudo, há de se avaliar também o autocuidado que muitas vezes nós, educadores, deixamos em segundo plano, tendo em vista que o mergulho nos embates com os nossos pares e com as ações políticas enviesadas no campo educacional podem nos fragilizar organicamente e psiquicamente. Em tempos escassos de referências humanas íntegras, Meksenas nos ensinou, sobretudo, que lutar por uma condição humana melhor e por uma educação pública de qualidade é o princípio-mor de uma sociedade justa, solidária e igualitária.

CORAGEM PARA MUDANÇA!




Por Jéferson Dantas

A maneira cuidadosa ou mesmo eufemística de tratar o presidente do Senado, José Sarney, como ‘patriarca’ (melhor seria dizer ‘oligarca’) representa, em grande medida, a dificuldade que a mídia de massa tem em enfrentar lideranças políticas que se empoderaram à custa da ignorância pública e da corrupção estrutural que grassa este país. Amigo pessoal de Antônio Carlos Magalhães e abrigado em legendas partidárias conservadoras, Sarney tem tentado reeditar no Senado a velha prática clientelista e/ou patrimonialista herdada de nosso passado colonial. Eleito senador pelo Amapá, - numa evidente manobra política para continuar se perpetuando no poder - Sarney começa a vislumbrar o término de uma carreira política construída nos porões da ditadura e, ironicamente, prosseguida com o período de redemocratização do país (1985), quando legou de forma indireta a presidência da República com a morte de Tancredo Neves (membro da mesma chapa no Colégio Eleitoral).

Creio que, se pudéssemos medir os efeitos perversos e nocivos do custo social das oligarquias no Brasil ao longo de séculos, teríamos um quadro, efetivamente, devastador (e desanimador). Tais práticas calcadas no clientelismo, favoritismo e nepotismo, apresentam uma intimidade bastante tênue com o atraso social, representadas na deficiente prestação de serviços públicos essenciais. Não cabe, pois, defender quem sempre soube que cometia erros premeditados, crente na impunidade. A sensação é de que se tais ‘ranços’ forem extirpados das práticas políticas democráticas de cunho representativo e se houver possibilidades concretas de barganha originárias da sociedade civil, teremos outros níveis de entendimento democrático, que condenarão ‘atos secretos’, ‘compras de votos’, ‘alianças espúrias’ e ‘guerra declarada por cargos públicos’.

O inferno astral do presidente do Senado está apenas começando. Muitos outros parlamentares envolvidos e mancomunados com tais práticas terão de responder publicamente pelos seus atos. Aos poucos, o Brasil inicia o processo de prestação de contas com o seu passado, o que significa repensar o domínio permanente de determinados clãs políticos; a acessibilidade social dos historicamente excluídos; e, fundamentalmente, compreender as novas reconfigurações dos movimentos sociais, que poderão ser determinantes na reavaliação contra-hegemônica pautada numa agenda de ação coletiva plural e antissectária.