sexta-feira, 23 de setembro de 2011

TOCA-ME


às vezes
um toque
machuca,
 mesmo quando
o
toque-ternura
quer amar.




às vezes
o toque
penetra,
mesmo quando
a
loucura-ternura
quer matar.


às vezes,
o toque
pode  remoer
antigas
mágoas do tempo.



O NÃO-LUGAR


meu lugar
é o não-lugar.
meu caminho
é o não-caminho.
minha alegria
é a não-alegria
discórdia de dois mundos.



mundo caduco,
fábula de
sonhos tão incertos.



é quando não sou é que
me reconheço,
na estrada nua dos teus braços.
na tragicomédia
de nossos atos.




e me entrego ao crepúsculo.
e me entrego ao crepúsculo...

LEVEZA


na manhã de
chuva
as leituras que faço
são tensas
confidenciais.


o café quente
preparado no acordo
das horas
reluz na
fina têmpera do
quarto de estudos.

 preparo-me
para o exercício do tempo
e penso na mulher
que amo.

 fico feliz
com as gotas
da chuva...
 com
 as minhas escolhas.


e quando
o domingo se finda
acenando para
mais uma semana
nem o coração
entende
o porquê de tanta
leveza
em tempos de
neve nos
semblantes alheios.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

TARDE ÚMIDA


Quero poder dormir sem culpa
e ouvir o cantar da chuva ...
               Quero poder sentir meu corpo
               integrado,
                sem perda nem cansaço,
                na força de meus passos
o Homem pleno e amado...

Nas folhas das árvores,
onde o orvalho se esconde,
minha menina me beijará
agridoce
             serena
                     e hesitante ...
    com o coração quase
                                 exultante...

Quero expandir meu peito,
respirar o ar mais puro da cidade,
flertar com a menina do vestido
molhado e
de cabelos anelados
manchando os ares
com minha
espada
em
sangue...

Enredo a angústia,
ilustrando a minha
dor mais
aguda...
Uma chamada tua
não será mais ameaça
e a chuva
apertará os nossos passos e tu
sentirás
minhas mãos úmidas e
nossos
olhos
terão o brilho do
fogo...!

Quero encostar a cabeça no travesseiro, na
última hora do dia ... com extrema euforia ...
com meu mais fantástico ardor ... minha mais
                      dolorosa alegria ....

                                                                                 1994.



quinta-feira, 1 de setembro de 2011

DO LIVRO 'PALIMPSESTOS OU O MERGULHO DAS VOZES'


Todo dia é uma redenção. E eu teimo em falar. Você me dizia que não valia a pena sonhar. E eu escutava vozes de furacão; recordava-me do que fui e do que foste. Queria apreender aquele exato momento em que te encontrei chamejante. Aquele instante em que percebemos que estamos próximos de tudo que sempre buscamos. Tudo turva ignorância! Somente reflexo da aparência. No interior mais fundo que desejávamos construir, algo foi se perdendo, alavanca hoje do meu desespero. E o teu olhar cada dia mais triste, dizia-me mais do que míseras palavras. E, ao acordar vazio, ainda sonâmbulo, de mil noites mal dormidas, percebi que tinhas partido... sim! Foste viver os teus sonhos perdidos. E a pior sensação da perda é acreditar que aquilo que tínhamos ainda pode estar ali...como da primeira vez...como da primeira vez...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Alerta para Florianópolis



Jéferson Dantas[1]

As chuvas que abalaram a cidade do Rio de Janeiro nos últimos anos, ceifando a vida de centenas de pessoas, notadamente as que residem nas encostas dos morros, é uma demonstração evidente de que as políticas públicas nas grandes metrópoles foram incapazes de resolver problemas crônicos de ocupação irregular nos morros e, principalmente, em reduzir as elevadas taxas de migração. A cidade de Florianópolis, guardadas as devidas proporções, vivencia uma situação tão alarmante quanto à do Rio de Janeiro. Apenas em sua área insular no Maciço Central do ‘Morro da Cruz’, concentra-se aproximadamente uma população de 30 mil habitantes. A área total do Maciço é de 2,1 milhões de metros quadrados, sendo que quase 700 mil metros quadrados são de ocupação humana. Todavia, outros ‘bolsões de miséria’ tem se espalhado por outros bairros periféricos de Florianópolis em seu recorte insular e também continental, sem falar do elevado adensamento populacional nas cidades que circundam a capital catarinense.

Já na década de 1990, das 11 áreas de risco da ilha de Santa Catarina, 9 estavam concentradas no Maciço do Morro da Cruz, provavelmente ocasionadas pela extração de madeira, esgotamento do solo e construção de habitações irregulares. Num período de chuvas mais constantes, o perigo de deslizamento nas encostas dos morros sobe para quase 10%, segundo estudos dos geomorfólogos. Se o adensamento populacional nas comunidades dos morros do Maciço manter este ritmo nos próximos anos, provavelmente teremos um cenário trágico tão devastador quanto o que ocorreu no Rio de Janeiro e Niterói.

Compreender as desigualdades espaço-temporais e as dinâmicas de produção da existência nos espaços urbanos deveria estar no horizonte de qualquer planejamento estatal. Entretanto, numa cidade como Florianópolis onde os espaços públicos estão sendo cada vez mais privatizados e onde há um isolamento ‘sanitário’ entre os de ‘cima’ e os de ‘baixo’, as perspectivas não são nada animadoras. Tais territórios ‘guetizados’, muitas vezes sem acesso à água potável, sistema de esgoto, recolhimento do lixo doméstico, são formados por homens e mulheres estigmatizados por viverem nos morros (muitos/as deles/as provenientes das áreas rurais de Santa Catarina), ainda que boa parte Da força de trabalho da construção civil sobrevenha destes espaços sociais. Não há mais como fugir desta problemática, sob pena de, literalmente, chorarmos sob o leite derramado.






[1] Historiador e Doutorando em Educação (UFSC). Articulador, pesquisador e consultor pedagógico na Comissão de Educação do Fórum do Maciço do Morro da Cruz (CE/FMMC). E-mail: clioinsone@gmail.com.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A OFENSIVA DOS HISTORIADORES



Jéferson Dantas[1]

A materialidade do ofício dos historiadores são as fontes (periódicos, revistas, relatórios, iconografias, atas, cartografias, etc.) e, a partir delas, a investigação sócio-histórica se adensa e se complexifica de acordo com as ferramentas metodológicas provenientes de sua episteme. No que tange ao conhecimento histórico escolarizado, a pesquisa acadêmica oferece importantes subsídios para os professores da Educação Básica repensarem as suas práticas pedagógicas ou mesmo adotarem livros didáticos sintonizados com a reflexão permanente e o gosto pela pesquisa.

Contudo, os historiadores – profissão ainda não reconhecida/regulamentada pelo Congresso Nacional – estão impossibilitados de exercerem o seu ofício, principalmente aqueles que lidam com a história recente do país. Documentos relacionados à tortura durante o período ditatorial no Brasil (1964-1985) encontram-se indisponíveis, justamente, para os/as profissionais que mais necessitam destas fontes para a condução de suas investigações científicas. Países como Argentina e Chile têm prestado contas do seu passado histórico recente, não apenas para trazer à tona as chagas da Ditadura, mas para que as novas gerações conheçam e lutem por uma sociedade desprovida da lógica persecutória e de atentados à vida e à dignidade humanas.

O ex-ministro da Defesa, Nelson Jobim, foi omisso ou incapaz de interceder junto às Forças Armadas a abertura dos documentos relacionados ao período ditatorial. Fica-nos a impressão de que não é importante remexer nas feridas do passado, protelando-se ou condenando ao esquecimento o que, efetivamente, não pode ser esquecido. Os historiadores lidam, essencialmente, com três categorias centrais: o tempo, o espaço e a memória. Na conjugação destas três categorias estrutura-se a ‘narrativa histórica’, delimitada temporalmente e dependente das fontes disponíveis. O Estado brasileiro, todavia, tem negado aos historiadores o direito da pesquisa, embora a Comissão de Direitos Humanos e Minorias no Congresso Nacional tenha aprovado a criação da Comissão Nacional da Verdade, que objetiva o esclarecimento da violação dos direitos humanos durante o regime militar.

A Lei da Anistia de 1979, uma excrescência jurídica que igualou torturadores e torturados, tentou apagar definitivamente qualquer possibilidade de dissenso. Entretanto, a História existe para continuarmos lembrando daquilo que insistentemente os variados veículos de manipulação insistem em menosprezar e destruir. Clio, portanto, manter-se-á insone e vigilante!


[1] Historiador e Doutorando em Educação (UFSC). Secretário-Geral da ANPUH (Associação Nacional dos Professores de História) Seção Santa Catarina. E-mail: clioinsone@gmail.com.