quarta-feira, 8 de junho de 2011

POEMAS DA JUVENTUDE I


QUANDO O QUARTO SUMIU


                                                            “Somos jovens  jovens  jovens
                                                              Frio do Demo no abdômen
                                                              agora sigam-me todos...
                                                              ...o doce o amargo os
                                                              venenos...”
                                                                          ( David Burliuk )


Ah, os poetas russos!
Visões irmãs de todos os poetas do mundo.

                            Agudo!
              ( Ouço Vozes ... )
                             Flutuo!
               ( Ouço cânticos ... )

“E contemplo a Natura Virgem, como o
Azul Celeste e a Terra Amante...”

O silêncio do quarto ainda perdura...
em demasiado gozo de procura...

Dois pêlos eriçados, a faca no peito adormece
soluçando... e dois anjos nus se amam... Ah, tudo lhes
pertence, bondosos jovens!



                                                                                                    1991.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

POEMAS ANTIGOS II


música
de época alguma

o som
até universal
seria

não fosse
a alegria
não fosse
a alegria

rir do
parangolé
de Hélio,
rir do homem
sério de Hol(l)anda
a banda
abandabandabandabandalheira

e rompiam a manhã
com força de Shazã
com a transgressão
do viril Tarzã

pouca valentia
 a charada do dia:
qual foi o grito primevo
do universo?

citou versos
de lembrança?
obra barroca corriqueira

a bunda feminina exposta
no muro de uma escola
diz mais
do que a
prosa oitocentista

e quando o sangue jorra
na sala-de-estar
no jornal das 8
minha vó lamenta
e dá boa noite ao
homem-âncora

POEMAS ANTIGOS I


a HQ com
seus heróis
de araque

bom mesmo era
o mandrake

como nos ministérios
mandrake
fazia desaparecer dinheiro

mandrake
tem nomes bem
luso-brasileiros

silveirinhas
que o digam

e o Brazil
inda é só mandinga

o falso místico
arregala o
sobrolho e
mete a mão no bolso
do tolo

e quando
dormes –
no inferno do verão –
arrotas camarão
encharcado em óleo reutilizado

ora,
cansei de ser enganado.


terça-feira, 17 de maio de 2011

A 'blitz' da educação

 

Nos últimos dias a tevê Globo tem veiculado em seu telejornal noturno (Jornal Nacional) matérias referentes à educação pública nacional, relatando os dados do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de determinadas escolas, seus dilemas, desafios e histórias de superação. No enredo teledramatúrgico tão próprio deste jornal de variedades eletrônico, ‘especialistas’ em educação são convidados para comentar as experiências educativas nas unidades de ensino com melhor e pior desempenho no IDEB em diferentes regiões do Brasil. Os ‘experts’ educacionais têm, em grande medida, formação em economia e, é a partir desta perspectiva (economia educacional), que taramelam sobre os rumos da educação em nosso país. Toda esta articulação em torno da ‘qualidade da educação nacional’ que envolve o Estado e o empresariado nacional vem desde 1990, quando o Brasil foi signatário da Declaração Mundial ‘Todos pela Educação’, em Jomtien, na Tailândia.

A reestruturação produtiva do capital nas últimas décadas tem exigido uma força de trabalho mais flexível e uma escolarização básica um pouco acima daquela que se demandava nas décadas de 1970 e 1980, quando a “Teoria do Capital Humano” estava em seu auge. Sob o manto da qualidade total, tão comum no jargão empresarial, o capital percebeu que a força de trabalho nacional se ressentia dos poucos anos de estudo ou de uma escolarização precária que, longe de ser desprezada, atendia apenas um determinado segmento de seu setor produtivo. O que não se discute, efetivamente, nas matérias veiculadas pelo Jornal Nacional é a precarização e a intensificação do trabalho docente como um todo, que percebe salários indecentes e em muitos casos as piores condições de trabalho possível. Neste caso, ficam subentendidas as ‘histórias de superação’ através do voluntariado, presença das famílias e a desresponsabilização estatal. O modelo educativo público a ser seguido, conforme um dos ‘experts’, é o mesmo das escolas privadas. Ou seja: se a escola pública vai mal é porque os professores não se esforçam o suficiente, além de conduzirem suas práticas pedagógicas de forma muito ideologizada (e isto é péssimo para o capital).

Logo, se não são discutidas as premissas do modelo econômico vigente (o capitalismo), como exigir da escola pública a solução dos problemas da violência, do desemprego, da miséria, do narcotráfico e do meio ambiente, se a mesma é socialmente determinada pela lógica do capital? Ao tomar a escola como ‘determinante’ e não como ‘determinada’ pela violência estrutural do capital, só é possível concluir que o cinismo é a resposta mais adequada para os problemas educacionais do Brasil. Em outras palavras, exige-se da educação pública o ‘máximo’ com investimento ‘mínimo’, e disto os economistas entendem bem.