quinta-feira, 24 de março de 2011

ELA


E parecia profunda ebriedade quando conduzido pela pretérita lembrança do teu vulto de pernas, cabelos e seios à mostra! Engatilhada como quem nada tinha a perder, ofertava o doce dos lábios e a vermelhidão oblonga do sexo. Suave e intensa foi a noite da primeira entrega, de cansaços de braços e bocas. Por certo veneno e recôndita alegria.

E ainda quando o dia se desmoronava em medos, solidões e frustradas relações íntimas, procurava-me como desencanto mútuo e exigias lascívias selvagens, como bem relatava o corpo repleto de hematomas e sangues de unhas. 

Sem saber de onde vinha ou o que fiz durante todas aquelas horas, só compreendia o desejo e o enredo das confissões prosaicas, mas que sempre ocultavam fenestrações arcanjas e assim, num profundo torpor, sorvia o líquido do cálice em sangue.

E ainda querias companhia. Incerta. Apenas para ter próximo o que o desejo de vísceras teimava de forma eruptiva, flagrante, humana, animal e coruscante!  

    

segunda-feira, 21 de março de 2011

SEM PRESSA

intensos
são os gestos
e os olhos perdigueiros

menino que brinca
e aponta a
língua para o tempo

no mercado público
'almas no curtume'

e o menino
brinca
e lança suas ideias

força-lúdica
no coração
da matéria

SEM TÍTULO, DE EDUARDO SPONCHIADO ROSA, ILHA DE SANTA CATARINA [2011]
 

FÁBULA

Um brinquedo animado
sentido
pesado moinho...


Artefato
cores do infante.


Elos multicores
urgem 
ventos e tambores.
Eis o infante
alarme-tempo
quentura


SEM TÍTULO, DE EDUARDO SPONCHIADO ROSA, 2011.
da vida adiante!

terça-feira, 8 de março de 2011

ILHA-GRIS


Até hoje, quando acordo todas as manhãs e ouço as primeiras cantigas dos pássaros, tenho a impressão de que esta cidade não vai corresponder ao meu desatino, tampouco vai me acolher entre suas ruas estreitas e íngremes. A trilha sonora desta ilha de desterrados é um fado ininterrupto. 

Assim, esta cidade sem eco me guia para a sonolência e a reclusão deliberada. Ainda que toda manhã os pássaros prenunciem em seus cantos de alvoroço que nada está, realmente, no seu lugar.

PELE DE PENUMBRA


E qual foi o maior arrependimento? A escrita despedaçada ou a vida ordinária carcomida pela tensão constante? E isso que não terminava, e isso que destruía, vento de espasmos, sublime e amendoada pele de penumbra.

E tua voz que cortava o ar na fuga de minhas adagas-serpentinas; e bem que deliravas no carnaval particular destes sonhos tão medíocres, mas de ardor singelo, busca minha e tua.

E aquelas aquarelas esquecidas pelos cantos modorrentos da casa, tons gris de tua experiência primeira.

E o ato final foi a renúncia sofisticada de entranhas e sonhos menores. E disso não me eximia, pois desde o início busquei o teu limite e a minha deletéria agonia!

SILÊNCIO




Respeite o meu silêncio. Não o silêncio sem palavras, mas o silêncio da penumbra. Não me exijas o que não posso lhe dar ou aquilo que nunca poderei lhe dar. Respeite minha crença e os meus tombos cotidianos. Deixe-me respirar com vontade!

Entenda! Respeite o meu lugar no mundo, não muito e nem tanto. Assim, deixe-me num canto a ruminar as coisas e os intentos secretos. Esqueça de mim por um tempo...

Perceba a minha concentração para objetos que talvez não tenham importância para ti. Não queira ler os meus pensamentos e apontar com o dedo autoritário e pontiagudo o quanto sabes das cinzas e das flores. Contento-me com os meus espólios e os aromas que criei em segredo.

Só fale o necessário e mesmo assim em determinados horários. Não venha com toda essa aura onipotente que não lhe cabe e, de fato, não cabe a ninguém. Só registre o encontro ordinário, as fagulhas e as chamas intermitentes. Aliás, comece a me esquecer bem devagar. Quem sabe um sonho, outra vida, uma aposta divertida... Respeite o silêncio e a distância da espera.  

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ALHEIO


 


Vai se perdendo o desejo e a lascívia do primeiro encontro. Sobretudo, é o gozo interrompido; é a viuvez da relação carcomida pela verborragia narcísica ou pela masturbatória evocação de dizeres incongruentes e estéreis.
O que se vê é este homem suspenso e alheio. Que se alegra com pequenas peripécias do destino; incapaz já de evocar o instinto e a abertura plena às experiências afetivas que fogem do ‘controle’, por conta da eterna culpa judaico-cristã.
É este homem-vácuo que caminha pelas ruas e enojado com a sua condição indigna de estar-no-mundo, prepara seus pequenos venenos para que a embriaguez assuma o controle de tudo! Só neste estado emergente e anestésico que sua virtude enterrada pode atender demandas estratosféricas. E, assim, encerra-se no território autístico satisfeito com as elucubrações noturnas de suores aziagos.
Mas, deixar que se apodere da alma o medroso impotente, que se acomodou na jaula doméstica em troca de um aparente sossego, revela-se como a destruição da criação poética e potencializadora! São estes tempos de adagas no corpo e de frio na espinha; são estes tempos de corpos em brasa, mas que se auto-incineram e viram fumaça!
Este homem que se esfumaçou, síntese da automutilação, está condenado aos psicofármacos! A sua alegria vem da química induzida! E suas ações só podem ser concretizadas quando, virtualmente, sente-se liberto! E tudo aquilo que ele chamou de amor não aconteceu, de fato, em sua existência; são episódicos os estertores da alma! Isto já foi sinalizado na última aurora!
Culpado que está por não amar o suficiente, o homem-trágico trai o seu destino. Está humilhado! Divaga totalmente e divide suas parcas riquezas com tal parcimônia que nem parece se preocupar com as ruinosas escolhas e a decrepitude de sua aparência. Os sonhos são quimeras diante da cáustica urbanidade de múltiplos sons e pedrarias.
Suspenso, alheio e reticente, este homem vagueia atordoado, ora alegre com as pequenas conquistas, ora soturno com os seus embates interiores. Não há, aparentemente, mais tempo nem espaço para o rompimento do acordo tácito e imobilizador das alianças equivocadas e não-amorosas!
 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

CARNAVAL E CINZAS


E se eu rasgasse
a fantasia?
A tua máscara?
Ainda ias
me querer?

Continuarias
insinuante
faiscante
loba-louca de desejo?

E quando
 a farra fenecesse,
seriam
cinzas
as tuas
lânguidas mordidas
agridoces?

E se eu te desejasse
além dos dias
da carne?
A provocação de
seios e coxas desnudas
fariam
parte de nossos
rotos dias?

Eis que
partias numa
esfumaçada
rua de
inebriantes cigarrilhas...

E toda a gente
amargando
o pó
enredada
no colorido-serpentário
de serpentinas.