sábado, 19 de fevereiro de 2011

PERMANÊNCIAS


O que fica
deste ensinamento
não é o desfecho,
tampouco a ilusão
de ter sido menos.

O olhar perscrutador
hoje ausente
ainda é fagulha
em nossas ações
de erro, falibilidade e ousadia!

O que ‘idolatramos’
não é o ser inalcançável,
mas aquilo
que nos aproxima como
espécie.

O que permanece
reconstrói
e lança-nos
ao inefável,
torrente de todas
as lamas, vivências, amorosidades
e perdas/encontros incalculáveis.
                                                                 

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A SOLUÇÃO FINAL: MARCAS DA TRAGÉDIA


E, então, vieram as delações, os interrogatórios intermináveis, as prisões e os desaparecimentos. Fomos interrogados seis vezes durante uma só semana. O marido de _____ foi encontrado para depor e o mesmo não titubeou em denunciá-la como subversiva, mãe irresponsável e envolvida em encontros e guerrilhas clandestinas. Foi o que bastou para que _____ se apartasse de mim para sempre. Quanto a mim, o próprio jornal em que trabalhava foi extremamente sucinto: “Não passa de um reporterzinho de porta de cadeia!”. Reduzido, portanto, a um repórter anônimo, que fazia matérias sobre estupros, furtos, assaltos, pedofilia e violência doméstica, penso que os interrogadores não acreditavam que eu fosse perigoso para a sociedade.

Destruído por perguntas sem sentido e pelo fato de ter perdido _____ sem lutar, provocou-me enjoos insuportáveis e vômitos noturnos. O toque de recolher foi adotado há duas semanas. E, sabe-se que existem áreas de extermínio de andarilhos e de supostos delinquentes. A assepsia social agradou em cheio os senhores que desfilaram em nome da TRADIÇÃO, FAMÍLIA e PROPRIEDADE. Aos poucos, o comércio e as escolas foram reabrindo. Os hospitais destruídos pelos conflitos armados foram reconstruídos pelo exército. Os jornais que ainda circulavam exibiam a manchete em tons vibrantes: “ACABOU O CAOS! A ORDEM SOCIAL IMPERA!”. As fronteiras da cidade foram, paulatinamente, reabertas.

Os corpos incinerados ou jogados ao mar nunca puderam ser identificados. Com a extinção temporária dos partidos políticos, a Junta Militar governava com mão de ferro, assessorada por especialistas civis e servis. O número reduzido de estudantes nas escolas dava bem a medida da quantidade de crianças e jovens assassinados durante o período de limpeza social. O prefeito-predador relatava com orgulho: “O mal foi cortado pela raiz! Invés de permitir que mais delinquentes nasçam desta genética apodrecida dos miseráveis resolvemos eliminar todos no nascedouro! As pessoas de bem, acredito, estão do nosso lado!”. E, assim, resolvia-se o problema da distribuição de renda, da equidade social, da fome e do abrigo!

DIÁLOGOS [1]


“Nem sei o seu nome”, perguntou-me, ao mesmo tempo em que acariciava minhas pernas e meus pêlos púbicos, deixando-os se encaracolar entre seus dedos. Respondi-lhe: “Meu nome é .....!”. Explicou-me a origem do meu nome em tom professoral e depois disse o seu próprio nome: “Sou .....”. Continuava acariciando meu corpo. Sua face se transfigurara. Havia, aparentemente, ganhado contornos mais joviais. Encostou sua cabeça sobre o meu peito e encolheu as duas pernas de forma quase fetal e indagou-me:

_ O que vai acontecer conosco? Quais são as chances de sairmos disso tudo com vida e um pouco de dignidade? Fracassamos como humanidade?

_ Estamos apenas redimensionando o que não mais importa. Não fomos suficientemente solidários quando precisávamos. Abrigamo-nos, invariavelmente, em nossas bem construídas retóricas, defendidas para poucos. Você pode me achar um desesperançado.

_ Não. Sempre precisei de tempo para escrever, ler, pensar, preparar aulas, seminários, palestras... mas que público era aquele? Era uma gente confinada numa mesma lógica de reprodução acadêmica. Idéias e trajetos são necessários para mudar vidas, perspectivas, não?

_ Se você entende as coisas desse modo hoje, dê uma chance a um novo destino. Estamos aqui, totalmente destruídos pelas forças do autoritarismo; esmagados e revirados do avesso. O que é mais inglório nisso tudo?

_ Inglório? Ora, de certa forma concordamos com as ações do Estado. Alguém que ‘cuide’ de nós; que nos mantenha ordenados, obedientes. Nunca aprendemos a ser autônomos...

_ Com o quê e com quem sonhávamos? Seguimos que caminho? Era isso o que desejávamos?

_ Você me condena?

_ Não!

_ O que nos destrói é este narcisismo fugaz. Somos poeira.

_ E agora? Nas mãos de generais ensandecidos com seus fuzis e ‘soldadinhos de chumbo’ seremos dizimados.

_ Quanto tempo tudo isso vai levar?

_ Não sei se percebes. Chegamos ao limite. A partir daqui tudo será de uma brutalidade sem tamanho. Não vejo nada no horizonte. Os meios de comunicação estão tomados. A limpeza social está indo de vento em popa. Seremos números perigosos nas ruas.

_ Recuso-me a aceitar! Você está conformado! Já tivemos momentos piores em nossa história.

_ Não sou conformado. Mostro-te os fatos. Não quero morrer sem fazer nada! Assim foi a minha vida inteira, escondido numa redação de jornal, cobrindo tudo pela ‘metade’, sem poder relatar nada que ferisse os princípios da ‘empresa’. Estou tão ferido quanto você!

_ Estamos no fundo do poço, então?

_ Estamos tergiversando!

_ Queremos soluções a partir do umbigo... ou de nossas crenças vazias e medíocres ...

_ Não necessariamente vazias, mas desprovidas de coletivo. Fomos condescendentes com a exploração, a miséria, o despudor, a ignorância, a corrupção... agimos como a lógica desta sociedade queria. E depois íamos para as nossas casas, resolutos e confiantes de nossas ações benevolentes.

_ E isto diz respeito a todos nós!      

_ Perdi dois grandes amigos ainda bem jovens. Um se suicidou. Viveu o seu limite, condenando o seu entorno com declarações públicas virulentas e rompendo com as amarras familiares. De repente, havia se transformado num homem de felonia descabida. Destruíra o amor da mulher com quem convivia e quase a assassinou num ato de disparatado terror. Já a minha amiga sempre teve compromisso com os mais necessitados, participando de movimentos sociais, recolhendo donativos, além de se expressar nos mais variados segmentos artísticos. Era uma dessas pessoas que facilmente nos apaixonávamos. Infelizmente, seu brilho e a alegria foram ceifados pela guilhotina da virilidade áspera de um homem incapaz de amar. Assassinada por ser alguém acima da mediana espécie humana.

_ Como espécie, estamos fadados à autodestruição? É esta a tua definição final?

_ Temos caminhado para este ponto, não é mesmo? A barbárie é a nossa condicionante!



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Palavra 
que não adere

adereço
estético
de
quem
não experencia

experiência
mesmo
é a 
dose mais
forte
deste veneno-essência
eis a questão!

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O DUPLO

É este duplo que vaza incoerência, cabeça-enxame do tempo. É esta difícil escolha, às vezes desejo inconsequente, mas tão pouco para o sempre. Razão pela qual desatino e encontro tuas nuvens nas paragens adocicadas e multicores deste universo paralelo criado anteontem. E quando cinza o teu metálico sorriso; e quando raiva é o que espuma pelos teus dentes submarinos, minha sombra se oculta na túrgida retentiva do que expressei até então.

Não confias no meu intento e sua sibila corrói por dentro. E o plástico movimento da quimera já não te seduzia há muito, e se dizia infecta por ter concordado com as diretrizes opostas de crenças anteriores.

Apenas sarcasmo te veste e nem mais se importa com o vocabulário impróprio ou com os jogos de cena enturmados num solilóquio vespertino, porque aí você é única persona.  


sábado, 30 de outubro de 2010

LANÇAMENTO DE LIVRO DE FLORIANO MARTINS.

O escritor, ensaísta e tradutor cearense Floriano Martins lançou livro em Florianópolis no dia 22 de outubro. Jéferson Dantas relançou a plaqueta 'Suspenso e Alheio', editada por Camilo Prado. O evento aconteceu no Bar Taliesyn, no centro de Florianópolis.

À esquerda, Jéferson Dantas; no centro, o escritor Marco Vasques; e à direita, o
escritor Floriano Martins.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

OS POEMAS DO MAR - CANTO DOIS


Mal clareou o dia,
E lá estava o escrivão,
Com seu bico de pena
E a imaginação a mil.


O mar batia
Calmo nos rochedos,
Embalando a mente
Fértil do repórter-navegante.

Observava a voluptuosidade
Das nativas,
Os seios desnudos,
Os glúteos vermelhos,
Sem que nada
Cobrisse
As suas vergonhas.

Analisava o cenário
Paradisíaco como quem
Deleita-se com
O inalcançável.
E sua pena ágil
Ia contornando o papiro
E mais elementos
Da paisagem
Tornavam vigorosas
A sua narrativa.

A terra dos papagaios
Era, definitivamente,
Uma terra de gente sem credo,
E o escrivão se ria por dentro
Relatando ao Rei
As facilidades
Da empresa lusitana.

Mas,
O escrivão
Não notara,
Que os nativos carregavam
Em seus corpos
Todas as crenças
De seu povo,
Em desenhos
Tatuados nos braços, ombros e
Costas.


E, embora
A expedição não desejasse
A redenção
De seus contínuos
Espólios,
O escrivão folgazão
Por certo
Exagerou
Ao solicitar à majestade
A soltura de seu
Genro ladrão
E uma ‘ocupação’ do
Mal-afortunado
Na Corte Real.