sexta-feira, 29 de outubro de 2010

OS POEMAS DO MAR - CANTO UM


À noite,
O grito de Afonso Ribeiro
Era devastador.



Chorava muito
E os nativos
Choravam juntos.



Ribeiro
Olhava o seu rosto
No regato
E não acreditava
Que as naus
Já haviam içado âncora.



Restava apenas
Uma ânfora
Deixada pelos tripulantes,
Causando curiosidade
Entre os nativos.




E Ribeiro chorava mais ainda,
Acompanhado
De um coro incomum...


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

CONVITE: RELANÇAMENTO DE 'SUSPENSO E ALHEIO'

Caros/as,
convido-lhes para o relançamento da plaqueta 'Suspenso e Alheio e as minhas reticências sinceras', conforme o convite abaixo.

Saudações poéticas,
Jéferson Dantas.








quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DO LIVRO: O ASSOMBRO DA BARBÁRIE & OS AMORES LIBERTÁRIOS

[1]

Não sei bem quando tudo começou. Todas as crises e revoluções ocorrem sem aviso, embora houvesse uma conjunção de fatores impostergáveis para o tirocínio. As milícias que se espalharam pelo país aterrorizaram toda uma geração de guetos oligárquicos. Filhos e netos impossibilitados de perseguirem a sina dos gabinetes ministeriais; famílias quatrocentonas desaparecendo; elites urbanas desesperadas. E todas as ações eram relatadas e divulgadas nos meios de comunicação alternativos e também na mídia de massa. A inquietude dos grandes meios de comunicação conclamava os ‘cidadãos de bem’ contra o terrorismo num país tradicionalmente ordeiro e conformado. E até houve procissões que pipocaram aqui e ali com diversas palavras de ordem em seus cartazes: “ESTADO! RELIGIÃO! AUTORIDADE! DIREITO À PROPRIEDADE E À LIBERDADE!” O embate estava dado. E um jovem político, engordado pela herança paterna, teve sua língua cortada e suas orelhas mutiladas, tal como ocorria com os vagabundos que perambulavam pelas ruas da cidade, desprovidos de saúde e trabalho. E era evidente que surgissem as primeiras tentativas de um coup d’état, afinal, o ‘Estado de Exceção’ estava acima do cidadão.
Os desastres da guerra (Goya, 1746-1828)

Todavia, isto não era privilégio de um ou outro país. Quando dezenas de países desapareceram da África, por conta das pandemias e de todos os misticismos religiosos, o que se ouviu foi a triste e natural constatação de que não houvera um ‘planejamento consistente’ nestas regiões e, que infelizmente, alguns milhões precisam morrer para a salvaguarda de outros. Tal era a cegueira nestes tempos sombrios! Não se podia mais resolver as contradições internas de uma lógica social que levara toda a humanidade a um estado de brutalidade sem limites. Como fechar os olhos para os saques sistemáticos? Os incêndios nas escolas confessionais e públicas? E já se tornara ‘naturalizado’ o estupro e assassinato de professores e professoras; a total depredação dos prédios escolares, escolhidos como o baluarte da ‘miséria do mundo’. E uma leva de analfabetos indigentes grassava as ruas, recolhendo o que sobrara dos estilhaços da urb caótica.

Não! Não era um pesadelo. Talvez fosse uma questão de tempo a precipitação destes acontecimentos. O que mudara, sobretudo, era supostamente a ausência de uma causa coletiva. A revel tinha o firme propósito da destruição do ‘mal’ em seu nascedouro. E as tantas mortes de um lado e de outro não tardaram a acontecer. O exército tomou as ruas. E por milhares de dias o conflito se estendeu... e é esta experiência que aqui relato. Falo das fendas, das fronteiras entre o estabelecido e o alternativo; de almas que não se renderam à barbárie e de outros espaços de aprendizagem. Vivíamos uma explosão anômica sem precedentes. E também não estaríamos seguros com aqueles homens fardados, sedentos de sangue. Este era o cenário. Ninguém estava protegido. E é no limite que a humanidade se supera. Para além de todos os paradoxos, as diferentes experiências humanas congeminaram-se.


CORPO

Desde a primeira vez, quando retive o cheiro de seu corpo em minhas narinas sôfregas, aprendi o desejo de uma maneira sem sentimento. E lânguida gemia suave aos meus chupões descabidos e o corpo alvo de contornos belos como derradeira imagem. Se eu sofro hoje por ter apenas vestígios deste evento amoroso, não me compadeço, contudo. Sei de como as mortalhas dos dias seguintes foram dolorosos para ambos. E a minha miséria foi conscientemente construída. 

Depois, tudo foi aspereza. As noites doloridas da espera. Demorava-se para deitar-se do meu lado e rezava coisas inaudíveis. Tinha medo de minha reação e chorava, secretamente. E passei a cuidar de coisas sem qualquer importância. E os meus olhos baços eram incrivelmente tristes e distantes. Quando sumiu aos poucos da casa, não consegui reagir. Roupas que desapareciam; depois alguns móveis; um dinheiro guardado de uma escrivaninha... E, assim, sumiu de vez. E aguardei que voltasse. Que dormisse do meu lado e rezasse como fazia todos os dias. E o abandono da casa e do meu corpo denotava a fetidez do que se constituíra aquela relação destruída pelos anos. E tentei desvendar o descaminho da ruína, mas era difícil me concentrar. Minha cabeça piolhenta coçava sem parar. E não me reconheci no espelho.

À decrepitude do meu corpo lancei todas as honrarias. E não eram sábias as horas do infortúnio. Quando cansei de esperá-la fui ao encontro do sol do dia. E era óbvio o meu estado inadimplente, incompatível com as primeiras juras ingênuas. E de lá vi as nuvens. E eu não sentia medo nem remorso. E então pude compreender o limite da existência.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

DO QUE É DO HUMANO - PARTE 2

Para entender devo me calar de maneira monástica. Retrucar seria inglório. Observar o gesto, as palavras cortantes que brotam daquela boca como ameaça sistemática. E às vezes nem era isso que ardia profundamente. Apenas o prazer de machucar, lanhar e depois cuspir. Este era o comportamento constante e nada havia de voluptuosidade. E sei que gostava de umas sujeiras; de umas ofensas cabalísticas, que findava no deleite do quartinho, onde se debulhava inteira na excitante orgia.

E na queda da volúpia, quando o jogo terminava, abruptamente desvencilhava-se de meu afago e vestia a roupa flamejante, jurando para si mesma que tudo se tratava de um engano. Pois era assim que gostavas de me  ter, para depois expelir, raivosa, os destroços da noite incompatível.

E gostava dos sons das catedrais, porque era uma redenção transcendente e te deixava mais pura e até mesmo casta. Não suportavas o próprio cheiro e banhava-te demoradamente até que uma suave bruma fantasiosa cobrisse a tua face para que tudo serenasse.

Eu, espectador ativo de tuas loucurinhas, tinha por passatempo reunir os lençóis e travesseiros, organizando o novo cenário da captura amorosa. E fazias pouco caso deste movimento e, ao mesmo tempo, já maquinavas como seria a experiência do outro dia.

E quando fui embora, cobrejavas pela sala, intuindo magnetos insolentes, pois era disso que se alimentava e a espera não tardara.

terça-feira, 20 de julho de 2010

DO QUE É DO HUMANO - NON OMNIA POSSUMUS OMNES


Foi este arrebol inesperado que te trouxe para o meu conforto mais íntimo. Eu que já não sabia brincar, agora tinha tempo de sobra para te acompanhar nesta viagem fantástica de redemoinhos e labirintos. Eu retornaria mais são e menos importunado com tolices de outrora. É que eu aprendera com a última estação a ser menos auto-sabotador e ter cuidado com os amigos de longa travessia. A menina sorrira com o meu pouco jeito diante das flores do jardim, tomando-me por certo como ilustre desconhecedor das coisas da terra. E ela estava coberta de razão. Na estratosfera de minhas transpassadas morbidezes ou de coisas inconclusas que povoam a nossa mente, nada poderia ser mais infértil ou desagregador. E percebia que foram os tantos dias de solitude, ainda que fizesse sol ou chuva, que criaram este estado bruto e distante do que é coletivo. E talvez eu pouco compreendesse do êxtase da alma quando acreditava me bastar no horizonte de meus objetivos tacanhos.

E a menina ao plantar sua primeira flor no jardim improvisado, beijou-me a face e confidenciou-me que também possuía jardins secretos nos seus sonhos, mas lá tudo parecia maior e mais colorido. Disse-lhe que os nossos sonhos têm o tamanho de nossa grandeza e ousadia. Ela riu, pois não entendia muito bem o que isso poderia significar. No outro dia, como por encanto, o jardim multicor se apresentava com todos os seus aromas sutis e penetrantes e era isso o que pretendia guardar desta aprendizagem simples e tranquila, que pode não mover mundos, mas que certamente me moveu.  

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Raulzito faria 65 anos de idade

Passados 21 anos desde o desaparecimento do cantor e compositor baiano Raul Santos Seixas (1945-1989), finalmente o roqueiro mais irreverente do país ganhará (provavelmente) seu primeiro longa-metragem. Trata-se de um filme-documentário que será dirigido por Walter Carvalho, mesclando imagens de arquivos de emissoras de tevê e outras encenadas indicando o início da carreira do músico. Apesar da inegável importância de Seixas no cenário musical brasileiro, até hoje não se realizou uma cinebiografia à altura de seu talento e muito menos uma biografia que contemplasse aspectos de sua existência que fossem além de chavões ou de cultos mitomaníacos.

Raul Seixas nasceu no dia 28 de junho de 1945 e se estivesse vivo estaria completando 65 anos. Iniciou sua carreira artística em Salvador sob a influência do rock e do baião de Luiz Gonzaga no final da década de 1950. Pertencente à classe média baiana, Seixas desde cedo tomou gosto pela literatura e queria ser tão importante quanto Jorge Amado. Porém, encontrou o seu caminho na linguagem musical.

Desiludido com o rock nacional da década de 1980 começou a compor de maneira mais espaçada e suas aparições públicas tornaram-se mais raras. Para Seixas, o rock nacional teria perdido a sua irreverência. As canções passavam a atender cada vez mais o mercado, transformando-se em meros produtos pasteurizados. O estético teria vencido o protesto.

O último trabalho musical de Raul Seixas foi realizado com o parceiro Marcelo Nova em 1989. Bastante debilitado e aplicando-se insulina regularmente, a emissão vocal titubeante de Seixas em nada lembrava o músico debochado e inventivo da década de 1970. Dentre os temas desta última obra estão os xiitas ecologicamente corretos, uma crítica bem humorada ao cantor inglês Sting, que esteve no Brasil posando de defensor da causa verde, reflexo do fenômeno arrivista que se agudizaria na década de 1990. Ainda sobram ironias para os livros mais vendidos do momento – os denominados best-sellers. As demais canções revelam momentos singulares da vida do músico, enfim, um inventário de sua produção artística. No dia 21 de agosto de 1989 o poeta anarquista embarcou num disco-voador e nos deixou um legado que tem acompanhado diversas gerações.

PELÉ E MARADONA


Pelé e Maradona: dois mitos da bola inquestionáveis. Pelé teve como a sua copa do mundo inesquecível o palco do México em 1970; Maradona, por seu turno, teve o mesmo palco do México para o brilho e o talento do seu futebol em 1986. As comparações e/ou semelhanças vão ficando por aí. Maradona volta e meia provoca Pelé e a imprensa argentina não se cansa de dizer que Maradona foi o melhor jogador do mundo de todos os tempos. São dois temperamentos distintos. O Maradona bufônico e intenso contrasta com o Pelé pragmático (quase fleumático) e empresário.

Suas histórias de vida também são distintas, mas vamos nos deter em suas personalidades. Maradona gosta de ver a sua imagem vinculada a outro mito argentino: Ernesto Che Guevara (1928-1967). Foi se tratar em Cuba devido a um processo de dependência química que quase abreviou a sua existência. Faz questão de chamar a atenção para si, e o seu personalismo ou a sua personagem desponta para ações que vão do excessivo afeto ou para a fúria destemperada. Já Pelé procura vincular a sua imagem ao filantropo, preocupado com as crianças pobres e sem escolaridade do Brasil. Sem qualquer vínculo político-ideológico consistente, Pelé é a personagem bondosa e caridosa, que no arquétipo de mito parece estar acima do bem e do mal. E nisso os dois se assemelham.

No brilhante livro do jornalista uruguaio Eduardo Galeano, Memórias do Fogo, o articulista relata a trajetória de Pelé e Garrincha, dois gênios da bola, mas também suas trajetórias distintas (Garrincha morreu na miséria). Pelé, literalmente, soube capitalizar seu nome a uma ‘marca’ conhecida nos quatro cantos do planeta. Ao se preocupar excessivamente com a sua personagem, não se deu conta de que um de seus filhos estava envolvido com consumo de drogas. A ficção e a realidade agora se confundiam.

A pretensa desavença destes dois ídolos do futebol alimenta a imprensa carnívora e temperou um pouco o mundial na África do Sul. No que se refere aos limites da coordenação técnica de Brasil e Argentina, Maradona representou a comédia e o drama, talvez calculadamente arquitetada; já Dunga, parecia ter saído dos porões da ditadura no melhor estilo ‘ame-me ou deixe-me’, liderando um escrete disciplinado, religioso e pouco dado à criação.


quarta-feira, 9 de junho de 2010

A repressão em Santa Catarina


Por mais precário que seja o Estado de Direito em nosso país e todos os legalismos que o cercam, é certo que ações repressivas e autoritárias não condizem e não devem mais condizer com um país que aos poucos vai aprendendo a lidar com os limites da democracia. Nos vinte e um anos de ditadura militar (1964-1985), o Brasil experenciou o silenciamento dos movimentos sociais, da imprensa livre e de todos e todas que não concordavam com a política da mordaça e de seus vínculos nefastos com agências internacionais coniventes com a tortura e o desprezo às garantias individuais de cada ser humano. Nesta direção, Santa Catarina tem dado péssimos exemplos para todo o país.

A Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) foi invadida por rigoroso aparato repressor no último dia 31 de maio, num inequívoco desrespeito aos direitos constitucionais, à livre expressão e organização da sociedade civil representada, neste caso, por estudantes (desarmados e pacíficos). Houve quebra da inviolabilidade do espaço acadêmico; utilização de armas que emitem eletrochoques e que causam paralisia momentânea, estratégia também utilizada para reprimir professores recentemente no estado de São Paulo. Tais armas já estão sendo alcunhadas de ‘paus-de-arara portáteis’. A repressão se dá contra estudantes que lutam por um transporte coletivo de qualidade e que apresenta as maiores tarifas do Brasil, denotando as escolhas políticas do poder público municipal por práticas privatistas e desrespeitosas à população de uma maneira geral. Estudantes e professores da UDESC foram, literalmente, encurralados no campus do Itacorubi.

Neste sentido, está ocorrendo intensa mobilização por parte de educadores e professores da UDESC e da UFSC na denúncia e apuração dos fatos ocorridos no final de maio. Fatalmente, isto será levado ao ministério público como abuso de poder estatal (seria melhor dizer governamental). Fica-nos aqui uma referência vergonhosa de tudo aquilo que aos poucos vamos expurgando de nosso imaginário coletivo, mas que ainda está muito manifesta nas ações do Estado quando sem qualquer habilidade dialógica reprime, viola, tortura, agride e quer silenciar! Porém, a história nunca silencia.

OS CRÉDITOS DA IMAGEM SÃO DO JORNALISTA CELSO MARTINS.







quarta-feira, 26 de maio de 2010

EXCESSOS

Excesso de
não entender.

Muita coisa
não é
inteligência.

Mais vazio
do que
pretendias.

Quanto mais
enxuto
mais inteireza.


Eis
a faca no pescoço!

Quando
será o
mergulho?

domingo, 25 de abril de 2010

A PRESSA QUE MATA

frágil existência.

a raridade
da
entrega.

notícias
tristes
que
reorientam
a vida célere
e absurda!

nebuloso dia
dum cinza
metálico
enfático.

a vida
se perde entre os
dedos
como a
areia da
ampulheta.


quinta-feira, 15 de abril de 2010

DO QUE É DO HUMANO - LIVRO DE JÉFERSON DANTAS

O livro 'Do que é do humano' é formado por pequenos contos, numa linguagem simples e direta. Confira! Clique no título acima e boa leitura!

Saudações literárias!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O amarelo do tempo

à mesa
com papéis amarelos
a me contar coisas
que vivi
e isto
era estranhamento.

palavras que
teriam brotado
de minha boca 
em algum
momento.

eu que
teria paralisado
em alguma
'outra vida'
agora retomava isso
misturado
e suspenso.

pois que agora
o que via
era um novo-antigo
que 
aperfeiçoava
o que havia
esquecido.

quinta-feira, 4 de março de 2010

A CONSTRUÇÃO DA MEMÓRIA

Por Jéferson Dantas

Em relação à matéria dominical do jornal AN (28/02/2010) sobre os vinte anos de desaparecimento do ex-governador de Santa Catarina, Pedro Ivo Campos, penso ser importante ressaltar controvérsias para que não tenhamos uma visão unilateral deste personagem político, notadamente proveniente de seus antigos aliados e correligionários. 

O governo Pedro Ivo Campos representou a vitória de um PMDB moderado, para não dizer conservador. Depois dos anos de chumbo e de um processo de redemocratização ainda capengo, Pedro Ivo assumiu o governo sem demonstrar qualquer compromisso com o Plano Estadual de Educação (PEE) construído a duras penas pelos/as educadores/as de todo o estado de Santa Catarina durante o governo Amin (1983-1986). Além disso, na primeira greve do magistério durante o seu governo (1987-1990), agiu de forma truculenta e autoritária lembrando os momentos mais torpes do período ditatorial no Brasil. Foram mais de dezessete mil professores demitidos. Perguntado sobre as lacunas pedagógicas que estes educadores deixariam, Pedro Ivo Campos teria respondido com o seu ‘jeito peculiar’: “Quem leciona Geografia pode lecionar História”. Alheio às complicações pedagógicas que tal ação poderia proporcionar, seu governo conseguiu desmobilizar as eleições diretas nas escolas, além de destruir todos os propósitos contidos no PEE.

Como bem nos ensina o historiador inglês Eric Hobsbawm em sua obra 'Era dos extremos', cabe aos historiadores lembrar o que a humanidade já esqueceu. Nesta direção, nenhuma herança política ou cultural deve ser analisada de forma pragmática, sem mediação e tensionamentos. Ao traçar o perfil deste político, entendo que o próprio discurso jornalístico desconsidera os antagonismos e a opinião de milhares de pessoas que não compartilham de tal pensamento único e homogeneizante.

O reacionarismo do governo Pedro Ivo Campos não era o mote de tal homenagem, pois via de regra, parece-nos que os mortos se deificam e nada mais pode macular a sua imagem. Ao identificar tais mediações e conduzir a análise para além de uma homenagem a - histórica, poderíamos ter um quadro mais honesto de sua herança política e isto exigiria ouvir diversos sujeitos históricos. Uma análise epidérmica e cronológica não possibilita aos leitores compreenderem a construção da personalidade política de Pedro Ivo Campos, tampouco as reestruturações internas de sua legenda partidária, bastante afastada nos dias atuais dos propósitos concernentes ao chamado ‘MDB histórico’.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Neoconservadorismo e consenso educacional



Por Jéferson Dantas

As recentes reformas educacionais oficiais em nosso país nas duas últimas décadas, notadamente no campo curricular e no processo de formação docente, têm demonstrado a permanência de um modelo escolarizado público profundamente enraizado no etnocentrismo, ‘branquidade’ e sexismo, conforme estudos do teórico crítico estadunidense Michael Apple. Além disso, os sistemas públicos de ensino estão nas mãos de sujeitos pouco afeitos ao diálogo e, sobretudo, comprometidos com suas alianças partidárias. Em outras palavras – e Santa Catarina não foge à regra –, impera o fisiologismo político num setor que necessita de mudanças efetivamente estruturais.

Não é segredo para ninguém os lamentáveis índices de reprovação e de evasão em unidades de ensino em que boa parte de seu público escolar é proveniente das camadas sociais mais pobres. O desequilíbrio de capital escolar e de transmissão de bens culturais ou simbólicos para crianças e jovens em tal contexto é resultado de uma prática recorrente, i.e., em tais ambientes de aprendizagem estão concentrados/as os/as educadores/as mais despreparados/as para enfrentar tal realidade, não sendo raro o absenteísmo docente; produtividade escolar pífia; ausência de critérios de avaliação coadunados com uma prática educativa emancipatória e, fundamentalmente, pouquíssima valorização salarial da classe docente. Para os neoconservadores, é mais importante que as escolas assumam currículos desprovidos de dissenso e que a reprodução dos valores hegemônicos continue fazendo parte do desalentador cenário escolar que temos em nosso país.

O recente resultado do ENEM (Exame nacional do Ensino Médio) demonstrou mais uma vez que em tal ‘lógica de ranqueamento’ as escolas públicas quase sempre levam a pior. Isto não significa que os/as educadores/as não se esforçam, muito menos os/as estudantes. Todavia, não se pode ter uma educação de qualidade sem que outras questões sociais fiquem em segundo plano. Uma criança ou jovem desprovida de capital econômico e cultural é a que mais necessita do capital escolar. Mas, não por acaso é a que mais abandona a escola e a que mais tarde terá maiores dificuldades de empregabilidade. Nesta direção, o consenso educacional defendido pelos neoconservadores procura imprimir uma marca indistinta no que compreendem ser os ‘verdadeiros valores’ a serem ensinados, prescindindo as comunidades escolar e local de suas próprias escolhas teórico-metodológicas. Como nos ensina Apple, faz sentido um currículo oficial nacional num país de dimensões continentais como é o caso do Brasil? Ou melhor: faz sentido uma escola burocratizada, hierarquizada, verticalizada e usada como moeda de troca em conchavos eleitorais?



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tantas palavras...

exigindo
palavras obtusas
às duas da matina.

querendo
explicação
de tudo
o que não sabe.

e eu filosofando
cartesianas
verdades
no vislumbre
da tarde.

agora me
reconhecias.

e podias
partir
repleta
de vazia existência.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010



PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS

Publicado originalmente no Jornal Notícias do Dia

 
O terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos lançado pelo governo Lula há algumas semanas está mexendo com três vespeiros clássicos em nosso país: militares, Igreja Católica e o agronegócio. No que tange ao primeiro aspecto, os militares compreendem que o documento apresenta elevado teor ‘revanchista’, principalmente com a proposta da ‘comissão nacional da verdade’, que tem por finalidade um exame minucioso do aparato repressor que grassou pelo Brasil em mais de 20 anos de ditadura. Evidente, que para o torturador do regime militar, agia-se em nome da defesa de princípios democráticos, ainda que a imprensa tenha sido amordaçada, houvesse todo e qualquer tipo de violação individual e a Constituição Federal tenha sido rasgada ao meio. Isto demonstra por um lado o sério e dificultoso processo de enxergarmos as nossas chagas históricas recentes, eliminando de forma preocupante as suas evidências e os seus algozes.

Já a Igreja Católica importunou-se com a possibilidade da retirada de símbolos religiosos de repartições públicas. Ora, nada mais justo, afinal tais espaços sociais de trabalho são laicos e não devem fazer menção a qualquer tipo de religião. Todavia, com a sua trajetória em nosso país desde a colonização portuguesa ocorrida no século XVI, a Igreja Católica tem interferido em vários domínios sociais, fundamentalmente aqueles associados à educação. Além disso, não deixa de ser polêmica a descriminalização do aborto, assunto caro para os vetustos representantes do Vaticano.
 
Por fim, o programa ao bater de frente com o agronegócio enfrenta adversários no Congresso Nacional (ala ruralista) dispostos a não permitir que a grande escala de produção agrícola que beneficiam em grande medida poucas famílias e empresas, deem lugar aos subsídios relevantes à agricultura familiar. O programa também prevê a regulamentação dos mandados de reintegração de posse fundiária, um novo estatuto para os povos indígenas e a taxação sobre grandes fortunas (já conjeturada desde a aprovação da Constituição Federal em 1988).
De fato, o programa como um todo apresenta imperfeições e, possivelmente, muitas de suas intenções não sairão do papel. A discussão de tal documento nos vários âmbitos da sociedade brasileira foi muito frágil, para não dizer quase inexistente (apresentada em formato eletrônico e no período das festas de final de ano). Por outro lado, seus princípios são muito valiosos, já que representam questões sociais não resolvidas neste país, tais como o latifúndio improdutivo, imposição hegemônica religiosa e a impunidade dos torturadores. Se o programa vai vingar, não se sabe. Mas, a polêmica está lançada! 
                                                                                                                                                                                        

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os limites de Copenhague

 

A 15ª Conferência das Nações Unidas sobre o Clima em Copenhague, Dinamarca, foi literalmente uma ‘vergonha’, como bem apontaram os manifestantes presentes no lado de fora do encontro. Evidente que havia outros interesses por parte de alguns chefes de Estado em participar de um evento como esse, pois isso capitaliza visibilidade internacional, uma possibilidade de assento no Conselho de Segurança da ONU, tratativas comerciais diferenciadas, fortalecimento de nações não hegemônicas, etc. Mas, os limites de um acordo sobre a emissão de gases poluentes e de qualquer ameaça ao planeta Terra não podem estar descolados dos limites do Capitalismo. E isto significa perceber, analisar e avaliar outros prejuízos sociais em tal contexto.

A destruição da Terra já vem acontecendo há muito tempo. O número de favelas por todo o planeta é algo assombroso e preocupante. O urbanista estadunidense Mike Davis revela, por exemplo, que a situação da África é a mais extremada. A esperança de atenuar a pobreza urbana desapareceu de qualquer estimativa oficial, quando o FMI e o Banco Mundial observaram que as Metas de Desenvolvimento do Milênio da ONU para a África não se cumpririam até 2015, i.e, não seria atingida por várias gerações. A África subsaariana, por exemplo, só obteria educação primária universal em 2130, uma redução razoável da pobreza em 2150 e a eliminação da mortalidade infantil evitável apenas em 2165. Até 2015 a África negra terá mais de 330 milhões de favelados, número que continuará dobrando a cada quinze anos. Tal realidade não é diferente para a América Latina, Ásia, Oriente Médio e Leste da Europa. Todavia, a maior concentração de miséria ou de indigência social está concentrada nas nações que se livraram do jugo colonial apenas há algumas décadas.

Nesta direção, pensar o impacto ambiental do planeta é repensar a sociedade em que vivemos. Uma sociedade carcomida pela exploração intensiva da força de trabalho dos seres humanos; pela desqualificação do trabalho feminino e utilização da mão de obra escrava em muitos países; da exploração do trabalho infantil e da ausência de escolaridade básica para milhões de crianças em todo o mundo. Os chefes de Estado em Copenhague, cada qual olhando para o seu próprio umbigo, não deram respostas satisfatórias e suficientes para a humanidade. Reduziram as esperanças de um mundo mais justo, acreditando por certo que haverá planeta ‘sustentável’ daqui a algumas décadas (como se isto fosse possível sem a interferência humana). A Conferência de Copenhague foi a demonstração autêntica de como o corporativismo industrial internacional não mede qualquer esforço em fazer valer suas metas lucrativas e a expansão de seus mercados, ainda que à custa de vidas e do planeta que nos subsiste.





sábado, 19 de dezembro de 2009

Furacão

todo dia
todo dia


eu me lembro


do que fui.


todo dia
todo dia


voz de furacão!

Escuta

é uma
forma de percurso
isso
que aqui está.

não posso
duvidar
da quimera
e nem da
rosa.

a vida
desta maneira

e o segredo
roto
a nos humilhar...

suas
sapatilhas
de desenhos
gélidos.

e a
palavra
doce
deste 
dia-inverno.

eu saberia te escutar.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Livro de Jéferson Dantas na vitrine virtual AGbooks

DO QUE É DO HUMANO


Por: Jéferson Dantas
"Para entender devo me calar de maneira monástica. Retrucar seria inglório. Observar o gesto, as palavras cortantes que brotam daquela boca como ameaça sistemática. E às vezes nem era isso que ardia profundamente. Apenas o prazer de machucar, lanhar e depois cuspir. [...]. E sei que gostava de umas sujeiras; de umas ofensas cabalísticas, que findava no deleite do quartinho, onde se debulhava inteira na excitante orgia".

Autor: Jéferson Dantas
Tema: Literatura Nacional, Ficção, Poesia
Palavras-chave: existencialismo, ficção, modernidade, poética, prosa
Número de páginas: 40
Peso: 80 gramas
Edição: 1 ( 2009 )




sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ASSIM

nesta
dança
um pouco de tua

luz


vi
tua pele
alva
e incandescente


e esta
chama
que ainda
arde

era
de manhã
no tempo
que
escolhemos.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

ÉGAB


o que eu sabia
era
o segredo
da casa.

casa-gelo
e ventania.

por certo
outra vida.

nem sequer
palavra
ou
distância.

égab,
a herança
tatuada
n'alma!

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Alheio


sentado aqui
vejo estas pessoas
que
se arrastam
corpos pesados
e lamentos.

e devagar
te sopro
versos
e te ensino
coisas
que julgara
ter esquecido.

ah! a manhã
que me traz
a loba-luz
que me trai
reclusão!

já não procuro
tua boca.
e aqui
de perto
olho estas pessoas
e
não desperto...

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Três


tu só
assim
em noites

a querer
voar
e a
querer
partir.

e não te
moves.

e assim
te
plantas
na cama
a morder
fronhas
e sonhos

como se
um
anjo
pudesse
lhe salvar...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DOIS


estas horas
que não passam.

e a principal
novidade
na cidade
é uma tevê
digital
num boteco
onde
os ratos
são fregueses.

e estas horas
que não passam.

e esta tinta
tão borrada
a
pintura
d'alma
que se escapa...

UM


a janela
deixa entrar
isso
que não é meu.

és
a bota
na garganta
a me
sufocar.

e eu me desfaço
desta tua
pouca alegria

e ímpeto
de amar!



CRÉDITOS DA FOTO:
DANIEL PEDROGAM